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[Resenha] “Jubilo, memória, noviciado da paixão” traz carta de amor em versos de Hilda Hilst

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Em uma expedição pelos sentimentos, bulevares e becos de cada um, nosso injustiçado órgão vital é culpado pelas empreitadas amorosas vacilantes.


Por Giovana Proença

Foto: Cláudio Pedrosa/CB/D.A. Press

Júbilo, memória, noviciado da paixão de Hilda Hilst, relançado este ano em pleno mês do dia dos namorados pela coleção Poesia de Bolso, da Companhia das Letras, representa uma reunião de verdadeiras declarações sentimentalistas, ainda que com um teor analítico intimista e confidencial.


Acima de tudo o livro se debruçada sobre a temática do amor, matéria que foi a brisa e o furacão que movimentou toda a vasta obra poética da autora.

A intensidade do livro já se revela nas cores quentes da capa com uma figura de coração centralizada, na qual é possível reconhecer elementos naturais, recorrentes nas construções das metáforas e imagens dos poemas que compõem a obra. O livro é dividido em seções, poeticamente nomeadas e que espelham as palavras reunidas nessas que formam uma colcha de retalhos do livro, costurando temas como o convite e súplica à pessoa amada; os anseios da paixão; a espera pelo encontro e a saudade; a celebração da vida como combate a inevitabilidade da morte; e seus temores e homenagens a grandes figuras do tempo da autora.


A grande compositora dessa arte poética paradoxalmente monotemática e exploradora de todas as avenidas, bulevares, becos e caminhos alternativos do coração, tão repleto de significado para a autora, usa da seguinte citação de Renata Pallottini para abrir sua obra:


Deliberei amar. Corto e pedaços/

o músculo sangrento, alheio

e triste/a quem por isso culpo. Irmão,

um dia/aprenderemos a entender

a entranha./E nunca mais

seremos diferentes”, na qual acusa nosso injustiçado órgão vital pelas empreitadas amorosas vacilantes.


Hilda Hilst, homenageada pela FLIP de 2018, prova nesta obra de 1974, que um dos grandes trunfos de sua extensa produção é a dosagem entre palavras diretas e a subjetividade, que aliadas levam a uma transcendência dos temas que a graduada em direito defendeu, julgou, acusou e processou em sua jornada, na qual a aproximação de opostos como a ardência e a calmaria, o clamor e a confidência, a distância e a proximidade constroem a vastidão temática do Júbilo, memória e noviciado da paixão.


Ainda assim, é um equívoco analisar o livro e a obra de Hilst como idealizações amorosas e devaneios de uma dona de casa e senhora da década de 1970. Em uma época de forte repressão nos âmbitos políticos e sociais no país, que refletiam na delimitação do papel da mulher, a autora foi capaz de antecipar a libertação que viria na década seguinte, expondo os desejos íntimos de um eu-lírico feminino, já expresso no primeiro poema do livro, de modo que o sexo também participa ativamente de sua poética, adquirindo um tom metafórico e elevando o ato a algo que beira o transcendental.


O místico permeia toda a poesia expressa na obra, elevando o ser amado, o sentimento, a devoção e os atos de amor a uma dimensão quase divina. Para esse recurso, são utilizadas construções poéticas que vão desde versos livres até estruturas mais rígidas, além espairecer em metáforas, imagens e símiles os quais a natureza e seus elementos ganham destaque nas construções, tendo suas interações utilizadas para acrescentar uma organicidade às relações, bem como a evocação de figuras mitológicas em diálogo com a tradição clássica, como Dionísio, relacionado as festividades e elementos de escolas literárias como o Arcadismo e seu Carpe diem.


O formato compacto do livro contrasta com a força e o peso dos versos de Hilda Hilst, tornando a bagagem de uma vida inteira em uma pequena malinha de mão, o armário cheio do dia a dia e a gaveta quase esquecida com souvenirs ao fundo, a asseveração dúbia “até que a morte os separe” da vida pacata a dois até e velhice e o romance ardente que finda com a estação. As várias facetas das fachadas e construções românticas da autora tornam o livro em uma carta, ou até mesmo um bilhete, recado, telegrama ou sedex de amor, explorando-o como um terreno conhecido, mas sempre redescoberto a cada novo descortinar, talvez até esquecido, mas onde sempre há retorno, sem busca de razão, por mais que esta esteja presente na dedicatória curta de Hilst “A.M.N. porque ele existe”.


Desse modo, o Júbilo, memória, noviciado da paixão é uma leitura de acelerar os corações dos que não fogem da intensidade, “[…] Demasiado intensa, E de aspereza/E transitória se tu me repensas”, nos versos da autora e não temem entregar-se a força e ao poder de sedução das palavras, que, numa singela paráfrase dos versos mais célebres do livro, não tenham medo de olhar de novo se essas parecerem noturnas e imperfeitas. ”E me sendo assim, amor,/De que adianta amim, te dizer mais?”


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