• Giovana Proença

Interminável Agosto - sobre epifanias

\\ ENTRELINHAS

Rostos que se encontram no salão de reminiscências para a valsa. A última dança ao som das malditas músicas na rádio. 

Por Giovana Proença

Foto: Giovana Proença.


Sentar no banco da praça é atividade para dois tipos de pessoas: quem tem uma história ou outra para contar ou os solitários - geralmente os que já se acostumaram ao silêncio do singular. Não sei em qual me encaixo, mas não me esforço em pensar. Não era o dia de saber. Também há tempo para o conhecimento, especialmente o precedido pelo prefixo –auto. 


Limito a acompanhar o valsar das folhas, rastros do inverno, não me recordo se especialmente frio, a percepção se perdeu na repetição dos dias. As árvores não se prendem ao presente, umas refletem o que foi o outono, tempo de queda e despedidas; outras já anunciam a Primavera, a vivacidade do verde em aquarela nos olhos dos poucos passantes que tomam as ruas. Do Inverno propriamente, só os ventos, traços de recordação da estação que teimamos em deixar passar, absortos em passados de perdas e promessas de futuro. 

Se as folhas valsam, os ventos dançam ballet, gracioso rodopiar que foge aos olhos. O frio não me impede de invejar o cachorro que se banha na fonte. O privilégio animal de se purificar em praça pública, ritual quase sacralizado, de algum modo mais espiritual do que a construção barroca da catedral à frente. Como se purificar em meio aos pudores? Onde encontrar a redenção que transpassa os anseios do que poderia ter sido, quantas rotas, quantos planos, quantas conversas abandonadas que fogem à memória? Como era olhar, como era só olhar, imploro para todos os santos, se eu tocasse à água, lembraria?


Na diagonal do banco, a floricultura. Margaridas expostas, radiantes lembranças brancas do porvir. Devo levar margaridas, a constatação atinge súbita. Caminhar com o vaso pelas ruas, pensar para quantos endereços esquecidos entre blocos de anotações e promessas de visitas poderia enviá-las, sinal de presença aguda na ausência crônica. Não, devo apenas caminhar com flores nas mãos, deixá-las em repouso no parapeito da janela, até o despedaçar das pétalas e o inevitável definhar. Aguardo o dia que as olharia sucumbir e memoriaria quando eram apenas sinais brancos - no silêncio das passadas se fecharam, e não mais posso ver. Lembraria como era olhar? Antes o desfecho traçado me faria deixar a floricultura, mas nada me impede de levar os dias contados em mãos. 


A purificação veio no carro estacionada na Zona Azul, em frente à praça. O cachorro se banhava na fonte, eu bebia goles de água mineral, dois vasos de margaridas repousavam aos pés. Canetas coloridas descansavam ao lado do bloquinho – nos últimos tempos os textos tem sido todos em preto. Na rádio, as músicas que por estradas e estradas, evitei. Toadas de memórias amargas que hoje tinham a limpidez da água. Linhas de poemas escritos e rasgados que encontraram destino no canto inacessível das lembranças - agora versos que insistiam em dançar na ponta da língua. Conversas deixadas em suspenso, falas decoradas que fogem arredias do roteiro que me parara em mãos, e não sabia que desempenhava  papel que não era meu. Rostos que se encontram no salão de reminiscências para a valsa. A última dança ao som das malditas músicas na rádio. 


Interminável Agosto: que se arrastasse, que corresse, que durasse o que havia de durar. Como as margaridas, como música na rádio, como as estações. A rajada de vento ganha força, o cair das pétalas do ipê amarelo não deixa de ser queda. Para mim, presente. Cascata de recordação do Inverno. Ainda não Primavera, mas já passou Outono, também sei ser quente, parece anunciar. Apenas uma pétala repousa no para-brisa. O relógio badala na Igreja, sinos tocam, mas para quem? O badalar do ponteiro não me parece triste. A música na rádio, há lugares para quais não podemos voltar? Hora do regresso: sótão de madeira, livros surrados. Repousa na escrivaninha apenas a carta. Não necessitava de roteiros, o endereço não seria problema, 

A carta, enfim, eu a terminaria.


Foto: Giovana Proença.

***


O interminável agosto parece pouco propício para epifanias, sentimentos do instante. Respiro de alívio, compreensão súbita. Revelação que se manifesta ao invadir sem licenças. Um piscar e lá está, atingindo em estupor quem se move na mais lenta rotina, sem grandes pretensões. Mas, repentinamente, vimos. Uma vez vista, não se pode ignorar. Na sacralidade, a epifania está relacionada à aparição divina. Com o tempo, vemos o termo se fundir a iluminação do pensamento, mais um duelo entre mythos e logos. 


James Joyce, pai do Ulisses moderno, desbravador dos monstros que se escondem nas metrópoles, abusa das epifanias. Na coletânea de contos Dublinenses, o recurso é explorado a máxima potência. Eveline, no conto homônimo, um dos mais conhecidos do conjunto, desiste de partir para o prometido futuro luminoso após o vislumbre epifânico. Joyce foi além: breves notas episódicas do autor foram reunidas no volume Epifanias, grande caso de título autoexplicativo. 


O fluxo de consciência de Joyce - também explorado por sua contemporânea inglesa, Virginia Woolf, amplia a potência dos míseros momentos. A autora de Mrs. Dalloway foi mestra das epifanias – suas personagens navegam em mares de profundidade, camadas desveladas ao leitor a partir de momentos de crise, revelações do súbito despertar para o mundo. 


Um cego masca chicletes – em terras brasileiras a epifania adquire contornos definidos dentro da obra lispectoriana. “Amor”, um dos mais notáveis textos de Laços de Família, lança mão do momento epifânico personificado: o cego mascando chicletes é o suficiente para Ana questionar toda estrutura família e social em que se insere. A paixão segundo G.H é a alteridade colocada em xeque – humano e animal travam batalha no ritual epifânico. Tudo por apenas uma barata. 


Outra voz da literatura brasileira, Caio Fernando Abreu tem suas crônicas reunidas no volume Pequenas Epifanias, a prosa do autor ilumina a realidade, um clarão para o que recusamos a vista. 

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

Epifanias: pequenas ou grandes. Sutis ou arrebatadoras, sempre luminosas. Um piscar, e vemos. 

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