• Bruno Pernambuco

[FLUP 2020] Uma Lembrança de Carolina

\\ ESPECIAIS

Neste ano, a FLUP comemora sua nona edição celebrando quem sempre lhe esteve próximo (...) e, ao mesmo tempo, nunca esteve inteiramente consigo;

Por Bruno Pernambuco

Pôster da edição [em casa] da FLUP2020 (imagem: divulgação, Facebook.).

Em sua nova edição realizada desde maio e com duração até novembro, por meio de lives e ofcinas, a Festa Literária das Periferias, tradicional evento que desde 2012 caminha pelos meandros geralmente ignorados pelo escopo da programação literária, chegou quase irreconhecível e, ao mesmo tempo, mais pungente do que nunca em suas ações e reflexões, chamadas pelas condições excepcionais do presente na pandemia. Sua forma transformou-se inteiramente, gerando situações até há pouco inimagináveis para discussões e interações com o público, mas que mantém sua praxe em cair sobre as cabeças de quem sempre sofreu, de quem sempre foi a periferia.


De fato, é algo difícil reconhecer um evento contínuo na coleção de mesas, unidas pelo disparador “Uma Revolução Chamada Carolina”, que por tanto tempo se estende, tendo suas últimas discussões programadas apenas para novembro (quando, confluentemente, está programado o início da programação online de sua contraparte, a FLIP). Isso, no entanto, acaba sendo também o maior trunfo do encontro virtual, que na riqueza dessa organização se permite trazer um olhar mais atento a personalidades negras de todas as regiões do Brasil, e aprofundar-se em discussões que reflitam a variedade das experiências que envolve a discussão de uma literatura feita pela periferia: da favela à universidade.


Neste ano, a FLUP comemora sua nona edição celebrando quem sempre lhe esteve próximo - batizando, inclusive, uma premiação oferecida pela festa - e, ao mesmo tempo, nunca esteve inteiramente consigo; figura que representa uma ponte entre o universo periférico da FLUP e o público do “meio literário”, das editoras tradicionais: Carolina Maria de Jesus, autora que com Quarto de Despejo transformou o cânone literário nacional, e se inseriu, com o sucesso da obra, entre os maiores nomes da literatura contemporânea brasileira.

“Carolina inaugura uma linha matricial de mulheres negras e pobres na literatura brasileira”, diz Conceição Evaristo. O diagnóstico é preciso: a escritora foi uma revolução, e o encontro com seu texto foi a referência fundamental para gerações de escritoras, que ainda hoje se aprofundam em novas formas da linguagem poética e em outras ramificações das mazelas de sua realidade - essas autoras que não apenas são, em diferentes graus, reconhecidas pelas instituições tradicionais, mas que transformam mesmo a natureza dessas instituições, e esmigalham esse pressuposto de uma centralidade das decisões, e da chancelaria oficial do que é onsiderado como “literatura”.


Num momento de crise dessa cultura tradicional, agora à sombra de seus patriarcas e daqueles engenhos aos quais ainda esteve tão ligada, e dessa erudição moderna, descendente do descobrimento do Brasil pelo Brasil, o trabalho dessa nova geração é simplesmente prova daquilo que historicamente foi ignorado, e pelo qual se decidiu.


Falar sobre a autora, especialmente num momento em que ela volta à evidência da vida literária tradicional, com a comemoração de 60 anos de Quarto de Despejo e sua reedição pela Companhia das Letras, é naturalmente falar dessas contradições. Da presença e da ausência, da aceitação e da invisibilidade, do terremoto que foram (e são) as imagens cruas de Carolina e simultaneamente do quanto seu legado ainda é evocado para perpetrar um modelo antigo e tradicionalista.


As conversas da FLUP não fogem à aspereza da discussão, e respondem a tudo isso retomando uma dimensão humana, da memória e do pensamento, da reflexão e da atitude daquelas vidas que tinham ficado desumanizadas - nos círculos tradicionais, tratadas como um mero “objeto de estudo”, como tantas vezes Carolina foi enquadrada. Aprofundando-se também nas miudezas das experiências, nas contradições, no jogo de permanências e mudanças que surge após a visita desses abalos literários e culturais. Não há jeito melhor de ocupar esse tempo vazio.


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