• Matheus Lopes Quirino

Eu leio livros! Eu leio livros!

\\ CADERNO DE ANOTAÇÕES

Engana-se quem pensa que livro traz inteligência. Não traz. É preciso os ler e discuti-los

Por Matheus Lopes Quirino


A televisão está inundada de dois assuntos: a peste (coronavírus) e a Peste, com P maiúsculo, que tem nome próprio, sobrenome e cadeira cativa no Palácio do Planalto, também com P maiúsculo. Parêntesis: lá há uma biblioteca bem abastecida de livros variados, de clássicos da literatura brasileira a livros essenciais do direito e da teoria política. Há um bom tempo aquilo tudo virou só decoração. Está pegando pó que, às moscas, algum dia, um gaiato qualquer virou e teve uma ideia: "funciona, posso parecer inteligente".

Engana-se quem pensa que livro traz inteligência. Não traz. É preciso lê-los, discuti-los. Um livro dando sopa, quase pedindo sensualmente "Me paga, me abre, me consuma!", é uma tentação para quem curte esse fetiche (e quem não curte também pode gostar). Livro gosta de ser tratado bem, ok, mas é um objeto que necessita, pelo menos uma vez na vida, um trato, digamos, mais hardcore. "Me pega, me abra, me consuma". Depois vem "Me rabisque, escreva dentro de mim!". E não só no auto-amor. Ele quer que saibam do quanto foi feliz aquela relação.

-- Ontem terminei de ler Afetos Ferozes, em duas tacadas, praticamente engoli o livro...

-- Então gostou?

-- Se gostei, tive quase um orgasmo literário!

Pegar no livro, cheirar as páginas de um livro novo, espirrar por cheirar as páginas de um livro velho, catalogar o livro na estante, separando-o por autor, cor, editoria, assunto, tema, ficção ou não ficção, literatura brasileira ou estrangeira, etc. Um livro feliz é um livro lido e, já feito, a cereja do bolo é comentar com outro leitor, mas fazer isso através das palavras em um breve momento, tão breve para dar tempo de se munir de minutos, horas, tomar fôlego para se debruçar na próxima leitura.

*

Eu leio livros! Eu leio livros! Diz fulana, que tem um canal no YouTube e explica correndo Orlando, aquele que atravessou o próprio tempo como sua criadora, Virginia Woolf. Lá está a figura, olhando para uma câmera enquanto balbucia algumas frases feitas: "Livro bom; interessante porque...", "Uma leitura formidável porque eu acho...", "Magnificente", "Estrondoso", e mais uma porção de artigos gordos que são dispensáveis numa resenha crítica palatável.

Orlando dispensa comentários, mas a pessoa reage. Fala de si, fala de Orlando, fala de si, fala de si, fala de si. E acabou. Acabou o vídeo, não tem espaço para perguntas, debate, nada. Saio da tela com a sensação de estar imbecilizado. Olho para minha velha estante de livros surrados, coleções antigas, exemplares de sebos, cortesias de editoras e presentes de amigos. Não tem Orlando ali, mas, em algum momento, ele esteve comigo. Talvez tenha o pegado em uma biblioteca. O li e lá deixei para o próximo embarcar.

Quem segue a tal Fulana dos livros é Cicrano. Um sujeito bastante sorridente, até bonito, menos quando não está sorriso. Sorri, está radiante, mas fala mal. Tão mal que não tem coragem de gravar um vídeo igual Fulana, que é bonita, loira, rica, popular, queridinha do clubinho, da High Society. Ele não tem a mesma persuasão, é bonitinho e tira fotos bem. Na sua conta no Instagram, de 10 postagens, 11 são de livros. Livros sobre seu peitoral, livros espalhados pela escrivaninha atulhada de outros livros em cima de caixas e livros plastificados. Livros novíssimos, edições de luxo. E ele é o rei da concisão "É um livro ótimo porque eu gostei". "É um livro bacana, é bem legal porque a personagem se parece comigo". "É um livro supimpa porque a capa é bonita". Claro, a última frase é invenção minha, ele não sabe que existe a palavra supimpa, pelo menos nunca o vi usar.

Ele é meu amigo, o senhor sorriso. Vou falar quem é? Nunca, sem sob tortura, nem dos livros. Mas é claro que estamos na ponta do Iceberg. Dia desses vi em oferta na Amazon uma espécie de papel de parede de estante. Explico, uma réplica de uma estante, com títulos robustos, de Crime e Castigo a Orgulho e Preconceito, todas as lombadas devidamente prontas para serem adesivadas na parede. Virou meme essa história, principalmente depois que os programas de televisão começaram a entrar ao vivo da casa dos comentaristas.

Qual estante é a mais bonita? Estava lá no Painel da Globonews. Quem disputaria com Ariel Palacius, o pioneiro da decoração que virou moda entre todos. Quem tem a maior estante, a mais discreta? Qual é a mais elegante? Mais robusta? Mais sintética? Muitas perguntas para muitas estantes. Nenhuma alma lê uma estante inteira, diz o conhecimento de causa.

Hoje, não basta ler, tem que parecer que lê, mesmo não lendo nada. Parecer que ler é ser descolado para quem mexe com livro. Publicar sobre livros, com comentários sintéticos, e ganhar a alcunha de intelectual honorário chancelada pela Web. Diploma para o WebLeitor. Isso para não entrarmos no mérito do E-Book, um assunto à parte.

Ler ou não ler, eis a questão. "Leio 365 livros por ano". "Leio dois". "Leio uma dúzia". "Leio Ulysses", "Vejo filmes sobre livros", "Leio adaptações". Não importa o currículo, o parecer e a estante robusta basta como consolo e alívio para a consciência de quem não trata com o devido amor, sem o toque continuo de dedilhar página por página. Numa leitura de duas horas, muitos sentidos ficam à flor da pele. As melhores experiências são as mais indescritíveis. "Não consigo contar, é preciso ler". Como resenhista profissional, aprendo a cada leitura novos jeitos de esquematizar e assimilar o que estou lendo para contar um causo bom para o leitor. O livro mais maçante pode ter sua graça, o mais excitante pode passar batido, assim como certas promessas caem por terra, esperanças se vão. O desafio é amarrar a boa história, claro, não entregando ao leitor o que, sem dúvida, só o livro é capaz de entregar. Damos as preliminares, a hora agá é com o leitor, se ele estiver no pique, é claro.

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