• Matheus Lopes Quirino

Espinhos de Afeto

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Inédito no Brasil, ‘Afetos Ferozes’ atravessa décadas de convivência entre mãe e filha, acompanhando a transição da infância para maturidade à sabedoria 

Por Matheus Lopes Quirino

FEMINISTA. A autora Vivian Gornick, hoje aos 85 anos em seu apartamento em Manhattan. (reprodução)



‘Afetos Ferozes’ é um dos livros mais espirituosos que já li. No clássico memorialístico da escritora Vivian Gornick, autora ainda (infelizmente) desconhecida no Brasil, é possível assistir a um desenrolar fino do filme sobre a vida íntima da autora. Uma comédia da vida privada nada comedida, repleta de neuroses que habitam Gornick, sua mãe é também sua sombra. Elas perambulam por uma Nova York dos anos 1980 conversando sem parar, e queremos ouvir mais, mais e mais. 


Queria estar na cozinha do apartamento com as duas fofocando. Tomar um café da tarde no apartamento da First Avenue, enquanto capturo com os ouvidos um tom mais agudo de uma palavra como ‘adultério’. “Adultééééério”. Não se trata de uma simples menção, a entonação dá o ritmo do que estamos falando, da natureza do ato e de seus enredos e proporções. Mãe e filha são duas contadoras de história habilidosas. Trinta anos depois, direto da maior cidade da América do Sul, ouso me perguntar: Quem é Woody Allen perto de Vivian Gornick? 


Mãe e filha carregam consigo o espírito da cidade, percorrendo ruas e bairros que fazem parte do imaginário afetivo de quem conhece Nova York. Seja pelas vias de fato ou pelo cinema (e ninguém faz isso tão bem quanto Woody Allen), somos enfeitiçados pela persuasão daquelas duas. “Filha, li a sua resenha no Times, eles te pagaram?”; “Você acha que está dizendo uma coisa que eu não sei?”, “Acha que eu nasci ontem?”, “Isso é ridículo”, “Você vai ser alguém na vida!”, “Eu sou comunista e judia, já tenho coisas demais para me preocupar”, diz a mãe desafiando a filha, as duas se testam, se xingam, se odeiam e se amam ao mesmo tempo, são cão e gato, unha e carne, não se desgrudam. 


Nessa equação que balanceia bom humor, angústia, perdas e amores desenfreados, personagens secundárias não sobram entre os perrengues que cruzam o caminho das duas dos dois lados da Brooklyn Bridge. De judeus ortodoxos a vizinhas fuxiqueiras, de artistas excêntricos a Don Juans que passam vaselina nos bigodes, passando pelo antigo conhecido judeu e homossexual que fez plástica no nariz, à rameira da velha rua no Bronx, é impossível não gargalhar com a senhora de oitenta anos que é uma hipérbole de si, uma antítese ambulante que balanceia seus valores como uma rocambolesca atriz de stand-up comedy. “Filha, ele é homossexual, como ele faz aquilo?”. E a filha responde: “Do mesmo jeito que você.”. 


São esses trunfos narrativos que tornam Afetos Ferozes uma leitura saborosa, digna de pipoca e poltrona. Durante o livro, a narração mistura os tempos da vida das duas. Da meninice curiosa, um salto, caímos na adultez com suas obrigações, sem perder a essência  da criança aérea que era Gornick, quando vivia atrás de Nettie, a vizinha ruiva que fora casada com um marinheiro sensual, cuja precoce morte deixou desamparada. Receita para o martírio moderno, Gornick -- que é uma notória feminista, embora não comungue em nenhum grupo específico, segundo a autora -- empodera Nettie, uma mulher de personalidade, atitude e que não está nem aí para a língua ferina dos vizinhos do prédio. 


ARQUITETURA. Predinhos de ladrilho laranja com escadas externas são marca paisagística do Bronx, em Nova York, onde se passam partes das memórias.


Nettie, a terceira personagem na ordem de importância destas memórias afetivas, é sinônimo de experiência para a jovem menina metida à contadora de história. Principalmente quando o assunto é sexo, ela está em idade de formação e corre ao apartamento de Nettie para experimentar um vestido provocante. “Sua mãe acha que eu sou uma puta”, diz a vizinha. A menina banca a diplomática, mas não toma as dores da mãe. Nettie marca a vida da pequena Gornick, dando-lhe preciosos conselhos amorosos e sobre a vida. 


Do sofá do apartamento em Manhattan, a escritora vê sua vida passar como um sonho rebobinado, cujos negativos estão marcados por caneta vermelha, realçando momentos cruciais para sua formação como mulher. Ele relembra os amantes que marcaram épocas de romances tórridos ao casamento morno precoce, as ambições que teve, e remexe no passado da infância, enquanto vasculha no envelope de papel pardo as fotos antigas da mãe. Elas têm uma conversa franca, como tantas depois de um café ou um drink. 


Gornick explica essa faceta que é ser mãe, ao mesmo tempo em que a senhora diz a ela, recém-formada, o quanto está feliz por sua filha ser professora. Eis que ela nega, “Eu não vou ser professora…”. A mãe, ácida, responde: “Fez faculdade para quê?”. É claro, sua mãe é uma imigrante nascida no começo do século XX, é politicamente incorreta (o que a torna mais encantadora ainda) ao mesmo tempo que é moderníssima. “O que você diria, hoje, para o papai se ele não deixasse você trabalhar”, provoca a filha, “Diria a que ele que se foda”. As duas caem na risada enquanto preparam um café preto, devidamente observada e instruída pela mãe, a marca destes Afetos Ferozes é tanta ternura, assistimos à vida real brotar de uma pessoa comum, com tamanha aptidão para cativar os ouvidos de quem a escuta. Num dialeto simples, direto, cáustico, estereotipado, sim, politicamente incorreta, mas também feminista, como nossas mães. Nunca li algo tão verdadeiramente maternal. 


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LIVROS: Afetos Ferozes

AUTOR: Vivian Gornick

EDITORA: Editora Todavia 

ANO: 2019

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