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[Resenha] Irradiando sucesso, escritor carioca dá o outro lado da moeda na literatura

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Em sua estreia, Geovani Martins remove a peneira que tampa o Sol de um universo invisibilizado


Por Giovana Proença

(O escritor Geovani Martins, no Rio de Janeiro. Foto/reprodução)

O valor de uma obra pode ser analisado pelo quanto ela revela sobre a sociedade em que se insere. Mais valioso ainda é o livro que traça o panorama de reflexões sincrônicas aos problemas sociais de seu tempo. Em O sol na cabeça, Geovani Martins usa de sentimentos universais em situações e vivências que permeiam o cotidiano da população marginalizada, dando-a voz na literatura, o que vem ganhando força desde a inclusão de obras como Quarto de despejo de Carolina Maria de Jesus e o álbum Sobrevivendo no Inferno do Racionais MC´s na lista de leituras obrigatórias do vestibular da Unicamp.


Nos treze contos que compõem o livro, o leque temático é caracterizado pela variedade; estendida desde aspectos rotineiros — ainda que envolvidos em traços de injustiças — até a intensa guerra fria, que tem como campo de batalha o sol na cabeça dos morros. As drogas são personagens recorrentes nos contos, “Isso é porque o mundo tá drogado, irmão. […] Já te falei, vou falar denovo: uma semana sem drogas e o Rio de Janeiro para […] Vai ficar todo mundo surtando de abstinência. Cocaína, Rivotril, LSD, balinha, crack, maconha, Novalgina, não importa, mano. A droga é o combustível da cidade.”


Outra figura marcante no Sol de Martins, é o ardor da violência que emerge como um ser orgânico e protagonista, delimitando o papel de cada personagem em meio a um mundo desigual. As relações são construídas envoltas por uma mescla de sentimentos: amor, dor, medo, expectativa, anseio, religiosidade; de modo a humanizar e aproximar uma realidade que, quando não invisível, é rebaixada à desumanização.

Os diferentes focos narrativos dos contos permitem o colorido para expor as tramas em sua plenitude, potencializando as ambientações.  A alternância de linguagem com que Geovani Martins trabalha, agregando expressões não típicas do mundo literário, revela um narrador altamente adaptado à realidade; a voz que pretende exprimir. Outro grande acerto do livro são os clímax bem definidos dentro da estrutura dos contos, de modo que a tensão construída é capaz de fazer o leitor prender o fôlego e torcer por um desfecho, na medida do possível, de triunfo para as personagens.


O sol na cabeça vem ganhando força como um livro que, assim como obras de autores renomados da trajetória literária brasileira, expõe a realidade social e seus percalços, característica de um novo realismo brasileiro. Maior ainda é o impacto que tem a voz narrativa de Geovani Martins, a partir do próprio interior da realidade e do trabalho da relação entre indivíduo e local de origem, presente no último conto; nos pensamentos de amor e ódio pelo morro de um narrador obrigado a deixar onde cresceu, com a obstinação resignada de quem não conhece outra forma de existência.


No linguajar popular, o ditado “tapar o sol com a peneira” é usado para apontar uma situação cujos esforços para se resolver (ou ocultar) são ineficazes, de modo que Geovani Martins revela esse Sol e suas queimaduras, exibindo suas marcas. A publicação do livro pela Companhia das Letras poderia atrair um novo público que não se vê representado na literatura convencional, se houvessem medidas que possibilitassem a aquisição frente aos fatores de limitação e gourmetização do mercado editorial e literário.


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TÍTULO: O Sol na Cabeça: Contos

AUTOR: Geovani Martins

EDITORA: Companhia das Letras

ANO: 2018


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