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Incendiário, Ray Bradbury construiu distopia atemporal em "Fahrenheit 451"

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Para além do totalitarismo, o controle de informações parte de um desejo da população de se manter alienada

Por Angelica Cigoli Frangella, colaboração para Frentes Versos


Ray Bradbury em foto tirada na Califórnia, em 1997 (Fotografia: Steve Castillo/AP)

Mário Vargas Llosa, em seu livro A verdade das mentiras, explora tudo o que é trazido à tona por uma obra de ficção: são mentiras comprometidas em preencher as lacunas da vida, além de um meio de sermos outros, sem deixar de sermos nós mesmos. Olhando dessa forma, aparentemente a ficção é benéfica aos leitores, ao passo que se reconhecer em um personagem, por exemplo, pode vir a diminuir o sentimento de solidão e incompreensão. Todavia, Llosa prossegue: "Viver a vida que não se vive é fonte de ansiedade, um desajuste com a existência que pode se tornar rebeldia, uma atitude indócil, indisciplina, diante do estabelecido. É compreensível, então, que os regimes que aspiram a controlar totalmente a vida desconfiem das obras de ficção, e que as submetam a censuras."


Apesar de que comumente vemos Fahrenheit 451 ser colocado ao lado de outras distopias, como 1984 e Admirável mundo novo, há um aspecto fundamental que difere a obra de Bradbury das demais: para além do totalitarismo, o controle de informações parte de um desejo da população de se manter alienada. E talvez aqui o que mais assuste os leitores não seja a narrativa dos incêndios, ou a horripilante descrição de Sabujo, o animal-espião-eletrônico que caçava os opositores. O que há de tenebroso não é o enredo, mas a verossimilhança com o atual momento em que vivemos. Ao terminar a leitura, sentimos um aperto no peito acompanhado da certeza de que Bradbury, em 1953, foi extremamente certeiro em suas colocações.


Na realidade de Fahrenheit 451, os bombeiros, como o protagonista Montag têm em mãos uma habilidade contrária a que conhecemos: são eles os responsáveis por incendiar as casas. Tendo como premissa que deveriam proteger a população dos livros, a fim de evitar o sofrimento a quem lesse suas páginas, os bombeiros estão autorizados a atear fogo em residências suspeitas de acolher bibliotecas ou qualquer mísera quantidade de literatura. Assim, proibir os livros é uma forma de, como defendido pela maioria dos cidadãos, afastar-se de incômodos da vida. Em um dos diálogos mais marcantes da narrativa, lemos: "Os negros não gostam de Little Black Sambo. Queime-o. Os brancos não se sentem bem em relação à Cabana do pai Tomás. Queime-o. Alguém escreveu um livro sobre o fumo e o câncer de pulmão? As pessoas que fumam lamentam? Queimemos o livro. [...] Queime tudo, queime tudo. O fogo é luminoso e o fogo é limpo."


É Montag que, após tantos anos conformado com as labaredas, finalmente passará a se questionar: o que há de tão especial nesses livros? Se são tão terríveis, por que ainda haveria quem os tivessem em casa, acabando por se sujeitar ao perigo de ser descoberto pelos bombeiros? Percebe que todos ali viviam entorpecidos, de medicamentos ou de uma realidade falsamente pacífica. A prioridade era permanecerem alheios: se dentro de suas próprias redomas estavam protegidos, então não havia motivo para quebrá-las e, assim, entrar em contato com ares que não fossem aqueles que os poupavam de enxergar o mundo.


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TÍTULO: Fahrenheit 451

AUTOR: Ray Bradbury

EDITORA: Biblioteca Azul

ANO DE EDIÇÃO: 2012







(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da FV)

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