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'Enquanto agonizo' retrata a aflição da experiência humana na obra de Faulkner

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Romance de Faulkner demonstra que não é mais possível um narrador dar conta da totalidade da experiência humana

Por Laura Pilan, colaboração para Frentes Versos

William Faulkner em 1938. (Fotografia: Eric Schaal/Time LIfe/Getty Images).

Poucos livros propiciam uma leitura tão desafiadora quanto a obra de William Faulkner. As tradicionais formas de contar uma história não são capazes de sustentar a brutalidade de suas palavras. Ele deforma, corrompe e arrebenta as convenções da narrativa. A linguagem, cujo uso convencional perde o sentido, precisa passar por um choque e ser torcida, experimentada e modificada. Em Faulkner, as fissuras sociais se transformam em fissuras nos livros.


O autor, cujo primeiro romance foi publicado em 1926, escreveu sobre as causas da prosperidade dos Estados Unidos: as condições precárias de trabalho, o racismo e os resultados da escravatura. Através de seus olhos e de sua prosa, o Sul é descrito como um espaço de atraso econômico e com uma sociabilidade produzida pela pobreza, decorrente deste atraso.


Enquanto Agonizo é a primeira grande obra publicada depois da Crise de 1929. O título original – As I Lay Dying – remete a uma sentença proferida por Agamêmnon na Odisseia de Homero e enfatiza a importância do elemento da trajetória. Contudo, não há cantos escuros na poesia épica – existe apenas a visão do todo. O romance de Faulkner demonstra que não é mais possível que um narrador dê conta da totalidade da experiência humana.


A narrativa destrói a ideia de personagem. A partir de uma comunidade bastante restrita, Faulkner escolhe diversos pontos de vista. As inúmeras perspectivas – emitidas principalmente pelos membros da família Bundren e alguns de seus vizinhos – são, acima de tudo, apreensão da matéria histórica. Elas formam uma cacofonia vertiginosa de vozes que reflete diretamente a dificuldade de narrar.


A preferência de Faulkner pelo narrador “enlouquecido” é extremamente apropriada para descrever um processo social. O contato direto entre leitor e Darl, Cash, Dewey Dell e os demais filhos de Anse e Addie não é um facilitador – muito pelo contrário. A proximidade tão intensa ao quadro só permite que se enxergue figuras esparsas, formas geométricas e ângulos. Há caleidoscópios de perspectivas que formam um mosaico repleto de lacunas, saltos de um ponto para outro da narrativa e conexões misteriosas entre as passagens. As peças são misturadas e se chocam, não combinam como um todo. A expectativa de ordem é imediatamente frustrada: só nos resta a desconcertante dissolução de uma perspectiva organizadora do enredo.


Em Enquanto Agonizo, tempo e espaço são maleáveis como a teia de acontecimentos a qual se estabelece. A trama, contada por sujeitos que não conhecem as próprias motivações, suspende os conceitos universais de verdade e mentira. A única certeza que nos acompanha é o cheiro da putrefação que segue a família Bundren em sua jornada. É o corpo de Addie – a mãe – que apodrece. Seu último desejo é ser enterrada em sua cidade natal e, por isso, seu marido e seus filhos iniciam uma viagem cujo objetivo aparente é concretizar essa vontade. O abandono da região pobre e da situação de miséria inverte a ideia de aprendizado, uma vez que o ambiente urbano é responsável pela inserção do grupo em uma sociedade de consumo. Ironicamente, o filho que constrói o caixão se chama “dinheiro vivo” – Cash.


A ida ao campo costumava representar a descoberta de uma paisagem idílica, um refúgio de simplicidade. O romance de Faulkner demonstra que o ambiente é um universo tão complexo quanto o cenário urbano e com sociabilidades tão conflituosas quanto aquelas que encontraríamos em uma grande cidade. A padronização da vida social e da produção de subjetividades é inescapável – não há fuga.


O meio rural passa pelo próprio – e violento – processo de modernização. As relações já são profundamente marcadas pelas tensões provocadas pela circulação do dinheiro. Cora Tull, uma das vizinhas, é uma representação disso. Trata-se de uma personagem que conhece as ideias que permeiam o universo dos negócios e dos investimentos, aplicando-as ao doméstico. Ela mistura a habilidade comercial ao discurso religioso, de modo que a aquisição de novas perspectivas — sobretudo materiais — se transforma em realização social. Através dela, Faulkner nos apresenta uma realidade em que a palavra de honra – componente do mundo pré-moderno – não existe mais: é substituída pelo uso da moeda.


O acréscimo do dinheiro introduz uma nova lógica. A mercadoria se torna uma compensação simbólica para uma falta. Ainda que a morte de Addie Bundren seja o pretexto para a ida à cidade, cada um dos integrantes de sua família tem o próprio objetivo material e individual. O ambiente urbano é incerto, mas a jornada opera como o pretexto moral de honrar a memória da mãe – personagem fundamental que, em contraposição, recebe somente um capítulo em toda obra. Sua figura, constantemente associada com a terra e a propriedade, questiona os princípios tradicionais da maternidade – que, para ela, é vazia como são as palavras. Ser mãe é igualmente parte de um negócio: é a produção de mão de obra.


Darl, Jewel, Cash, Dewey Dell e Vardaman, como Anse e Addie, são agentes que não sabem que estão a encenar o momento histórico. Se fossem questionados sobre as motivações de seus atos, apresentariam razões particulares sem jamais ter a consciência de que são uma espécie de alegoria para um processo muito mais universal.


O segundo filho – Darl – é reconhecido por sua estranheza quando comparado aos demais. Entre os irmãos, é aquele que toma decisões que poderiam ser consideradas sensatas se não fossem tão drásticas – como incendiar um celeiro para queimar o caixão de sua mãe, uma vez que o cheiro já é insuportável e a presença do objeto é fonte de imensa frustação. Ele não pode ser resumido em características simplificadoras ou através de um tipo. Por destoar do conjunto, é internado compulsoriamente em um sanatório. Darl se diferencia justamente por sua consciência artística e – atrevo-me a dizer – poética. Levá-lo a um manicômio nada mais é do que assinalar que sua sensibilidade não pode sobreviver diante da cidade que se ergue.


Os raros resquícios de subjetividade de Vardaman são igualmente reprimidos. Ao longo do romance, os momentos de consciência são subitamente interrompidos – quase sempre pelo desejo de um bem de consumo. O mais novo dos Bundren representa esse processo com excelência. Seus devaneios confusos de criança, que associam a morte de Addie com a de um peixe, estão constantemente em busca de entendimento acerca da situação em que está submetido. Quando questiona sobre a ausência da mãe, lhe oferecem uma banana. Seu raciocínio infantil equivale a cidade e o trem elétrico de brinquedo que tanto deseja. Nenhuma dessas imagens combina com as frutas que sua irmã tenta lhe empurrar. Mas o que Dewey Dell compreende – antes que Vardaman possa – é que uma mercadoria pode facilmente substituir outra e que nenhuma das duas é capaz de suprir plenamente as vontades do garoto. O produto – seja qual for – deve preencher as lacunas em seu entendimento e amenizar seu sofrimento interior. Para Faulkner, a linguagem é a ferramenta essencial para a representação do trauma e da promessa consolatória da mercadoria.


Ao fim de Enquanto Agonizo, descobrimos uma nova espécie de sociabilidade ao redor de um gramofone – instrumento cedido pela nova esposa de Anse. O homem, que prioriza adquirir uma dentadura acima de todos os outros objetivos, rapidamente substitui Addie por outra mulher. A aquisição do objeto reúne o grupo e, uma vez que o corpo estranho – Darl – é eliminado, a família pode ficar em silêncio em uma falsa integração. Nela, só é possível escutar a palavra gravada, petrificada e fabricada que o objeto emite.


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TÍTULO: William Faulkner

AUTOR: Enquanto Agonizo

EDITORA: L&PM

ANO DE EDIÇÃO: 2009










(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da FV)

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