• Matheus Lopes Quirino

Era só uma janela

\\ ENTREVERES

Outra janela, ao caso. No meio do breu. E custou outra olhada. Levantei-me da escrivaninha, uma ideia nascia ali, tímida sob as luzes de um fantástico vizinho

Por Matheus Lopes Quirino


Certa noite estava o cronista a se debater, debruçado em textos impublicáveis, desses que o caminho para “despioração” é árduo. Portanto, chato. E com as forças jururus, este escriba menor – ainda mais ínfimo, ao caso deste –, embebido em forças maiores, as da preguiça, pôs-se a começar um novo texto, ao invés de cumprir com o protocolo pedagógico dos jovens autores: a reescrita.


E estando todo do contra com o texto, esta arte tratada em primeira ordem, com tamanho zelo do “não santo ofício”, o jovem levantou seus cansados braços a fim de abrir a janela do quarto para, justamente, arejar as ideias – se é que houvesse alguma que prestasse. E, ao fim de tal tarefa, deu-se um clarão, somente às ideias, pois o breu era tão denso que a suspeita do próprio universo estar baixado ali, naquela pacata noite no interior de São Paulo, era grande. Não fosse um ínfimo detalhe, tão miúdo quanto o próprio escritor, capaz de desabilitar tal lisérgica teoria: uma janela.


E não era a sua. Outra janela, ao caso. No meio do breu. E custou outra olhada. Levantei-me da escrivaninha, espremi as têmporas, para os olhos terem mais precisão. Ao mesmo tempo o breu clareava, conforme uma ideia nascia ali, tímida, pronta para começar a ser semeada. Era uma pequenina janela, de luz laranja, do prédio vizinho.


Coloquei-me a contar janelas, no ápice da madrugada, com uma doida vontade ir à rua para me juntar à farra das cigarras que residem no bosque ao lado. E, imerso no canto dos insetos, viajei. Olho ao meu redor e a luz do abajur começa a falhar. O computador já apagou. Quanto tempo passei ali? Não direi, não direi, não direi. Olho de volta para fora, a janela continuava lá, com sua luz amarela, laranja, ou qualquer cor parecida.


Voltando às janelas, aos andares, logo me perdi. Contudo, lembrei-me de uma informação precisa, matemática, ao quadrado. Meu professor de matemática do colégio residia no prédio da “janela acesa”. Morava “no último”. Que é o vigésimo, canta a memória. Décimo primeiro andar. De cima para baixo. Contado. Segundo as leis da física, quem reside no décimo primeiro andar tem medo do escuro, ou trabalha durante à noite – seria então outro escritor, talvez?


Caso a primeira hipótese não se confirme “até a publicação destas palavras” – esta locução de jornal clássica, usada para sanar minhas vontades, neste afã observador –, vale trabalharmos na segunda. A preferida.


E mora ali, então, um romancista. Certamente um gênio notívago. Alto, bonito, de papo incrível. Focado, bem-humorado, rico, e, sem titubear, inteligente à beça, além de estar em dia com o pilates e com o treino da academia. Um cara não só cortês, como estupendo, esses rapazes capazes de arrancar suspiros das senhoras e senhores no elevador, com sorrisos tão brancos como a neve. E ele está ganhando a vida… escrevendo um “best-seller”. Tão bom para ser verdade. Inexistente personagem. Voltamos à realidade. E o que há por hoje.


Após descrever uma espécie de antônimo crônico à minha persona… a luz se apagou. Literal e literariamente. O sr. gostoso morreu. Lembrei-me assim, logo, do João Gostoso, que teve um trágico fim. Talvez quem ali residisse, em minhas precárias fantasias, fosse um João, menos gostoso, claro, do que o de Manuel Bandeira. E já não se sabe mais se a gostosura é realidade ou ficção. O parágrafo chega ao fim. Mas a história continua – para sorte ou azar, mas nunca “best-seller”.


Desta vez, tímida, uma rala claridade tomou outra janela, a do décimo oitavo andar, da torre gêmea à residência do fictício João Gostoso. Parei por um instante e desci à cozinha para fazer um chocolate quente – péssima ideia para um voyeur de meia tigela –ou xícara, ao caso. Voltei e já estava tudo apagado novamente. O bairro jazia com as cigarras em orquestra completa. E as cigarras voavam elétricas como guitarras no bairro de cuícas e saxofones.


*


Mas o silêncio veio e engoliu todos os tamborins. Sem medir esforços para ceifar os atrevidos à sonata de gargalo. Esses perrapados que cantam mal, como o vizinho da frente, costumeiro vocalista de quinta, mas não só nas feiras – como às segundas, terças e quartas. É um terrível trovador. E seu apartamento, graças aos céus, está tão apagado quanto a noite. Sorte dos tímpanos da minha quadra.


Vinte andares. De um prédio só. Então, contando o gêmeo, são quarenta apartamentos. Quarenta vidas e histórias. Trinta e nove além do fictício João gostoso – este só gostoso mesmo, sem a patente literária do Manuel Bandeira. E dá-lhe assunto para cada um dos andares. Valeria uma visita a cada um dos apartamentos, com entrevistas e cafezinhos. Seria um fracasso na certa.


Com ou sem sucesso. À escrivaninha, voltei sem grandes esperanças e assuntos, mas ligeiramente mais limpo. Pois há horas em que um escritor precisa soltar caldo grosso. E dessas palavras, aqui ajambradas, salvam-se alguns pitacos sobre a noite. Ela é linda. Feito o som das cigarras. Talvez a única verdade posta cá, além da janela acesa, claro – e escuro!


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