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[FLIP 2019] Novas propostas de mesas promovem diálogo mais eficaz com o público

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Por Giovana Proença, enviada à Paraty


O roteiro da edição deste ano da Flip reforçou o caráter cultural-político. Nessa tendência, vem ganhando força a eclosão de espaços alternativos que fogem ao tradicional molde das discussões literárias, levando a desconstrução de modelos rígidos e academicistas.


A abertura do espaço da FLIP como ambiente cultural receptivo a outras artes propiciou manifestações artísticas diversas pelos ladrilhos do centro histórico. As programações paralelas de entidades como o SESC oferecem uma variedade de apresentações teatrais. As artes cênicas estavam representadas ainda pela lendária presença de José Celso Martinez Corrêa, diretor e ator a frente do Teatro Oficina, que marcou a mesa que participou na sexta feira pela veia dionisíaca, fugindo do molde tradicional de debate.


A música assinalou seu caráter de vinculação à literatura. As notas musicais permearam a festa tanto nas violas e chocalhos de grupos regionais e locais quanto nas mesas que discutiam essencialmente sua forma e estrutura, com temas que atravessam a MPB, a questão do rock, androginia e censura, endossados pela presença de nomes primorosos no cenário musical, como Adriana Calcanhoto e Ney Matogrosso.


Completando as atividades multidisciplinares da FLIP, filmes que dialogavam com Os Sertões do homenageado, Euclides da Cunha, foram exibidos pela cidade, entre eles o célebre “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, do cineasta Glauber Rocha. Na casa SESC, uma mesa composta por Ismail Xavier e José Geraldo Couto propôs a reflexão sobre o cinema brasileiro, iniciada com a famigerada relação do cinema com a literatura , uma vez que ele é defendido pelos convidados como um meio de expressão que conversa com outras linguagens. 


Um dos principais motes da mesa visava a desconstrução da ideia do cinema como ilustração da forma literária, sendo definido pelos integrantes como uma tradução que almeja dialogar e responder a obra e a situação social e cultural na qual inserem-se.

Em concomitância com a expansão de formas artísticas a conquistar seu espaço na pitoresca Paraty durante o evento, é perceptível uma mudança no modo de encarar os debates e discussões nas mesas da FLIP. A maior liberdade para desconstrução de moldes academicistas de usar a literatura como pauta faz surgir uma multiplicidade de ambientes alternativos e a apropriação de contextos tidos como tradicionais, a exemplo da descontraída iniciativa “Literatura é papo de bar” nas noites da Casa Tag e da mesa composta por José Celso Martinez Corrêa e Ailton Krenak, que tornou-se uma manifestação de arte que beira o ritualístico.


A abertura da FLIP ao desvendamento de outros meios culturais e seus diálogos com a literatura tendem a enriquecer o cardápio da festa; Luciana Domschke, que participou de montagens do Teatro Oficina, entre elas Os Sertões, e interpretou a homenageada da FLIP 2018, Hilda Hilst, no filme exibido na ocasião, “Hilda Hist pede contato”, contou ao Frente & Versos que “Um ambiente eminentemente literário está abrindo um espaço importante para as outras artes” e reforça a necessidade novas iniciativas do tipo em outras cidades.


A Festa Literária Internacional de Paraty, cuja edição deste ano foi criticada pela programação oficial pela falta de convidados relevantes para os debates ocorridos nas mesas, parece ter encontrado na profusão de manifestações artísticas, na multidisciplinaridade e na descentralização dos eventos pelos casarões coloridos do centro histórico a receita para contornar as críticas, de forma que resta aguardar das próximas edições o que virá por aí.

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