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A voz daquela rua

\\ CONTOS

Alguns passos mais e chego no segundo portão, quase posso ver a aglomeração dos alunos para entrar, e nosso falatório...

Por Roseli Pieri, especial para Frente & Versos

Imagem/reprodução

Subi esse pequeno aclive cinco vezes por semana, durante quatro anos no período de 1974 a 1977.

Essa rua foi testemunha silenciosa de muitas alegrias, aprendizado, desenvolvimento, amizades, descobertas, trocas, companheirismo e amores juvenis.

Olhando agora da esquina de baixo, o trecho que tenho na minha frente me parece bem menor do que naquela época. Como a rua faz uma suave curva à direita consigo daqui avistar o muro que delimita a escola e posso perceber que há uma guarita de vigia de rua que antes não existia.

Começo a caminhar relembrando o quanto alegre e barulhenta ficava a rua nos horários de entrada e saída dos alunos, porém eu nesse momento encontro-me só, e a rua silenciosa parece também me observar, será que ela me reconheceu?

Começo a caminhar e passo a passo vou observando as casas que até agora são as mesmas de minhas recordações, embora muitas já não apresentem a fachada tão conservada e o jardim cuidado de antes e diversas se isolam do exterior por mostrarem apenas o portão fechado por chapas de aço, impondo um limite entre o dentro e o fora e me deixando com um sentimento de tristeza.

Continuando a caminhada avisto o sobrado de pastilhas cinza e branca intacto, imponente entre as casas térreas ao seu redor, ele se encontra parado no tempo, suspenso entre 1977 e 2019, exatamente como o vi no último dia de aula da minha oitava série. Sorrio, passo pelo sobrado e continuo rumo a escola, atravesso a rua para que, ao chegar nele, possa observa-lo em sua totalidade, mas uma construção nova chama minha atenção, destoa das minhas lembranças e destoa do entorno com seus traços modernos, pintura recém executada e essa aparência jovial.

Chego na altura do início do muro da escola, lá dentro a quadra, que fica acima do nível da rua, ganhou uma cobertura metálica, as aulas de educação física com certeza não são mais dentro da sala de aula em dias de chuva. Ando mais um pouco e chego na frente do primeiro portão que dá acesso direto na secretaria, em cima da porta de ferro e vidro o nome ainda continua pintado de um preto desbotado E.E. Marina Cerqueira César. Alguns passos mais e chego no segundo portão, quase posso ver a aglomeração dos alunos para entrar, e nosso falatório... Uma nostalgia invade meu coração. Mas neste momento, tudo é calmaria e silêncio, ouço só minha respiração.

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