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Igrejas Evangélicas rompem o silêncio em relação à violência contra pessoas LGBTI+ no Brasil

\\ ESPECIAIS

“Eu fiquei 13 dias sem comer nada aos 14 anos de idade porque eu queria ser curado e eu falei, eu só vou comer quando Deus me curar”

Por Isabella Marzolla e Lucas Freitas, colaboração para Frentes Versos


Encontro de um dos grupos Evangélicxs que promove a campanha LGBT+ juntamente com a Plataforma Intersecções. Foto: Flávio Conrado.


Uma pesquisa divulgada pela Rede Nossa São Paulo em 2018 mostra que 43% dos paulistanos entrevistados são contra a demonstração de afeto em público entre pessoas do mesmo gênero. Já outras duas pesquisas divulgadas em 2018 e 2019, respectivamente, revelam que 68% dos entrevistados acreditam que a Prefeitura de São Paulo faz pouco ou nada em relação a políticas públicas para o público LGBTI+, e 40% dos entrevistados disseram já ter sofrido ou presenciado algum episódio de homofobia ou transfobia na metrópole paulistana.


Esses números mostram o quanto a discriminação de orientação sexual e identidade de gênero não só é um problema latente na cidade de São Paulo, como existe um preconceito institucionalizado contra pessoas LGBTI+ que reflete na omissão de órgãos públicos e em medidas executivas em adotar políticas de combate permanente ao preconceito, e a favor da diversidade.



Esse preconceito e falta de medidas afirmativas também pode ser visto em templos evangélicos, tanto por fiéis quanto por membros do corpo das igrejas. Em outras palavras, lugares que deveriam ser locais acolhedores, tidos como “casa de Deus”, se tornam verdadeiros “infernos na terra” para pessoas LGBT+. A omissão das igrejas evangélicas em tratar da diversidade sexual e de gênero faz com que a experiência desse público com a religião seja cruel e até traumática. Porém, existem pessoas de dentro das igrejas evangélicas que estão tentando mudar essa realidade.


No dia 20 de junho, mês do Orgulho LGBTI+, grupos evangélicos da Plataforma Intersecções e o Evangélicxs pela Diversidade publicaram a chamada “Declaração em reconhecimento da dignidade e do amor de Deus às pessoas LGBTI+”. A iniciativa procura pedir perdão às pessoas LGBTI+ que, segundo os movimentos, foram negligenciadas e invisibilizadas por igrejas evangélicas durante anos.


“O que é importante de ter em mente é que nossa intenção é convocar apoiadores da causa a "saírem do armário" como pessoas que também pautam a nossa existência dentro dos seus contextos. Estamos falando de pastoras evangélicas, líderes de organizações, missionários que não trabalham com o tema LGBTI+ diretamente, mas que reconhecem a importância de finalmente levantar essa pauta no debate.”, afirma Bob Luiz Botelho, um dos idealizadores do movimento.


A declaração contém um total de 176 assinaturas de pastores e teólogos das igrejas evangélicas pelo Brasil. Na carta de declaração da campanha, o movimento afirma que as igrejas, entre elas a Católica, se mantiveram em silêncio por muitos anos em relação às pessoas LGBTI+. “(...) pedimos, em primeiro lugar, perdão aos nossos irmãos e irmãs lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, intersexo e de outras expressões de gênero (LGBTI+), como também às nossas comunidades de fé e à sociedade brasileira, por termos ficado em silêncio por tanto tempo, por diferentes razões que já não nos parece mais justificáveis”, diz trecho da carta.Em outro trecho, o documento afirma que “pessoas LGBTI+, igualmente aos outros seres humanos, são pessoas amadas por Deus” e que “os propósitos de Deus para todas as pessoas são para o bem e não para se transformar em vergonha, culpa, autodepreciação, depressão, ideação suicida ou morte por suicídio.”


Para entendermos a fundo qual é a importância do documento, conversamos com alguns representantes de igrejas que assinaram o documento, assim como as lideranças responsáveis por encabeçar o projeto para tornar visível a causa LGBT+ dentro de templos.




Embora muito presentes em templos e igrejas, membros da comunidade LGBTQI+ sempre viveram à margem na Casa do Senhor. Foto: Isabella Marzolla.


Ronilso Pacheco, teólogo, pastor auxiliar na Comunidade Batista em São Gonçalo, autor de Ocupar, Resistir, Subverter (2016) e Teologia Negra: O sopro antirracista do Espírito (2019); mestrando em teologia no Union Theological Seminary (Columbia University) em Nova Iorque, falou sobre a importância desta iniciativa para caminharmos rumo a um mundo mais justo e para todos.


“Não cabe mais, nesse mundo, o desrespeito, violência e negação de reconhecimento e dignidade às pessoas LGBTI+. Não cabe mais o silenciamento de sua visão de mundo, sua compreensão da vida, sua fé. Não teremos um mundo verdadeiramente justo, sem que a justiça às alcance.”, apregoou Pacheco.


Também signatária da carta, a professora Lusmarina Campos Garcia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, no Rio de Janeiro, reiterou que pessoas LGBTI+ devem ser acolhidas pela Igreja Evangélica da mesma forma que as outras pessoas são.


“A inclusão de pessoas LGBTI+ é um imperativo para as igrejas e as comunidades de fé. O Evangelho é a boa notícia de um Deus que acolhe e ama, por isso aqueles e aquelas que professam o seu nome comprometem-se com a sua vocação primeira que é a acolhida e o amor.”


Para analisar o impacto estrutural e teológico no mundo evangélico, conversamos com o porta-voz do grupo evangélico Intersecções, Flávio Conrado, antropólogo com pós-doutorado pela Universidade de Montréal (Québec), organizador da coletânea Reimaginar a Igreja no Brasil: 40 Vozes Evangélicas (Novos Diálogos, 2017) e secretário executivo da Aliança dos Batistas do Brasil.


Frentes Versos: Como motivos para iniciar a campanha vocês citam, no documento, que “passaram mais de 50 anos desde o início da construção de uma compreensão bíblico-teológica sobre a participação de pessoas (LGBTI+) em igrejas cristãs por meio do batismo.” Existiu algum marco histórico para esse tipo de movimentação e aceitação dos LGBTI+ nas igrejas?


Flávio Conrado: Um dos marcos históricos da reflexão e da acolhida de pessoas LGBTI+ nas igrejas cristãs é a fundação da Igrejas da Comunidade Metropolitana (ICM, MCC na sigla em inglês), em 1968, na Califórnia.


Desde então não só em termos bíblico-teológicos se avançou na direção de uma Teologia Gay, Lésbica ou Queer, que revisa e reinterpreta as Escrituras de acordo com os métodos exegéticos disponíveis, assim como as igrejas cristãs têm revisitado pastoralmente o tema e muitas igrejas históricas têm inclusive ordenado e dado bênção matrimonial a casais homoafetivos.


No Brasil apenas a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e a Aliança de Batistas do Brasil são afirmativas, além das igrejas inclusivas.

De maneira sintética, como o indivíduo LGBTI+ é visto por correntes evangélicas mais conservadoras?


Nas correntes evangélicas conservadoras o indivíduo LGBTI+ é visto como portador de um pecado contra o qual ele deve lutar, e essa luta pode tomar várias formas: terapias de reversão, orações, jejuns, sessões de exorcismo. Isso significa a não aceitação da sua orientação sexual ou sua identidade de gênero, levando a alguns casos em que as pessoas LGBTI+ forçam-se a entrar em casamentos heterossexuais, ou permanecem celibatários para sempre.


A consequência é obviamente a infelicidade desses casais, sua inevitável separação, ou a permanência com a experiência da vida dupla.


Na sua avaliação, qual será o impacto da declaração em relação às igrejas evangélicas de um modo geral?


Acreditamos que a aceitação da diversidade é algo inevitável porque a sociedade brasileira vem se tornando cada vez mais permeável às demandas por direito das pessoas LGBTI+ e elas ganham mais visibilidade e aceitação.


As igrejas estão começando a entender que esse tema precisa ser discutido e dialogado porque igrejas não podem ser espaços LGBTIfóbicos e inseguros para pessoas e famílias LGBTI+. Reconhecemos que ainda há muito a mudar, mas as lideranças que assinam demonstram que é possível e que essa mudança está a caminho.

Dentro das congregações evangélicas há pessoas que sofreram retaliações por acolherem pessoas LGBTI+, como a teóloga Odja Barros.




Odja Barros é pastora na Igreja Batista do Pinheiro (IBP), em Maceió. Após ser aprovado um parecer no qual a orientação sexual de uma pessoa não poderia mais ser impedimento para o batismo, a Igreja foi expulsa da Convenção Batista Brasileira (CBB).


Para a pastora, “O debate sobre a homossexualidade e o batismo de pessoas LGBTI+ chegou na IBP de uma maneira assistemática em um processo comunitário, permeado de tensionamentos internos. As discussões que culminaram na aceitação de pessoas homossexuais como membros dessa comunidade Batista no ano de 2016, teve início no ano de 2007, em torno de uma pessoa que havia declarado sua orientação homossexual antes de ser batizada. Este episódio disparou uma série de reflexões comunitárias, estudos bíblicos, seminários e outras atividades relacionadas à melhor compreensão do tema.

A conclusão desse longo processo comunitário que durou 10 anos, se deu no dia 28 de fevereiro de 2016, em uma Assembleia Extraordinária convocada pela Igreja Batista do Pinheiro, aprovando o parecer que indicava que a orientação sexual não poderia ser impedimento para o batismo, logo, a partir daquela assembleia, o direito de quaisquer pessoas homossexual de ser batizado, tornando-se membro com plenos direitos na Igreja, ficou assegurado.”, completa.



Um dos idealizadores da campanha do grupo Evangélicxs pela Diversidade, Bob Luiz Botelho, conversou com a matéria e nos relatou como foi seu processo de autoaceitação.


“Chorei muito, orei muito. Eu ungia meu quarto, eu ungia a porta, eu ungia o computador, eu fiz jejum, eu fiquei 13 dias sem comer nada aos 14 anos de idade porque eu queria ser curado e eu falei, eu só vou comer quando Deus me curar… Tudo porque eu queria ser curado de uma coisa que eu ainda nem conseguia dar nome. Eu achava que era demônio eu achava que era crise, aí a gente começa a procurar explicações. A Igreja Evangélica tem esses caminhos para tentar achar uma explicação: não é que ele é homossexual porque ele foi abusado, ou foi porque o pai foi ausente ou porque a mãe amou demais.”

Mais tarde quando eu passei pelo meu processo de me reconhecer como homossexual eu precisei lutar para continuar com Jesus. Depois eu tive que fazer escolhas, entre escolher o rigor do texto bíblico ou eu “me escolhia”. E precisei entender que o sagrado é minha vida. Mais do que o texto. Minha vida é sagrada para mim. Jesus morreu por mim e não pelo livro. Jesus venceu a morte por causa do meu corpo e não pelo livro. Aliás o objetivo do livro é contar para o mundo a história de um Deus que se faz homem para que todo mundo tenha vida. Como é que esse livro vai me quitar a vida, vai destruir a minha existência? Porque ele ainda é o livro que faz sentido para mim e hoje justamente eu uso esse livro para me afirmar como outros LGBTI’s. Eu entendo a Bíblia e eu percebo que a Bíblia manifesta o amor de Deus por mim e por todos os LGBTI’s e é isso que me move. Depois que eu tirei esses óculos fundamentalista e eu coloquei os óculos de vida, cara, aí a Bíblia é um livro ótimo. Quando usam a Bíblia para gerar morte na minha existência, para me gerar depressão, ansiedade, tentativa de suicídio, não aceitação sobre mim e meu corpo, as pessoas não estão fazendo Palavra de Deus. Deus disse para mim que eu sou amado, disse para mim "sem mim você não seria quem você é, aliás, se você é o que você é Bob, esse gay cristão, missionário geógrafo você só é porque eu quero que você seja". Então eu me sinto muito afirmado por Jesus.”, confessa.


Bob também respondeu a algumas perguntas sobre a iniciativa e a situação dos evangélicos assumidamente LGBTI+.


Frentes Versos:Na Declaração em reconhecimento da dignidade e do amor de Deus às pessoas LGBTI+, vocês pedem “perdão aos nossos irmãos e irmãs LGBTI+, como também às nossas comunidades de fé e à sociedade brasileira, por termos ficado em silêncio por tanto tempo, por diferentes razões que já não nos parece mais justificáveis.” Por que a maioria das igrejas e comunidades de fé evangélicas não aceitam as pessoas LGBTI+?


Bob Luiz Botelho: São muitas as razões para o silêncio dessas pessoas ao longo dos anos. Uma das razões é o fato da LGBTIfobia não ser uma violência que eles [pessoas cis-hétero] sofrem e portanto eles não sentem a necessidade de urgência nesse debate.


Quando a gente vive integralmente do ministério, ou seja, quando a vocação religiosa é também a nossa profissão, a manutenção da nossa posição envolve não apenas uma posição por status, mas o nosso emprego. Tivemos pastores que concordaram plenamente com a declaração, mas que se tiverem seus nomes publicados como assinantes vão ser demitidos e não vão conseguir emprego para sustentar suas famílias. Acho que esse assunto nunca foi trabalhado antes porque não tinha quem levantasse a pauta.


O Evangélicxs Pela Diversidade é a primeira organização evangélica LGBT da América Latina. Acredito que o pedido de perdão é também um reconhecimento desse momento histórico que estamos vivendo.


Existe uma única interpretação “correta” da Bíblia ou do Evangelho de Cristo? O que, no caso dos evangélicos, difere na interpretação do Evangelho para os que aceitam os LGBTI+, dos que não aceitam?


A Bíblia é um livro em disputa ao longo da história. O tempo todo o que está em jogo é a maneira como se lê e interpreta o texto sagrado. Existem igrejas que entendem que é possível ordenar mulheres ao ministério, que são as igrejas que têm pastoras, enquanto algumas igrejas não concordam com essa forma de interpretar o texto. Veja, o que eu estou querendo dizer é que o próprio ambiente evangélico por si só não assume que existe uma interpretação única e "correta" para o texto bíblico e para o Evangelho de Cristo. Esse tabu que se cria de uma interpretação única do texto bíblico na verdade é só um pretexto para que as pessoas continuem pautando seus fundamentalismos.


Vocês já pensaram em projetos concretos para que as pessoas LGBTI+ se sintam aceitas dentro das igrejas evangélicas e livres para serem quem são?


O Evangélicxs Pela Diversidade é um projeto, somos uma agência missionária evangélica que trabalha para transformar igrejas em espaços seguros para os LGBTI+. Produzimos material teológico para amparar a existência de LGBTI+, também participamos de espaços evangélicos internacionais como a Fraternidade Teológica Latino-americana e a Rede Miqueias Global como primeira organização LGBT na história desse espaço a pautar o tema LGBTI+ e a ser formalmente filiado.


A gente ocupa espaços internacionais como a OEA (Organização dos Estados Americanos) para denunciar o uso de argumentos religiosos para perseguir politicamente e retirar direitos da população LGBTI+.

Como vocês abraçaram a ideia de criar uma declaração para o público LGBTI+? Aconteceu algo específico que levou vocês a pensarem que essa era a hora certa?


A América Latina de uma forma geral está passando por um processo de intolerância religiosa por parte dos evangélicos fundamentalistas. Disputar a discussão política sobre direitos da população LGBT no Brasil atualmente passa diretamente por uma discussão teológica.

O que quero dizer é que estamos em um estado laico governado por líderes "terrivelmente cristãos" como eles próprios se intitulam. Sei que não deveria ser assim e como cristão protestante evangélico quero lembrar que a luta por um estado laico é na luta por separação integral entre Igreja e Estado surge na Reforma Protestante. Mas o ponto é que a violência contra os LGBTI+ está mais institucionalizada do que nunca e nós precisamos utilizar todos os recursos para resistir, inclusive os teológicos.


Você acredita que essa declaração pode ser o começo de uma transformação real das igrejas e do Cristianismo rumo a uma maior aceitação da diversidade?


Há algo simbólico, no campo das representações e de um ato político fenomenológico, quando a gente reúne vários líderes cisgêneros e heterossexuais evangélicos que dizem "nós cremos e afirmamos a diversidade" e "apesar da minha denominação evangélica não ser inclusiva e afirmativa, eu sou e estou aqui por vocês".


Para LGBTI’s cristãos é, em alguma medida, reconfortante ver que dentro das denominações que os feriram tanto existem pessoas contrárias a toda essa violência.


Mas, ao mesmo tempo, existe algo muito concreto em tudo isso que é justamente o tensionamento político institucional. A gente já recebeu mensagem de líderes que foram cobrados em suas instituições por terem assinado [a declaração] e que aproveitaram a oportunidade para gerar debates internos numa tentativa de transformação. Além disso, tem LGBTI’s espalhados pelo Brasil que podem ler a declaração, ler os assinantes e descobrir algum líder na sua cidade que pode ser suporte, então a declaração acaba também sendo um ponto de encontro.


Uma outra coisa também muito forte é que daqui em diante sempre que alguém, quem quer que seja, disser "não há possibilidade de ser evangélico e apoiar LGBTI’s", nós teremos uma lista pronta com mais de 176 assinaturas para dizer que isso não é verdade, que isso não expressa a totalidade do pensamento evangélico e que ninguém pode fazer uma fala LGBTIfóbica em nome "dos evangélicos".


Apesar de existir uma linhagem ideológica no governo federal “terrivelmente” evangélica, há pontos de luz e aberturas, por parte de algumas Igrejas e comunidades evangélicas.


Talvez através de ações como as dos grupos Evangélicxs pela Diversidade e Intersecções seja possível desmistificar a religião evangélica como algo necessariamente fundamentalista ou reacionário. “Terrivelmente” não precisa ser o advérbio que antecede o substantivo “evangélico”.


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(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da Frentes Versos)

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