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[Resenha] Fundador do Correio Braziliense é recordado em 'O Jornalista que imaginou o Brasil'

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Por João Tognonato, Colaboração para Frente & Versos

O intelectual Hipólito da Costa



Na história da imprensa brasileira, entre os mais notáveis homens, está um sujeito que poucas vezes pisou aqui. Construiu sua oficina com o acumulado de anos trabalhando como comerciante. Escrevia do gabinete, suas principais fontes eram documentos oficiais e marinheiros de passagem pelo cais do porto. Nasceu em Colônia do Sacramento e morou até os 14 no Rio Grande do Sul. Foi educado pela universidade de Coimbra, estendendo seus estudos nos EUA, México até voltar a Europa, onde passou a viver o resto da vida em Londres.

É sobre este homem, Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, que trata o livro “O jornalista que imaginou o Brasil,” lançado em dezembro de 2019, foi escrito pela doutora em ciência política Isabel Lustosa. Ela discorre sobre a trajetória da diletante figura de ‘da Costa', presente em grande parte da história de nosso país na forma de fibras de celulose e tinta preta.

Descrito como um homem clarividente, de espírito desassombrado, Hipólito da Costa tornou-se um fiel adepto dos princípios liberais. Foi em Londres, onde vivia sob asilo político, que obteve recursos para fundar o Correio Braziliense; o nome é tirado de uma categorização criada por ele: Brasileiros, eram aqueles que faziam comercio com o Brasil; brasilianos, os indígenas donos da mata; e brasilienses, portugueses paridos em solo nacional.

Impresso em edições mensais, divido em cadernos (Comércio & Artes, Literatura & Ciências, Miscelânea, Política, Reflexões & Correspondência,) e contendo alguns versos de poetas como Luís de Camões, o periódico seria o precursor da chamada impressa opinativa brasileira. Sua primeira edição, datada de junho de 1808, foi recebida satisfatoriamente pelo cidadão médio, que se informava até então pela monótona Gazeta do Rio de Janeiro – um jornal controlado pela corte Real, trazendo entre notícias do exterior e obituários de príncipes – um olhar hegemônico do Brasil.

Foi o início de uma guerra editorial. As opiniões enfáticas tecidas acerca do regime monárquico, malvistas por representantes da coroa, tiravam o sono de Dom João VI. Suas doutrinas liberais inflamadas começavam a rebulir nas mãos de insurgentes Pernambucanos, Gaúchos e Paraenses, e o rei não tinha soberania o suficiente para prendê-lo em território inglês.

O jornal pouco dizia aos brasileiros. Se havia alguma representatividade, ela estava nos poucos liberais mais intelectualizados e interessados no mercado estrangeiro. O povo em si não era retratado, e os ideais iluministas de Hipólito da Costa passavam longe do velho comunismo que veio depois.

Prestes a fechar as portas, as vésperas da independência, Da Costa deu uma declaração bastante elucidativa em relação sobre o que pensava ser o melhor caminho para a nação

“Ninguém deseja mais do que nós as reformas úteis, mas ninguém aborrece mais do que nos sejam essas reformas feitas pelo povo. (...) Desejamos as reformas, mas feitas pelo governo, urgimos que o governo as deve fazer enquanto é tempo”.

Assim, o Correio Braziliense foi sendo esquecido, ao passo que outros jornais circulavam pelas alamedas das cidades e capitais brasileiras. É engraçado, porém, que Hipólito da Costa seja patrono da nossa imprensa. Talvez tenha sido determinado pelo mesmo homem que tornou o Duque de Caxias patrono do Exército Brasileiro, vai saber. O melhor a fazer é comprar o livro e tirar as próprias conclusões, pois uma figura tão controversa quanto ele é digna, pelo menos, de um pouco de atenção.


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TÍTULO: O jornalista que imaginou o Brasil – Tempo, vida e pensamento de Hipólito da Costa

(1774-1823)

AUTOR:Isabel Lustosa

EDITORA:UNICAMP

ANO:2019







(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da F&V)

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