• Frentes Versos

Falsos Palíndromos

\\ INFINITUDES

Otto beija minhas mãos. Me olha daquele jeito patético. Quero vomitar em meu vestido branco. Eu deveria vomitar em você, Otto. Deveria vomitar na sua cara.

Por Isabela Nunes, colaboração para Frentes Versos

In utero - Imagem/Reprodução: MALIV

Estamos deitados no sofá. Na penumbra, tudo é cinzento e a única coisa que permanece são os contornos de sua silhueta. Ele está sobre mim, beijando o meu pescoço. Forço os ouvidos para tentar descobrir o que os outros, livres, fazem lá fora, onde a festa continua, mas não ouço nada além da respiração ofegante de Otto. Se pudesse pensar, me perguntaria o que eu estava fazendo ali. Ele para e me olha; sinto a luz refletida em seus olhos lutando contra o cinza para chegar até mim. Não gosto que ele me olhe, assim, desse jeito patético. Ele diz: você tem olhos lindos, enquanto seu dedo ensaia uma espécie de carícia em minha bochecha. Tento impedir o impulso de rir diante da tentativa cafona de transpor para a vida real uma cena de livro clichê. Estou a ponto de dar gargalhadas, mas me controlo e, com um risco de sorriso morto em minha face, respondo:


— Você nem consegue me ver para saber se meus olhos são bonitos ou não, Otto.


Ele dá de ombros — seu espírito brega de romântico incorrigível não dará o braço a torcer ou admitirá derrota. Volta a me beijar. Suas mãos seguem em direção aos meus seios; mal tenho seios para serem apalpados, mas ele tenta mesmo assim. Eu afasto a mão dele. O jogo continua. Pescoço, olhos, beijos, seios. Finjo ardor, excitação e desejo. Finjo que gosto de beijar e ser beijada por aquele homem cinza em cima de mim. Por dentro, sou um autômato, mas sei que não pareço assim para ele; ah não, eu já aprendi todos os truques de língua e mãos e sons que o deixarão satisfeito consigo mesmo. As engrenagens enferrujadas dentro de mim esboçam um gemido e furtivamente giram de volta para seu esconderijo cálido, onde terão alguns segundos para se ocupar de outras coisas que não produzir sons agudos, como pensar no fato estranho de que é possível procurar tédio no Google e encontrar uma página que diz: tédio e seus sintomas, como se fosse uma doença. Passo as mãos pelo cabelo dele, arranhando as unhas contra sua cabeça como se quisesse separá-la do corpo. Otto, dessa vez, tem o cabelo volumoso e macio. Pelo cheiro nauseante, percebo que usa shampoo de chocolate. Ele para de novo e me olha de novo. Quero dizer:


Não me olhe assim, Otto. Não estou aqui. Não sou sua história de amor.


As engrenagens acionam um botão e o que sai é:


— Tenho que ir, Otto. Já está tarde.


Não está tarde e eu não quero ir, quero aproveitar o resquício de festa que me sobrou. Mas ficar significará continuar o teatro, lá fora, com o braço pesando dele sobre meu ombro, me sufocando, me enclausurando, me colocando sob uma redoma imaginária e hermética, e só o pensamento de sentir o braço dele em mim assim faz com que meu estômago sinta uma vontade súbita de fugir boca afora.


Otto, eu deveria vomitar na sua cara.

— Eu não gostei muito de ficar com ela, sabe, Ana. Tão possessiva. Me lembrou a minha ex maluca. O corpo dela era meio estranho, também. De criança. Você é muito mais legal e bonita. Eu te achei bonita desde que seu primo me mostrou sua foto pela primeira vez, sabe. Muito bonita. Por que você não viajou com a gente pra praia, em vez dela? Eu pagava pra você ir.


Porque eu não queria, Otto; por isso. Seu babaca rico e prepotente. Eu nem te conhecia. Em que planeta eu cruzaria seiscentos quilômetros pra passar o ano novo com alguém que não conheço, ainda mais um idiota que nem você? Se eu tivesse ido, você estaria falando de mim, agora, como fala dela?


— Ah, eu tinha planos, não deu. Mas obrigada — dou um risinho — Também te achei muito bonito.


Ele me beija. Coloco as mãos em volta do seu pescoço. Dessa vez, Otto tem o cabelo desarrumado, cortado bem curto, quase rente ao couro da cabeça. Tem uma cara achatada e quadrada em que alguma coisa parece não funcionar. De olhos fechados, ainda consigo ver seu rosto franzino. Ele beija esquisito, como se estivesse lambendo um picolé aos poucos para não terminá-lo rápido demais. Tento beijá-lo do jeito certo, mas dá muito trabalho e, depois de um tempo, simplesmente desisto e deixo que ele faça o que quiser. As engrenagens assumem o controle e eu fico à deriva, navegando pelos outros pedaços de minha gelatina cinzenta que não estão no comando das minhas funções motoras . Penso em Tomás e tento imaginar que é ele me beijando, não este Otto. Meu estômago se revira e grita: não, não faça isso; isso é errado. Ele não precisa me contar por que é errado; eu sei. Deste Otto, sinto repulsa. Amanhã, pensarei nesse beijo e sentirei vontade de tomar banho. Me lembrarei do rosto achatado dele me olhando daquele jeito patético, de suas mãos grandes envolvendo meu rosto e colocando seu nariz contra o meu como se aquele fosse o momento mais romântico do mundo, da sua língua de picolé dentro da minha boca, e desejarei que tivesse tido forças para ter dito não e saído correndo, como queria desde o princípio. Me lembrarei de como contei a ele meus medos da morte e de Deus e de compromisso e do amor como se fosse a amante e confidente perfeita. Me lembrarei de seus olhos de jabuticaba refletindo meu rosto como uma piada ruim e subitamente me darei conta de que nenhum sabão no mundo me deixará limpa.


— Ana, você quer me ver semana que vem de novo?


Não quero te ver nunca mais, Otto. Você é o babaca rico mais hipócrita e prepotente que eu já conheci na vida. E o seu beijo é horrível.


Sim.

Otto diz: Saudades, viu!! Vem me ver, Ana!


Vocês também têm um ex-melhor-amigo-ainda-amigo-por-quem-você-era-apaixonada-mas-que- beijava-você-por-dó-e-um-dia-em-uma-festa-a-fantasia-quando-você-estava-pra-lá-de-Bagdá-e-caindo-de-bêbada-em-um-beco-escuro-de-uma-rua-escura-decidiu-que-era-um-bom-momento-pra-tirar-sua-virgindade-mas-na-verdade-não-tirou-porque-ele-estava-drogado-demais-pra-distinguir-o-buraco-certo-ou-distinguir-qualquer-buraco-na-verdade-mas-ele-pensa-até-hoje-que-tirou-e-a-coisa-toda-foi-um-pouco-traumática-mas-você-não-pode-admitir-que-foi-traumática-porque-bem-você-disse-sim-e-se-você-estivesse-sóbria-você-também-teria-dito-sim-mas-parece-que-há-algo-de-errado-e-estranho-em-entregar-o-próprio-corpo-assim-nesse-estado-nesse-lugar-nessa-posição-e-você-de-vez-em-quando-ainda-acorda-se-sentindo-um-pouco-suja-e-humilhada-e-degradada-e-até-hoje-não-consegue-ter-um-orgasmo-decente-mas-também-não-pode-contar-isso-pra-ninguém-porque-apesar-de-70%-das-mulheres-do-mundo-nunca-terem-tido-um-orgasmo-transando-você-ainda-receberia-olhares-espantados-como-se-você-fosse-uma-alienígena-e-é-claro-que-você-deveria-odiar-o-ex-melhor-amigo-em-questão-por-ter-estragado-todos-os-orgasmos-da-sua-vida-e-ainda-ter-contado-pra-todo-mundo-que-te-comeu-num-beco-escuro-mas-apesar-de-você-não-sentir-nada-romântico-por-ele-há-muitos-anos-você-simplesmente-não-consegue-cortar-os-laços-de-amizade-porque-seria-ridículo-odiá-lo-por-algo-que-ele-nem-tem-culpa-pelo-menos-não-sozinho-porque-você-que-é-trouxa-de-se-enfiar-nessas-situações-e-bem-antes-disso-você-já-tinha-se-enfiado-em-muitas-dessas-situações-e-no-fundo-você-nem-sente-tanta-vontade-assim-de-odiá-lo? Vocês também têm algo assim? Bem, é estranho.


Ana diz: Saudades, Otto! Nas férias passo aí!

— Vai, Ana, fica com o Otto. Faz esse favor pra mim, vai. Se você ficar com ele, vai ser muito mais fácil eu ficar com o Dani. Por favor por favor por favor.


— Lu, eu não quero…


— Mas qual o problema? Eu não entendo. Você já ficou com ele antes. Ele é lindo, educado, inteligente. Vocês até têm um pouco a ver. Não foi legal ficar com ele da outra vez?


Não.


— É, um pouco. Não sei.


— Então qual o problema, Ana? Eu faria isso por você. Faz por mim, vai. É só um beijinho, não vai rancar pedaço.


Mas é claro que vai. Vai arrancar simplesmente todos os pedaços de mim. Ele acha que a gente tem alguma espécie de romance inacabado. Fica falando pra mim de novo e de novo como tudo poderia ter sido diferente caso eu tivesse respondido a mensagem dele daquela vez. Eu nunca teria respondido ele, em nenhum cenário, Lu. E, mesmo se tivesse, nada teria sido diferente. É um fato. Ele acha o quê, que a gente teria namorado e casado e ido felizes fazer faculdades juntos na cidade ao lado? Isso não aconteceria nunca. Nunca. Em nenhuma hipótese, em nenhuma realidade paralela. Ele é uma pessoa confusa que projeta em mim todas as frustrações da mente masculina minúscula que ele tem. Se me tivesse por um dia, se apaixonaria pela primeira mulher infeliz que desfilasse um pouco intangível em sua frente. Ele é uma maldita duma sanguessuga, é isso que ele é. E se você continuar insistindo que nem ele, juro que grito com você até seus tímpanos explodirem e depois disso você nunca mais ouvirá minha voz, nunca mais.


— Por favor, Ana. Por favor por favor por favor. Diz que sim, vai. Não custa nada. Anda, vamos, diz que sim.


Dou de ombros.


— Tá bom.

— E você já disse isso pra alguém? — a psicóloga pergunta. Os óculos dela se inclinam levemente para frente. Ela anota alguma coisa em seu bloco de papel amarelado.


— Pra minha melhor amiga, acho. Não me lembro.


— E pro resto das pessoas você mente?


Bem, sim.


— Não — tosse — Acho que não. Não sei.


— Por que você acha que mente, Ana?


Porque eu me odeio.


Porque quero que todo mundo goste de mim.


Porque é o caminho de menos esforço.


Porque fica mais fácil culpar todos os outros pelos meus próprios erros.


Porque não sei ser honesta.


Porque eu me odeio.


— Pensei que fosse óbvio, doutora — olho bem fundo nos olhos dela, bem fundo até ver minha figura refletida de cabeça pra baixo, invertida e retorcida, dentro do buraco negro do olhar dela. É muito óbvio, doutora. — Pra ser educada.


— Você vai explodir, Ana. Sabe disso, não sabe?


— Não vou, doutora.


Silêncio.


— Explodir é falta de educação.

— Você, Otto, aceita se casar com Ana?


— Sim. Mil vezes sim.


Otto beija minhas mãos. Me olha daquele jeito patético. Quero vomitar em meu vestido branco. Eu deveria vomitar em você, Otto. Deveria vomitar na sua cara. Bem no meio da sua cara achatada e reta e franzina e nariguda e em seus olhos azuis e pretos e em seu cabelo volumoso e careca e em sua boca carnuda e sem lábios.


— Você, Ana, aceita se casar com Otto?


Não.


Não.


Não.


Não.


Não.


não.


não.


não.


As engrenagens se acionam. Língua, mãos e sons, Ana. Deixe-o satisfeito consigo mesmo.


E o que sai é:


— Sim.


E todos me aplaudem, felizes.

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