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[ENTREVISTA] Marcio Scavone: um sonhador homem-menino

\\ ESPECIAIS

Se vocês trabalham num negócio e não estão felizes, olha timetochange [hora de mudar]; porque não é possível que não dê para fazer o que a gente gosta, o que a gente sinta tesão… Eu não consigo imaginar uma vida sem fazer o que eu gosto

Por André Vieira e Emilly Dulce*

Imagens: reprodução/cedidas pela família Scavone


As dobradiças da porta de ferro estremeciam enquanto, em um último gesto de grande paciência, o fotógrafo dava as derradeiras voltas com a chave antes de abrir a escotilha de seu estúdio-navio a dois marinheiros de primeira viagem. não reparem na bagunça! Diria Marcio ao deixar seu chapéu Panamá no balcão da copa e seguir para seu pequeno bureau ao fim da gigante sala. No caminho até a escrivaninha de sr. Scavone topamos com o painel de trabalho do artista: nele, sua obra mais recente, o livro Copo de Luz (Editora Alice Publishing, 2018) divide espaço com retratos de pessoas conhecidas pelos olhos do povo — Fernanda Montenegro, Jô Soares e Edson Arantes do Nascimento (Pelé) — e memórias de um tempo que passou ou que ainda passa sobre os olhos cansados de Marcio, que, subitamente rompe o silêncio de seu caminhar:  Google, play some piano. De súbito, o pequeno aparelho em cima da mesa próxima ao painel vibra doce notas de Hans Wener Henze, em poucos instantes muda para um noturno de Chopin; seria essa a trilha-algoritmia que acompanharia a entrevista até seus instantes finais. Vocês tomam café? Indagava o fotógrafo enquanto lavava xícaras puídas que descansavam no chão da pia. Respondemos que sim.


O estúdio vazio, de paredes gastas, cadeiras vazias e fios emaranhados, oculta um ateliê que um dia foi o ponto de encontro de modelos, designers, redatores e publicitários boquissecos por arte e luz, ávidos pela fotografia além do enfoque de objetivas e medições fotométricas, em busca de Marcio. Como não seria diferente. Fotógrafo por mais de 20 anos em publicidade, autor de obras como Entre a Sombra e a Luz (DBA,1997), Cidade Ilustrada (Editora Alice Publishing, 2004) e Viagem à Liberdade (Editora Alice Publishing, 2008), além de recém-empossado da cadeira 9 (pertencente à poeta Ada Pellegrini Grinover) na Academia Paulista de Letras, Marcio não nega os grandes êxitos que obteve ao longo do percurso como fotógrafo e escritor. No entanto, revela, enquanto moí grãos de café e despeja pó de memória sobre a máquina, que sua maior conquista foi reencontrar seu menino interior, aquele ensinado em casa e na escola a abandonar: não posso mais desapontá-lo, sabe? O café está pronto…Vamos começar?


A atriz Fernanda Montenegro retratada por Scavone

Marcio, qual o diferencial de um fotógrafo que escreve?

Eu acho que o mais importante que escrever, e acho mesmo, é pensar a fotografia. Existem grande fotógrafos na história da fotografia que escreviam muito bem, mas eu não sei bem qual é a diferença; certamente, para ele, fotógrafo, isso faz diferença porque situa o profissional, coloca ele em outra prateleira, a prateleira de escritor.


Vocês conhecem uma expressão chamada “Violion d’Ingres”, ou o violino de Ingres? É uma expressão universal que eu topei ao rever um texto para um livro de um colega que toca violoncelo, o Tony. Ele também é fotógrafo e quando eu peguei algumas fotos que ele fez — ele fotografou 52 músicos, com instrumentos na mão, retratos, formais, com bastante alma, bastante esforço; fazer retrato é algo muito, muito difícil. Quando olhei as fotos dele pensei na hora: “Genial! Esse é o violino de Ingres dele”. Mas por quê? Essa expressão [violino de Ingres] se refere ao pintor neoclássico Jean-Auguste Dominique Ingres, que era um mestre na pintura e fenomenal na música, sobretudo no violino, por isso essa expressão se refere à “segunda coisa que você faz muito bem na sua vida e poderia ter sido sua profissão”.


Você acredita que seu “violino de Ingres” seja escrever?

Talvez, embora eu reconheça que eu seja pior escritor do que eu sou fotógrafo. Na verdade, todo mundo tem, acho, um segundo talento, uma segunda paixão; mas tem gente que nunca o descobre durante a vida inteira, nem consigo imaginar essa pessoa, mas ela existe.  Aí o que que geralmente acontece: o cara trabalha com o que não gosta para ganhar dinheiro, porque ele acaba engravidando a namorada e tem que ganhar dinheiro e a namorada também para sustentar a família. Então, o mundo nunca será um canto certinho onde haverá tempo para decidir as coisas na hora certa, no momento certo, o indivíduo nunca se descobrirá, e pior, é provável que você não floresça nesse tumulto: é mais  provável que descubra que você gosta de ganhar dinheiro e de ter sua vida desenhada em volta de “final de semana bonitinho, organizado, vida na casa da sogra, sofazão e frango assado” — que para mim são coisas horrorosas —, do que descobrir  que você está fazendo algo que você realmente gosta, independentemente das condições que lhe são impostas.


Quando me refiro a “coisas horrorosas”, é no sentido de detestar gente que fala: “Ai amanhã é segunda-feira”, para elas eu respondo And so? [e daí?]. Se você gosta daquilo que você faz, toda segunda é domingo. E sim, repito e sou prova máxima disso, isso existe! Se vocês trabalham num negócio e não estão felizes, olha time to change [hora de mudar]; porque não é possível que não dê para fazer o que a gente gosta, o que a gente sinta tesão… Eu não consigo imaginar uma vida sem fazer o que eu gosto.


Le Violon d’Ingres by Man Ray, 1924

E como foi isso de inserir mais o “Marcio escritor” nos livros (dando a mesma importância à foto)?

Todos meus livros têm texto meu, todos, desde o Entre a Sombra e a Luz. Eu sinto essa vontade de ter múltiplas linguagens. Às vezes, eu começo um corpo de trabalho e eu escrevo um parágrafo, uma linha, algo muito pessoal de meu processo de criação. Eu não sou TÃO bom fotógrafo para só fotografar, preciso da ajuda do texto [risos].


Marcio, você acha que se tornou um escritor da luz, como foi falado na cerimônia do dia 22 de março deste ano [evento de posse na Academia Paulista de Letras]?

Eu acho que sim, né. Eu espero que sim… Eu gosto de pensar que estou lá por causa da fotografia, eu não escrevo tão bem, fotografo melhor.


Mas isso não é curioso? Se tornar um “escritor da luz” dentro de uma academia de letras? Não seria um sinal de mudança dos tempos? 

É, tenho que tirar o chapéu para a Academia. Até porque, recentemente tomaram posse João Carlos Martins, que é músico e Júlio Medaglia [maestro e arranjador brasileiro] e eles contemplam chamar agora o historiador de música popular, Zuza Homem de Mello; é a abertura da Academia aos novos tempos. Música popular é street photography.


Mas você se acha um artista, Marcio?

Ah, eu me acho um artista, mas antes eu não me achava. Quando eu entrei nesse estúdio com 23 anos, pela primeira vez, eu tinha uma coisa na cabeça: ser um dos maiores fotógrafos de publicidade do Brasil.


E você o foi.

Exatamente. Aí pelas tantas, por volta dos 40 anos, acho que menos, com 39, 38, eu comecei a achar que aquilo era uma coisa muito superficial e que não era meu legado. Então, como eu comecei minha carreira muito cedo, eu tive chance de acordar cedo. Assim, a partir do primeiro livro que lancei Entre a Sombra e a Luz, eu descobri que a fotografia era muito mais importante do que os vários segmentos que a gente dá nome na fotografia. Quando eu comecei a entender que a fotografia era muito maior [que esses segmentos], por volta dos anos 90, eu me reinventei na publicidade, com a minha cara… Isso para mim foi uma conquista. Porque nos anos 80, eu chamo de 90 meu Break criativo, quando teve aquele golpe do governo Collor [confiscação das poupanças], e o estúdio bombava: tínhamos secretária, três assistentes, o telefone tocava o tempo todo… Vocês imaginam fazer orçamento num tempo que não tinha internet, sem fax, sem computador, que à época era caríssimo…


Quando eu comecei a fazer os retratos de publicidade que tinham a ver com meu estilo, eu me sentia um máximo: eu dei uma cara para a campanha do Banco Real, que era uma galeria de retrato de personagens; eu fazia o retrato da pessoa num lugar, na casa, em anúncios de página dupla… Os anúncios eram a parte nobre da publicidade, isso que era a grande coisa da publicidade, quando desapareceram os anúncios, os grandes publicitários desapareceram juntos, perderam o tesão, foram surfar no Havaí… Essas coisas. O anúncio sumiu, o anúncio que temos hoje é uma bobagem, com algumas exceções realistas de moda, mas não tem aquele apelo.


Entre a sombra e a luz, Marcio Scavone

Apelo?

É, não tem aquele texto, sabe?! Eram maravilhosos, magina. Ainda está fresco na minha memória o anúncio da Volkswagen, se chamava “Saia e Blusa”, coisa dos tempos áureos da propaganda que nem mais se chama “propaganda”, virou só “comunicação”.  Então, eu vivi com esses caras, “dupla de criação” [redator e diretor de arte], que eram verdadeiras estrelas, aquela coisa toda.


Mas aonde fica o artista nisso tudo?

É aonde eu queria chegar: imagine se eu iria conseguir fazer a transição, Emilly e André, se chegasse alguém aqui no meu estúdio e dissesse: “olha, sr. Scavone, sei que você faz publicidade, que você é muito bom no que faz, mas a partir de agora você é um artista: você só pode ganhar dinheiro fazendo livros e quadros…” You must be joking! (você deve estar brincando comigo). Eu olharia para aquela cena e falaria : “Ok, mas e todo meu potencial, todo esse treino que eu tive durante 20 anos frente às câmeras, os momentos que pessoas batiam palmas quando olhavam um cromo [foto revelada em determinado tipo de papel] em cima de mesa de luz, me pagando muito bem, falando que eu trabalhava na indústria de transformação — que pegava um filme que custava R$ 15 e o transformava em algo que valia R$ 15.000 —, como tudo isso, minha vida, minha arte, minha profissão, seria tirado de mim, num piscar de olhos?”. Felizmente, venci essa intranquilidade, essa desconfiança que vem da alma… Mas, essa transformação durou 10 anos.


Na minha transição, nos anos 90, para a arte, eu fui me entregando para meu íntimo, só para aquilo que eu gostava, o que me cativa. Acho que essa foi a transição para um artista que vivia adormecido: claro, sempre pus minha arte nos trabalhos que eu desenvolvia, mas fazia parte de uma “arte aplicada”, que é a publicidade. No momento que eu ainda trabalhava com publicidade, eu chamei essas criações de “fotografias inúteis” — lembro que batia muito nessa tecla — só a partir da minha reinvenção como artista, eu comecei a fazer as coisas que eu tinha certeza que iam ficar, as fotos que não eram encomendadas, as inúteis; sem utilidade nenhuma, a não ser o prazer próprio. Foi ali que comecei a falar de arte na minha vida e acho que quando você fica mais velho, seu verdadeiro “eu” aflora, e se você tiver a chance de deixar isso acontecer com você mesmo, você será feliz de novo, afinal, você tem que se respeitar.


E você é feliz, Marcio?

Eu sou muito feliz. Eu me respeitei de novo. Eu precisava do Copo de Luz para essa suposta “felicidade”; eu tirei meu acento agudo do “Márcio”, consagrando minha pequena reinvenção, secreta. A partir do “Marcio” sem acento, virei artista, o poeta. Eu nasci de novo.


Marcio, você acha que sua subjetividade, quando fotografa, e das pessoas que são fotografadas, é refletido na subjetividade [percepção] de quem olha essas fotos? 

Imagina quantas leituras legais você tem de um filme bom? É exatamente isso. Acredito que a mesma coisa acontece com os livros. Um mesmo livro que você lê aos 20, aos 40 e aos 60 anos são livros completamente diferentes. Na fotografia também, na música, em qualquer coisa relacionada à cultura. Essa palavra tão gasta “interagir”, “interação” que é a emoção que uma obra de arte desperta em você… Como é que você vai medir o que é bom em arte? Para mim é se aquilo me emociona. Eu não acho que a gente tem outra régua no ser humano além dessa, não se trata de nada intelectual, acadêmico…. Agora, sua emoção, o jeito que você se emociona com alguma coisa, ela é formada por toda sua cultura.


E sua trajetória.

Exatamente. Então, nós três não vamos nos emocionar, eu tenho certeza, com obras de Romero Britto. Mas a pessoa que não teve a chance de estudar ou de se contaminar com arte boa de “primeiro time”, pode se relacionar com aquele trabalho muito melhor que a gente; é um primitivo, digamos. Mas também, se você coloca essa pessoa diante de um quadro de Rembrandt [Rembrandt Van Rijn, grande pintor holandês], ela vai se emocionar, talvez por outros motivos que você não enxerga, mas é mais fácil uma pessoa que teve contato com o Rembrandt ou com retrato ou com a história da arte, ou com tudo que aquilo significa, se emocionar, do que uma pessoa comum, talvez. Eu não sei. A última vez que entrei no Rijksmuseum, em Amsterdã, num espaço de 30 anos que tinha visto pela primeira vez o autorretrato de Rembrandt, com 62, 65 anos de idade, não sei ao certo, eu lembro que entrei naquela sala, todo saltitante e alegre, e que, em menos de 5 minutos, eu me vejo com uma grande vergonha porque eu  pensei no meu pai, pensei nos retratos, em homens —  afinal, eu fiz retrato a vida inteira. Então essa emoção da obra de arte é absurda.

Duas horas se passam imersas sobre águas profundas a bordo do ateliê-submarino de capitão Scavone. No entanto, aos segundos finais de despressurização da embarcação de aço, com terra e, sobretudo, almoço à vista, Marcio dispara: Emilly e André, vocês sabem qual é meu grande sonho? Respondemos “não” de forma sincrônica. Acho que meu sonho é não machucar ninguém e ser feliz. E isso é difícil, sabia? Porque tem uma dose de liberdade, de criatividade e a vida vai te enchendo de coisas, de armadilhas, de gente, de obrigações. Mas acho que esse círculo que vivemos, que vem da adolescência até a velhice, mostra uma reaproximação do velho com a criação, então é justo que “se solte” essa pessoa, que acaba ficando mais velha, e volte a brincar de novo. Agradecemos as palavras de Marcio e voltamos para a rua, esperançosos em, um dia, também libertar a criança que vive em nós.



*Publicado na edição impressa da Revista Veredas


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