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[Resenha] Em seu romance de estreia, escritora israelense guia o leitor entre guerra e paixão

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‘Uma noite, Markovitch‘ (2018) é uma viagem pela guerra, literal e das paixões


Por Giovana Proença




“É humanizador você se deixar por algumas horas e se importar profundamente com personagens de um lugar que você nunca viu” defendeu a escritora israelense, Ayelet Gundar-Goshen na mesa “Literatura e Fábula”, durante a 17ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). A declaração corrobora com a envolvente humanização das personagens, que leva o leitor a sinestesia com o amor e o desvendamento da psique humana em seu livro de estreia Uma noite, Markovitch, publicado no Brasil pela Todavia.


 No enredo, dois amigos lançam-se aos mares da Europa para casar-se com jovens judias interessadas em estabelecer-se na Palestina a fim de fugir das forças nazistas. Ao retornar eles deveriam libertá-las pelo divórcio, fato aceito pelo conquistador Feinberg, que tinha a tempestuosa Sônia aguardando-o como uma Penélope que espera o retorno de seu Odisseu. Porém, Markovitch, um homem comum e sem atrativos, recusa o divórcio à estonteante Bela,  sentindo que essa era a chance única de amor de sua vida coadjuvante e preferindo a certeza do inferno à eternidade da dúvida.


Com forte cenário político-social, a eclosão das guerras mundiais e locais lançam os personagens à sorte no cenário construído pela autora. E ainda, no desenrolar de Uma noite, Markovitch, as personagens provam que não são meros peões no tabuleiro, sendo movidos por paixões irrefreáveis e obstinações resignadas, de modo que o conflito principal do livro é exposto por meio do desvendamento de suas mentes e ações, o que resulta numa obra capaz de transmitir valores humanos que ultrapassam as linhas de seu enredo.


Os atos bélicos cometidos em nome da conquista do território e da pátria e as insanidades oriundas da paixão levam a comparação do olhar para a terra e do olhar para a mulher amada, reforçando as ações e reações da força das paixões, emaranhadas por pensamentos atuantes contra as adversidades e obstáculos impostos. Ayelet lapida uma trama repleta de paralelos e sinestesias, tecidas por cujo maior trunfo é o mergulho nos oceanos aparentemente inavegáveis da mente de suas personagens. Uma narrativa de desvendamento – baseada numa história real que assombrou sua autora na tentativa de entendimento – e transformações, comprova a máxima de Heráclito de que não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, ou no caso, mar.

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TÍTULO: Uma noite, Markovitch

AUTOR: Ayelet Gundar-Goshen

EDITORA: Todavia

ANO: 2018

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