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Hermann Hesse conta mito do cancioneiro alemão através da mítica figura do viajante Knulp

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"Knulp: Três histórias da vida de um andarilho" é o primeiro de três livros que a editora lança do ganhador do Nobel 


Por Giovana Proença


O autor Hermann Hesse (Imagem/divulgação)

Mais do que um singelo título, Knulp nomeia a personagem central da obra do escritor e pintor alemão Herman Hesse, acompanhando três histórias e encontros de um andarilho, que caminha na contramão dos padrões esperados pelo ambiente que integra, a Alemanha do fim do século XIX. Publicado pela primeira vez em 1915, em plena eclosão da Primeira Guerra Mundial, o livro do autor Prêmio Nobel de Literatura de 1946 chega ao Brasil em edição pela Todavia em um período de reclusão que propicia a exaltação dos valores veiculados por Hesse e Knulp, criador e criatura.

Nas três histórias da vida de um andarilho, subtítulo e definidor do livro, Knulp é apresentado por seus encontros amorosos, amigáveis e espirituais. Seguidor de uma doutrina carpe diem e amante do filosofar, a complexa personagem de Hesse vive a cantar canções em atitude tipicamente alemã, e afirma que “A montanha e o vale não se aproximam, mas as pessoas sim”, dosando a liberdade que venera entre o compromisso com suas interações sociais - pois é um homem dotado de concepções que valorizam seus semelhantes - e a solidão de suas andanças. 


Multifacetado, o essencialmente mundano Knulp eleva-se em dois grandes momentos da narrativa: ao expor sua filosofia e as concepções acerca da beleza, efemeridade e questionamento dos sentidos da vida ao amigo que o acompanha e narra, e no exímio diálogo com Deus, no qual encontra as respostas procuradas na máxima “Tudo está como deveria ser”.  Em outra de suas facetas, configura-se como ave migratória, pois tão aguda quanto sua necessidade de ir é seu desejo de retorno a terra natal ao ver-se próximo da morte, equilibrando em sua leveza o peso de suas raízes.


A fluidez da escrita de Hesse, que desenrola sinfonicamente, carrega o peso do misticismo que permeia o trajeto do andarilho e sua essência espiritual, citando até Tolstói, escritor russo conhecido por seus conflitos religiosos. Em Knulp, converge-se assim elementos do teísmo católico e de doutrinas orientais, como é perceptível no encontro da personagem com Deus. As acepções do próprio Herman Hesse influenciam a obra, uma vez que o próprio entrou em contato com o espiritualismo do Oriente, libertando-se de ideais eclesiásticos e aproximando-se de matérias como a psicologia, no contato com a experiência da Guerra. 

A libertação de Hesse e os impactos sobre sua obra o fez ganhar status de símbolo avançado da contracultura, décadas antes do movimento hippie promover o culto a meditação e viagens de autoconhecimento, os popularizados mochilões. Detendo um dos mais belos e poderosos finais da literatura, a demanda de Knulp, que rompe com os ideais circulantes de uma nova geração burguesa em ascensão no período da Grande Guerra, torna-se mais atual do que nunca em um período em que nos vemos coagidos a nos voltar para nós mesmos e nosso lugar de responsabilidade com o outro – ainda assim, tão semelhante - questionando a validação de valores e sentidos impostos e negados socialmente.


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TÍTULO: Knulp: Três histórias da vida de um andarilho

AUTOR: Herman Hesse

EDITORA: Todavia 

ANO DE EDIÇÃO: 2020

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