• Bruno Pernambuco

[Ficções Cotidianas] O Intruso



Pintura:A Family Portrait of Four Children, Harrington Mann


A voz grave do vendedor ecoou pela salinha confinada, sacolejando a estante mal montada, cheia de penduricalhos, correntes de ouro falso, cinzeiros metálicos com inscrições de bijuteria e santos de porcelana. O poraozinho fedia a mofo das casas pobres, cheiro de coisa que apodrece rápido e mal junto com cheiro de metal castigado, Ouro e prata falsos sob imagem de Nossa Senhora, mantidos muito além de sua conta. As mãos do velho estranhavam o objeto, e a cada passada larga dos dedos o procuravam, tentando entendê-lo melhor.


- Aqui está o recibo, disse o homem, arrancando do talão um papel manchado e gorduroso. Em duas semanas começa a aparecer.

Agradeceu e subiu a passos rápidos a escada velha que rangia com cada pressão dos sapatos. Deu nos fundilhos da movimentada loja de sapatos do conjunto comercial. Atravessou o balcão, desviando-se do vendedor que corria com uma pilha de calçados em mãos, e serpenteou-se entre a agitação dos clientes, incólume. Saiu para a rua trajando o chapéu de feltro preto que agora cobria a sebosa cabeça calva, desacostumada da proteção contra os ataques do sol. Virou à direita. Em seu caminho parou para encomendar terno novo, flores, perfume e gravata-borboleta. Dali em breve estaria na porta de Janaína, era certo. Arrumado, cheiroso e florido. Levaria aquelas coisas todas que vinha guardando. Os poeminhas- pelo menos os melhores- era bom levar no bolso interno do paletó, caso a gagueira batesse de novo. Estaria preparado, armado de palavras bonitas. Logo mais trataria de arranjar também aliança, iria falar com os vendedores de jóias, que conhecia desde aquela época da família dos judeus, os filhos do senhor Jacó, que nos tempos em Sépia passava de porta em porta vendendo colares, correntes de ouro, anéis e pingentes. - Tanta coisa a fazer! Pensou, enxugando a testa suada. Seria bom ter pelo menos um tufinho de cabelo nessa hora…
















Eram onze e meia quando as primeiras visitas começaram a encher o claustrofóbico apartamento de um quarto. Decidiram parar ali antes do almoço- evitar a confusão dos parentes, os rostos conhecidos, a ruminação parca a respeito da vida, o como estão as coisas? Melhor poder se despedir sem tristeza fingida. Chegaram e o homem de óculos deitava sobre o sofá de tecido creme com uma paz solene, daqueles momentos que não querem, com a tristeza, perturbar sua retidão. Além dele, apenas os dois funcionários simpáticos e fortes de macacões pretos com logo da companhia funerária, um que no quarto ia selando caixas de papelão marrons que enchia dos livros que ocupavam aquelas estantes e um que de tanto em tanto abandonava seu serviço frenético, por todos os cantos, para acompanhar com o rabo do olho os contra-ataques do Corinthians, furando a surpreendida linha azul da defesa do Santo André, a reluzir na televisão ao lado do morto. A garotinha observava atentamente aquela casa, da qual pela janela se observa com clareza o movimento da rua, e se escuta as discussões vindas de fora tão bem que a sensação é de estar sendo diretamente intimado. Talvez estivessem no lugar certo, mas igualmente era possível que tivessem se confundido. Nunca vira aquele homem afinal, talvez a família tivesse ido bater à porta do parente morto errado. Pouco lhe interessava o velho desconhecido, as linhas duras e meio caídas do queixo quase iguais à do seu pai, mas cobertas por finos pêlos brancos, que gentilmente caíam uns sobre os outros, deixando uma fina malha pacífica sobre o seu rosto. As caixas abarrotadas de livros, que aos poucos se ajuntavam na sala, cheiravam a água colônia e plástico, cheiro de um cotidiano de coisa velha e combalida, manchada pelas parcas visitas do novo, mancha que parece não sair de jeito nenhum.


















De volta à casa, no banco de trás do carro, a menina segurava com a força de quem esconde um segredo daqueles dos quais a vida depende a descoberta que levava da visita imposta pela família. Um chapéu preto, algumas vezes maior que a sua própria cabeça, que ficara esquecido na cadeira velha de madeira, encostada à mesa sobre a qual estava uma garrafa metálica com água e o rol de remédios de dose errada cuidadosamente organizados. Aquele toldo particular, casa para uma cabeça, chamara sua atenção, pequeno enigma, pingente sofisticado de azeviche em meio à casa estranha, que cheirava a guardado e a talco que as pessoas põe sobre as roupas para tentar disfarçar a velhice. Durante a viagem pela avenida principal segurava firmemente o tesouro, fugindo-o à vista dos outros. Nem respondia às provocações do irmão, a seus empurrões e começos de briga, nem às discussões intermináveis da família, sempre as mesmas. Sentia durante o longo trajeto que viajava em paz, e que era absoluta em seu pensamento, perturbado por conta do crime. Via-se de maneira obtusa naquele reflexo que eram os caminhos a seguir-se na janela, um depois do outro, aparecendo e deixando de ser. O carro encostou no jardim da casa grande e arejada, e imediatamente a menina corria para o quarto, indiferente às interjeições dos familiares, às boas-vindas da empregada, e a todos aqueles barulhos comuns que nasciam da vizinhança pacata.


O prêmio roubado passou a morar dentro do baú, a caixa velha, o presente da mãe, aos nem conseguia lembrar quantos, de tão poucos, anos de idade. Diziam ser utensílio antigo da família, a única coisa que já tinha lhe dado aquela mulher com quem dividia aquela vida penosa, de dias iguais naquela casa, e que se tornava lar de tudo que era importante. Um receptáculo da coleção de tesouros que lhe traziam as muitas viagens. Lá agora também moraria o chapéu preto- e assim era, exceto naqueles diários rituais noturnos, em que era tirado da casa mofada e apoiado sobre a cabeça pequena de cabelos loiros que passava a demorar horas fitando-se no espelho de borda rosa com o confidente por cima de si. Nessa mesma hora repetida ele parecia ter poder de fazê-la outra pessoa, e era a essa outra entidade, a essa melhor amiga, a quem ela confidenciava quase devotamente tudo aquilo que lhe passava, os registros minuciosos, cartográfico, de cada uma das aventuras que cobriam o espaço de países, ou de um quintal, ou do tempo habitual, da casa à escola e depois novamente à casa, que antes pareciam sempre perder-se pela falta de escrita. Na presença dessa outra si própria é que a menina, em algum momento, sentiu discutir aqueles pensamentos que de vez em quando lhe ocorriam e lhe ficavam marcados e continuavam a acontecer, repetidas vezes, dizendo coisas novas, sem mesmo se dar conta, primeiro como se as palavras lhe saíssem emprestadas, e depois disso percebendo que a conversa lhe trazia ainda mais coisas, e assim que esses pensamentos cresciam mais, e que agora pensar sobre esses pensamentos os tornava ainda mais reais. Assim iam horas nesse diálogo consigo mesma, sempre, era a regra, elaborando conforme a conversa novas objeções e contra-argumentos àquilo que dizia- nunca queria deixar que seu próprio pensamento vencesse com facilidade.























Um grito horrorizado quase fez-se escutar com tanta violência que assombraria não só todos os presentes naquele momento à casa branca e ampla, mas também os vizinhos que dividiam as mesmas cercas, e aqueles do outro lado da rua, e talvez aqueles vivendo em outras ruas paralelas ou transversais, mas foi contido no último instante antes que a boca pudesse propelir irremediavelmente seu som. Olhou-se no espelho e atônita sentiu os olhos tremerem, e tudo dentro de si movimentar-se, como se alguma coisa quisesse escapar no choque. De repente percebeu-se toda coberta de pelos, não apenas nos braços e nas pernas, mas em lugares em que nem imaginava ser possível crescerem cabelos rígidos e compridos como aqueles. Sentira durante a noite de insônia algo profundamente estranho, e pela manhã cobrira-se em camadas e mais de casacos, vestes e calças compridas numa fuga para o banheiro, sem entender o que tinha ocorrido, e de onde tinham nascido aquelas sensações novas que de súbito sentia como se fossem em sua pele.


Sentia-se agora tonteada, aérea, sem acreditar que aquela imagem no espelho dizia respeito a si. Caminhou tonta pelo banheiro, passando as mãos pelos frascos de cremes, óleos e sabonetes, imaginando como seria usar cada uma daquelas fragrâncias nos longos apêndices recém-descobertos. De repente, seus olhos voltam-se para embaixo da pia, onde vê, em meio a outros utensílios emaranhados deixados sobre as revistas largadas, de páginas tão velhas que começam a se amarelar e rasgar-se, uma navalha antiga, de aço brilhante, com um largo cabo cheio de inscrições em prata, e uma borda dourada. A lâmina é tão afiada que machuca a mão destratada quando essa, num ato súbito, se joga para agarrar o objeto. Como isso a tivesse feito acordar, aproxima-se novamente da navalha, e dessa vez com muito cuidado encosta seu dedo na ponta da lâmina de aço. O sangue começa a escorrer do cortezinho causado pela gilete reluzente, deixando pequenas manchas vermelhas na pilha de revistas e nos objetos de metal guardados juntamente à navalha. Tomada de uma completa força e decisão, a menina veste novamente todo o cabidal espalhado pelo chão de mármore, e agora num dos bolsos da pesada carapaça leva a jóia cortante, a lembrança pontiaguda e densa feito chumbo deixada pelo pai, de volta para o quarto.


Andréia, os longos cabelos loiros com mechas pretas, o vestido laranja solar, sobe em direção ao banheiro enquanto ainda se pode escutar os passos barulhentos da filha numa caminhada apressada de volta ao quarto. Entra sem compreender a agitação, e percebe o furdunço de potes revirados, páginas de revista espalhadas pelo chão, pia ainda meio aberta, e sujeira entornando o vaso sanitário. Sente a raiva começar nos pés e subir por todo o seu corpo, sente o ódio das mãos, contorcendo-se num gesto desesperado, mas que num instante esbarra ao pensar em Caio, nos olhos meio tontos e no sorriso frouxo, nas crianças e nas discussões, nos afazeres, no silêncio penumbroso da filha, e nas portas batidas à sua cara. Toda a raiva sai apenas na forma de uma lágrima silenciosa. Subitamente percebe, então, um chapéu de feltro preto, nunca antes visto por ela, que pacificamente espera pendurado em um gancho da parede, em meio ao caos de cheiros e cores que brota das manchas de todo o lugar. Segura com delicadeza aquele intruso da lógica caótica de sua própria casa e coloca-o sobre a cabeça. Observa seu reflexo no espelho por detrás da pia. Sorri.




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