• André Vieira

[FLIP 2020] Livros, autores e debates (em casa)

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Em entrevista a Frentes Versos, Mauro Munhoz conta dos planos da FLIP para a edição de 2020.

Por André Vieira

Em meio a pandemia, o festival literário adiou a data a edição deste ano (Foto: Divulgação).


A chegada do Coronavírus marcou um novo capítulo da produção e divulgação de festivais e espetáculos culturais no País. No “novo normal”, companhias de teatro, produtoras audiovisuais e até editoras e livrarias têm apostado no formato virtual para contornar a interdição de espaços físicos e disponibilizar conteúdo online — peças, filmes, debates, palestras — para seu público.

Na mesma linha, alguns festivais literários, entre eles a FLUP e Flipoços, têm apostado nessa abordagem para manter os amantes da literatura informados e entretidos com debates, palestras e oficinas criativas, enquanto as normas de distanciamento social ainda vigoram e os mantêm longe dos espaços tradicionais de cultura.

Assim, para entender melhor como outros festivais se adequaram ao período de reorganização da cultura na pandemia, conversamos com Mauro Munhoz, diretor artístico da FLIP, sobre os desafios e as limitações dessa adaptação no ambiente das lives e das conversas e oficinas virtuais.

Em conversa feita por escrito, como os protocolos sanitários pedem, Munhoz afirma que a FLIP anda trabalhando para migração do festival para o ambiente virtual, embora, reconheça existir uma singularidade ao realizar uma festa literário do ambiente presencial, “o que marca o público de verdade são os pequenos acontecimentos que se dão no ir e vir pela cidade, entre uma mesa e outra.”

Sobre a polêmica da escolha da homenageada para edição de 2020, Elizabeth Bishop, Munhoz sustenta que: “Sem que conhecessem a personalidade da poeta e sua história no Brasil, as bolhas da Internet se lançaram ao seu linchamento digital”. Por fim, garante que frente aos novos obstáculos colocados pela Covid-19, o festival, “Como uma manifestação cultural, e não um evento, a Flip tem em si os elementos estruturantes essenciais para enfrentar o desafio”.


Confira a conversa a seguir:


Frentes Versos: Em primeiro lugar, espero que esteja bem, Mauro. É uma realmente triste que a saúde e a cultura, limitada aos espaços virtuais, do país estejam respirando por meio de aparelhos hoje. Indo nessa linha, como foi a recepção de todos, que organizam ou organizariam, quando houve a notícia do adiamento da FLIP para novembro? Dependendo do estado como as coisas estarão até lá, claro.

Mauro Munhoz: Não se pode misturar o sentimento que envolve a decisão de adiamento da Flip com aquele em relação à cultura respirando por aparelhos, para usar uma imagem sua. Mesmo inserida em um campo debilitado pelo desprestígio oficial, sem políticas públicas firmes de incentivo, a Flip soube se fortalecer junto ao seu público e parceiros não só para continuar existindo, como também para ajudar na transformação deste cenário. São 17 anos mostrando que, sim, é possível festejar a literatura e as artes. Para falar friamente, enfrentamos a necessidade de adiamento com serenidade. Não havia muito o que fazer além de aceitar o que não poderíamos mudar e começar a trabalhar no replanejamento da festa, que já estava em pleno processo de produção, em negociação com fornecedores, com a programação definida e alguns autores já até anunciados.

Desde 2003, a FLIP junto com outras festas literárias no País ajudou a construir uma cultura de feiras, festivais e debates sobre literatura e cultura brasileira de maneira geral. O que significaria não termos o festival neste ano?

O seu adiamento deve ser entendido no contexto da pandemia. Se a Flip tivesse sido adiada por falta de financiamento ou de apoio de parceiros como a prefeitura de Paraty, teria sido uma notícia muito ruim, mais um sinal do desprestígio oficial da cultura como um todo. Mas o seu adiamento é totalmente circunstancial, como o de muitas feiras e festivais – e não só de seu segmento específico – pelo Brasil e pelo mundo. Depois de 17 anos enfrentando com sucesso os desafios que envolvem toda e qualquer manifestação cultural no Brasil, a ausência de uma programação física da Flip em Paraty significará apenas isso mesmo – não foi possível estarmos lá por razões incontornáveis como as que impediram todas as outras festas literárias de estarem onde deveriam estar. Mas estaremos em breve no ambiente virtual.

"É preciso entender os recursos digitais como representações da realidade e não como alguma coisa que a substitui. Estamos ensaiando no campo da linguagem para compreender melhor a natureza da dimensão virtual e nos estabelecermos com clareza em meio a essa confusão".

Algumas feiras literárias, entre elas a FLUP e Flipoços, têm apostado em disponibilizar conteúdos online (lives, mesas, debates, exposições digitais) com o intuito de motivar o público e manter acesa a tradição de diálogos e discussões pré-pandemia. A FLIP pensou em produzir algo parecido?


Sim, estamos trabalhando para a migração à dimensão virtual, com uma programação que possa explorar com a maior potência possível as características das relações que se estabelecem neste meio. Há muita confusão nas emissões que se fazem nos canais digitais, com mensagens que vão e vêm em que haja necessariamente uma troca, um diálogo. A Flip preferiu não sair programando atividades online com a urgência de tantos eventos porque acreditamos que há uma questão importante a ser melhor metabolizada aqui. Com a pandemia, a crise associada à supressão do espaço público – uma das riquezas da festa em Paraty – tem sido agravada ainda mais pela manipulação perversa das redes sociais, criando a ilusão de que aquilo que acontece na bolha digital é a totalidade do mundo. É preciso entender os recursos digitais como representações da realidade e não como alguma coisa que a substitui. Estamos ensaiando no campo da linguagem para compreender melhor a natureza da dimensão virtual e nos estabelecermos com clareza em meio a essa confusão entre a realidade, a vida real e a sua representação artística nos meios digitais.



Bandeirolas de Paraty na FLIP 2019(Foto: Giovana Proença).


As pessoas com quem converso, principalmente amigos, dizem que a grande atração da FLIP não são os painéis diversificados e as discussões que são trazidas a cada edição, mas sim a transformação da cidade e da vida das pessoas que vivem em Paraty. Ao seu ver, poderíamos dizer que o grande diferencial da FLIP e de outras festas literárias presenciais é conseguir marcar locais e turistas com a chegada do evento?

Você menciona um aspecto importante, nem sempre lembrado por todos. Duas semanas atrás se completou um ano da festa em Paraty no ano passado. Os perfis da Flip foram marcados em muitas postagens de seu público, lembrando de onde estavam naquele exato momento em 2019, a saudade agravada pela circunstância do momento. A grande maioria dos posts se referia mais à alegria dos encontros pelas ruas e esquinas do que ao Programa Principal da Flip, com a excelência de sempre. Quer dizer então que os autores convidados e os debates no auditório fechado e transmitidos no telão têm menor importância? Eu acredito que não, e a ampla cobertura da imprensa tradicional sustenta essa impressão, mas o que marca o público de verdade são os pequenos acontecimentos que se dão no ir e vir pela cidade, entre uma mesa e outra, nas filas que se formam em cada um dos Espaços Parceiros com seus eventos paralelos, nos encontros que se dão à espera por um lugar num bar ou restaurante ao longo do dia. Essa é a natureza da festa literária, o que a define como uma manifestação cultural – uma experiência completa, não programada e jamais programável e que por isso mesmo deixa marcas tão profundas nos visitantes e moradores, nos autores convidados e nos profissionais envolvidos na cobertura da programação, nos trabalhadores envolvidos em cada aspecto do cotidiano naqueles dias, na própria cidade como um todo.

Ainda sobre o tema da experiência e as marcas que um evento literário deixa em nós, ao seu ver, existe um porquê de preferirmos eventos presenciais, sobretudo quando dizem respeito sobre cultura e literatura, ou isso se dá porque nossas gerações não nasceram imersas na cultura da web?

Não acredito que essa questão seja geracional. A minha geração pode ainda não ter compreendido completamente a riqueza imersiva da cultura web, e os velhinhos têm aprendido a se situar cada vez mais rapidamente neste novo mundo, mas não importa em que ano alguém tenha nascido para perceber que nada substitui as experiências no mundo real. O importante aqui é perceber que uma coisa não substitui ou elimina a outra e que uma coisa não é melhor ou pior que a outra — são dimensões complementares. O que verdadeiramente faz diferença nessa discussão é o espaço público, habitado pelos nossos corpos. Enquanto houver esse espaço em que um corpo não ocupa o lugar do outro corpo, em que os encontros se dão, em que a alteridade se estabelece, haverá conflitos. E enquanto houver conflitos, haverá mediação — e cultura. Para isso estamos vivos. Nada nesta vida substitui a experiência no mundo real.

"Se eles investirão contra o site da Flip em algum momento? Acho melhor não dar a ideia!"

A FLIP além de ser um polo cultural que reúne várias manifestações culturais e esportivas é lar da FLIPirata (Flipei). Como surgiu esse evento? Foi algo previamente planejado ou nasceu da espontaneidade dos visitantes e dos moradores? Numa possível FLIP online, será que teríamos a presença de crackers e hackers no festival?

A Flip é resultado de um longo processo de observação e leitura do território de Paraty, de sua história e de suas comunidades. O seu desenho foi inspirado na observação de como os paratienses se relacionaram com a primeira leva de artistas a chegar nos anos 60, entre eles Maria Della Costa, Sandro Polloni, Paulo Autran, Fábio Villaboim, Djanira e demais figuras das artes e das letras. Houve uma troca muito rica durante duas décadas. Isso reativou a sua tradição de séculos como um fértil lugar de encontro de uma forte cultura local com o que vem de fora. Em parceria com as comunidades locais, a Flip busca criar um ambiente propício às trocas – na tradição histórica da cidade como entreposto. A cidade teve o ciclo do tráfico de escravos, o ciclo do ouro, o ciclo do café e agora o ciclo das trocas culturais e da valorização da cultura que brota das comunidades.

Em relação à Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei) e a todos os Espaços Parceiros que ajudam a diversificar a programação da Flip, eles são expressão desse território fértil para a diversidade, de que falamos, no espírito ancestral do “em se plantando tudo dá”. A noção de “pirata” hoje me parece ter mais a ver com uma figura de linguagem, uma construção narrativa quase literária em defesa da bibliodiversidade do que propriamente com o espírito de hackers e crackers invadindo um território digital. Se eles investirão contra o site da Flip em algum momento? Acho melhor não dar a ideia!

No fim de 2019, quando foi anunciada que a homenageada de 2020 seria Elizabeth Bishop a Internet veio abaixo, recuperando seu passado de apoio ao golpe de 1964. A homenagem certamente viria quanto às suas obras e seu legado literário, mas ainda fica a questão: é possível separar a obra da história da autora? Haveria espaço no evento para se debater sobre a Elizabeth e dar os devidos pesos da realidade da época? (afinal, julgar um período histórico à luz de valores atuais é puro anacronismo)

Sim, há espaço na Flip para debater a obra e a vida de Elizabeth Bishop assim como a de qualquer autor com uma vida e obra relevantes. A sua pergunta já embute de alguma maneira a resposta ao falar em “dar os devidos pesos” e mencionar a “realidade da época”. Considerada uma das mais importantes autoras de nosso tempo, Bishop teve sua celebrada e concisa produção poética sequestrada por uma questão lateral, menor, sublimada pelo clima de polarização e antagonismo político que vem se acirrando no Brasil desde as últimas eleições. Sem que conhecessem a personalidade da poeta e sua história no Brasil, as bolhas da Internet se lançaram ao seu linchamento digital a partir de comentários feitos em um punhado de cartas dirigidas a amigos íntimos a respeito do que estava testemunhando, in loco, no Rio de Janeiro, ao longo dos anos 50 e 60. Bishop viveria aqui um intenso relacionamento amoroso com a urbanista Lota de Macedo Soares, colaboradora e amiga do governador fluminense Carlos Lacerda, este, sim, um entusiasta e articulador do golpe militar de 1964. É nessa chave que devem ser avaliados os comentários pinçados de suas cartas do período. Para além de tudo isso, sua poesia escrita aqui ajudou a abrir para o mundo a força da nossa arte a partir dos anos 50. Ao verter nossos grandes poetas para a língua inglesa, ela foi brasileira em lugares que o nosso português jamais alcançaria.

"A cultura e as artes têm um papel fundamental na reimaginação do mundo em momentos de crise. Penso que a demanda social por elas será enorme."

Por fim, gostaria de agradecer pela gentileza de responder às perguntas, Mauro. Da mesma forma, quereria que você desse suas impressões sobre como a cultura e a literatura, de uma maneira geral, têm contornado os empecilhos do vírus e como a FLIP (e talvez a Associação Casa Azul) poderiam pensar juntamente com artistas, organizadores de eventos e a sociedade novas saídas da cultura para a crise.

Os festivais literários estão sendo confrontados com a inviabilidade no plano físico, sem saber quando poderão reunir seus públicos outra vez. Por outro lado, estão sendo forçados a explorar as alternativas infinitas da dimensão virtual. O que é muito bom. Como uma manifestação cultural, e não um evento, a Flip tem em si os elementos estruturantes essenciais para enfrentar o desafio. Da mesma forma que fez a leitura do espaço e das relações humanas em Paraty para existir com a singularidade que a destaca entre os outros festivais no espaço físico, o desafio é buscar essa mesma singularidade no espaço virtual.

No plano simbólico, as perspectivas são as melhores. A cultura e as artes têm um papel fundamental na reimaginação do mundo em momentos de crise. Penso que a demanda social por elas será enorme.

No plano material, pragmático, as dificuldades serão maiores. No campo da operação logística, por exemplo, sempre muito complexa e exigente, o quadro permanecerá incerto ainda por um bom tempo, à espera da consolidação dos protocolos sanitários.

No campo da captação, o trabalho tem sido ainda mais desafiador porque o cenário é de menor arrecadação e de maior disputa pelos recursos disponíveis, sobretudo por outras áreas entendidas como prioritárias, como é o caso indiscutível da saúde, da segurança alimentar, das rendas emergenciais.

Mas os parceiros da Flip têm esse entendimento do papel fundamental da cultura no estabelecimento de novos caminhos para mediar a relação das pessoas com o mundo real. É no plano das artes que as subjetividades se legitimam, que a diversidade se estabelece. Não há futuro sem diversidade. A objetividade sozinha não dará conta dos grandes desafios que temos pela frente.

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