• Matheus Lopes Quirino

Jantando com um vampiro

\\ ENTREVERES

Um marmanjão imediatista, ele chega, de tão pesado, que a repartição dos sentimentos começa a tremer. Com suas enormes botas de couro, pés 49/50, o pânico vem e estremece tudo

Por Matheus Lopes Quirino


Medo. O que seria o medo, se não, uma mera invenção das desocupadas cabeças? Dá-se, antes, claro, ao intuito de esclarecimento: medo não é temor. Temor é algo absolutamente justificável; temor é pressentimento, é perseverar, se precavendo, contra qualquer coisa, por hora, domável. Já o medo difere-se destas condições. A hipótese dele já massacra qualquer selar, como solução, via cavalos indomáveis, selvagens e perigosos. Do medo transformamos uma mera hipótese num circo surreal, malfeito, cinza e cheio de escárnio, com palhaços horrorosos, fazendo de tudo, mas sem sorrir ou dar risada, fora de controle.

O medo é um problema real. Deveria ser tratado como uma doença psiquiátrica. Mas medo também não é depressão, ou mania. O medo é astuto, repousa em cada coração, dormindo, enquanto a cabeça trabalha nas prioridades que andam acordadas, pedalando, suando, para arrancar um abraço, disposição, apetite, vontade de levantar da cama, coisas essenciais do tipo. E o medo, assim sendo, vem de uma divagação, uma hipótese, uma ruminação mental, algo do tipo. Daí, não bem distraído com quaisquer balangandãs, ele toma uma xícara de café expresso, pega seu trem, sobe ao cérebro, entra na “repartição” e, dai, como aquele chefe amargurado e pessimista, hipocondríaco, enfastiado da vida, sudorento, fedido, um canalha desgraçado – paro aqui as indecorosas palavras –, com sua prancheta de paranoias começa a gritar, pular em cima das calças, fazer picuinha, montar o circo todo. Todos dali, dados os atos, ficam putos, não trabalham direito, dá-se o pânico, quando alguém não o cala rapidamente.

Medo também não é pânico. O pânico seria seu assistente provisório, excepcional, um marmanjão imediatista, ele chega, de tão pesado, que a repartição dos sentimentos começa a tremer. Com suas enormes botas de couro, pés 49/50, o pânico vem e estremece tudo. As folhas com os bendizeres rubricados caem no chão, os pingos do afeto do café são derramados, todos ficam apreensivos, sussurrando, como aqueles dois enxeridos enfim subiram? Quem os deixou entrar?

Daquela seara maldita, os ânimos começam a acalorar e, como num avião, cai uma máscara de oxigênio – mas essa é furada –, chama-se apreensão. Ela é uma falsa medida “de que dará tudo certo”, pois, no picadeiro, toca-se a trova do mal. O medo e o pânico já estão ali, gritando e pisando tão forte que todos já não saberão para onde correr.

A apreensão é uma cilada, agravante de tudo de ruim. Falsária maledeta. Alertas, com medo, tremendo, quentes, passando mal. Danou-se, o medo se apoderou da grande repartição. E, mesmo com o circo pegando fogo, com os escabrosos palhaços como figura de realidade, em suas mostrengas risadas, ecoando aos cantos dessa repartição mental, o medo, sobretudo, é uma ideia.

O medo é projetado. Assim como as paranoias e hipocondrias, ele não existe, se não no momento que estamos realmente ferrados, ou que nos colocamos à mercê de sua chegada. Abrimos a porta. E como um educado vampiro, o medo toca, e ele entra a convite. Ao início, no tapete da entrada, ele grunhi algo. Conforme chega, reclama, reclama, reclama – insuportável –, já estamos na companhia do vampiro, ou melhora-se ou talvez não dê mais para piorar. Cruz, agua benta, alhos e bugalhos: não adianta. Afinal, medo é ideia. Vampiros também são. Mas há quem acredite e não os convide para jantar.

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