• Lia Petrelli

HISTÓRIA A SERVIÇO DE QUEM?

\\ ALEXITIMIA


Este é um texto escrito por duas mentes artistas.

Sim, artistas e criadoras de algum tipo de subversão. Artistas Visuais, artistas que amam e se apoiam nas palavras.


Por Lia Petrelli e Núria Vieria


Vocês se lembram de quando a Catedral de Notre-Dame pegou fogo?


Naquele abril de 2019, havia uma maioria de pessoas defendendo a reforma e retomada de atividades da igreja e uma minoria pedindo atenção para outras causas, variadas, que necessitavam investimento e apoios financeiros. Ficou em xeque naquele momento se era mais importante manter erguido um símbolo de cultura dita internacional, ou apoiar medidas mais progressistas e locais para a arte e sociedade atual.


Foi a partir daquele questionamento que se iniciou um diálogo entre estas duas artistas sobre o histórico de colonização do nosso país, o Brasil, e as consequentes interferências internacionais na criação de um simbólico caráter de identidade da cultura nacional.


Inicialmente, dominado pela cultura europeia e, mais enfaticamente num recorte, na cidade de São Paulo, analisamos que o nosso patrimônio cultural nasce e se mantém edificado pela cidade numa estrutura que segue a herança monumental que beneficia à herança colonialista branca, contrária à presença de símbolos de resistência a este sistema instalado.


É só parar e pensar: quais são os prédios que conhecemos que mantêm isso o que chamamos de patrimônio cultural? Estariam, nestes espaços mantidos, inseridos os valores da nossa cultura mais marginalizada? A produção artística dos nossos povos originários? Estão ali lembrados e representados os movimentos de resistência à ocupação das nossas terras, o histórico de escravidão e de repressão mais antigos, e também os mais atuais historicamente?


Pensando maior, os elementos presentes na formação e surgimento da cidade se destacam pela sua arquitetura, pelos nomes de ruas, avenidas e demais monumentos que, em maioria, otimizam e reforçam ainda mais essas referências de dominação colonial.


Faz sentido manter-se nesse mesmo passo? Nos perguntamos. Faz sentido darmos continuidade a este processo colonial que tanto nos oprimiu e só passa a continuar oprimindo, ou seria a hora de deixarmos estas estruturas ruírem e cederem espaço para necessidades mais atuais?


Antes do que nunca, esta é a hora de rompermos com movimentos iniciados em tempos de Brasil-colônia e nos descolonizar.

Buscar por nossas íntimas raízes e deixá-las aparecer por cima desta terra parece ser extremamente necessário, principalmente se levarmos em consideração a atual política que toma tais assuntos com desimportância.


O movimento global que vem sendo instituído prega a derrubada de tais monumentos. A população global não se sente representada pela história que foi contada até então.

Não poderia ser diferente, não é?

Representantes de uma história esquecida, hoje esses sujeitos sociais se inclinam para combater a desinformação que percorre o mundo, como se estivéssemos, aos poucos, saindo da idade das sombras com mentes jovens encabeçando questionamentos e, arriscaríamos dizer, tomando frente nas ações, retirando a couraça social que encobre o ritmo de evolução.


Pouco a pouco os corpos em revolta entendem o seu lugar no mundo, para além de si, finalmente se distanciando do discurso do governo para que a reconstrução possa ser realizada com suas próprias mãos.


O monumento de Bristol, primeiro a ser retirado de seu palanque, foi a gota d’água para a população inglesa que, depois de pedidos formais não atendidos, resolveu tomar partido.


Existem ainda questões serem debatidas, ou se muito, ainda silenciadas: para onde irão estes monumentos? Eles precisam ter algum lugar? Seria cabível tal violência? Não estaríamos andando em círculos caso a proposição seja, também, o de apagamento do percurso histórico que trilhamos?


É certo que hoje os meios de mantermos viva a história são bem mais amplos do que os modos antigos de construção de memória. Fotografias, vídeos e artigos se acumulam ao contarmos essa nova parte da história, mas o imaginário histórico, atrelado a valores materiais, ainda circunda certos posicionamentos que falam contra “a violência” que se instaurou na cidade por conta desses movimentos.


Não chegamos a esses questionamentos sozinhas, apesar de também estarmos tomado pelas mãos a necessidade de argumentação.

A partir do contato e questionamento de posicionamentos conservadores a respeito da manutenção de monumentos, reformulamos nossos pensamentos sobre quais seriam as resoluções “não-violentas” cabíveis para que ambas as partes pudessem “ser representadas”.

A preservação da história branca ainda parece perpetuar a escolha máxima e guiar a visão antiquada de querer manter de pé, vivas, as atrocidades com que as colonizações foram realizadas ao redor do globo.


Construções arquitetônicas contemporâneas não podem se isentar de responsabilidade, apesar de manterem nebulosos as escolhas de nomeação de estruturas que recontam, com mais convicção a história colonialista.


Uma das estátuas mais polêmicas de São Paulo carrega a imagem de Manuel de Borba Gato, bandeirante responsável pelo genocídio de povos originários, sendo polêmica desde sua instalação, em 1963. Não cansados de enaltecer a violência, os construtores contemporâneos parecem desconsiderar a história por completo:

A inauguração da estação de metrô de mesmo nome, na linha lilás, intriga pelo descaso — principalmente por sua entrega ter sido atrasada devido ao encontro, durante a escavação subterrânea, de mais de dois mil itens domésticos, datados dos séculos XVIII e XIX, o que, considerado “tesouro arqueológico”, ajudaria na construção de um retrato mais fiel do comportamento social daquele período, mas que, curiosamente, não chegou a conhecimento público.


Não somente isso, as rodovias de São Paulo também trazem nomes de bandeirantes sanguinários, Raposo Tavares, Fernão Dias e Anhanguera, por exemplo preenchem a cidade de memórias dolorosas para a maioria da população.


Não o bastante, o Centro de Tradições de Santo Amaro — local que abriga a figura do bandeirante — está preocupado com a eventual destruição do monumento e, junto à subprefeitura, instalou grades ao redor da estátua, que também passou a ser vigiada 24h pela Guarda Civil Metropolitana. É realmente tão importante que sejam deslocados membros de “proteção aos cidadãos” para a preservação de uma memória dolorosa?


Num passado não muito distante Borba Gato e o Monumento das Bandeiras amanheceram cobertos de tinta, mas o caso, repercutido na época, deixou de ecoar, e logo nos esquecemos.


Já não estávamos questionando, desde 2016, o motivo destas estátuas ainda estarem presentes no corpo da cidade?

Três anos antes, ainda, o protesto da Comissão Guarani Yvyrupa já se posicionava, questionando o motivo das homenagens.

Ainda são motivos obscuros os que levam a cidade de São Paulo abrigar uma história de tamanho horror.


Se é verdade que o ser humano é mutável e é capaz de reescrever a história, por que será que ainda é tão difícil dialogarmos amplamente sobre questões, aos nossos olhos e de mais um tanto, tão urgentes?


As resoluções de tais retiradas ainda muito têm de ser discutidas. Enquanto alguns defendem a movimentação dos monumentos para museus e locais memoráveis, nos perguntamos o que restaria no corpo da rua. Um vazio tremendo? Talvez uma solução lógica fosse a movimentação da população para tornar estes espaços em campos abertos de debate a céu aberto, vias de wi-fi livres e discussões contemporâneas sobre o modo como a história se construiu, vem se construindo e para onde poderemos levar suas construções.


O centro de São Paulo já vem sofrendo intervenções sobre sua arquitetura, há muito tempo. A voz da revolta se espalha pelas construções antigas em forma de tinta, tags e pixos. Já não temos como impedir que as culturas marginais participem da cidade: elas estão aqui dentro, também — sempre estiveram, apesar de sucumbidas ao descaso.


Não seria o caso de compreendermos como se articula, de fato, a democracia e começarmos a pensar, devidamente, sobre esses tabus que percorrem nossa cidade?

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