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Juvenil filosofia

\\ CONTOS


Como Ruivão, Oluazô, Orelha e eu nos deparamos com uma curiosa procissão

Por Wagner Andrade de Almeida, Colaboração para Frente & Versos


Pintura da Sacristia da Igreja de São Francisco de Assis, em Mariana (MG), de Manuel da Costa Ataíde

Essa era a turma, a gangue, o escrete mais perna de pau que existia no bairro. As nossas habilidades futebolísticas variavam entre: o quase regular ao completo sem noção. Éramos os últimos a serem escolhidos para os times das aulas de educação física.


E talvez por isso nossos interesses estavam em outros lugares, preferíamos os jogos de taco ou pião a ouvir futebol no rádio. Bolinha de gude e quadrado a participar das discussões intermináveis sobre qual jogador era o mais fodão.

Acima de tudo, adorávamos brincar nas ruas do bairro, explorar os matos, que para nós eram florestas, e, vez ou outra, roubar mexericas no pomar da dona Júlia ou cana no sítio do seu Mané e que depois, gostosamente, saboreávamos escondidos nas cabanas improvisadas entre as touceiras de bambu.

Nadar no tancão, nome dado ao conjunto de três lagoas que ficavam para os lados do Jaçanã, tinha sabor de filme de suspense, pois se nossos pais descobrissem a aventura poderia nos custar umas boas varadas na bunda. Para alcançá-lo caminhávamos por uma rua de chão batido que serpenteava a base de uma pequena serra. A cada curva uma possibilidade: um vizinho conhecido, um preá atravessando a rua, um lagarto despreocupado tomando o seu banho de sol ou, simplesmente, o vazio ansioso até a próxima curva.

Certo dia, a caminho do tancão, decidimos mudar de rota e subimos a serra para fazer o trajeto por dentro da floresta. À medida que nos embrenhávamos no mato os sons conhecidos do bairro foram dando lugar aos sons dos bicos de lacre e bem-te-vis. Borboletas azuis e amarelas dançavam ao nosso redor, e sem perceber passamos a falar mais baixo como que receosos de ofender aquele lugar.

Continuamos. Passamos por touceiras de bambu muito altos que reclamavam balançando ao vento: clá, clá, clá, clá, mais a frente teias sedosas das aranhas padeiro, cobertas de gotículas de orvalho marcavam a direção. Foi quando nos deparamos com um obstáculo, um círculo de velas pretas e vermelhas ocupava todo o caminho e no centro dele pratos de barro com farofa, tomates, cebolas e galinha. Tudo ladeado de garrafas de cachaça e cerveja.

Eu já estava planejando descer para a rua quando Oluazô, garoto destemido, teve a ideia:

- Poxa, porque não pegamos tudo e levamos para o lanche?

Garotos de onze anos tem uma lógica muito própria.

Eu, pronto para objetar fui interrompido pelo Ruivão que acrescentou:

-Olha, a tia da vizinha da avó do tio da minha mãe disse para ela que existe um método de pegar a comida do santo sem ofender ele. É assim ó: você dá um passo sobre o prato e se for dia de santo de esquerda você agacha e com a mão direita pega o prato e se for dia de santo de direita você faz a mesma coisa só que pega com a mão esquerda. Naquele momento de decisões cruciais o tonto do Orelha só sabia rir, impaciente perguntei;

- Mas Ruivão, hoje é quarta, é dia de santo de direita ou esquerda? - Ah! Não sei, não ouvi essa parte.

Minha paciência estava para explodir quando, Oluazô, garoto descido, falou:

- Vou pegar as comidas.

Eu não compartilhava da iconoclastia do Oluazô, não por medo nem nada, mas preferia manter uma distância respeitosa dessas coisas por uma questão filosófica mesmo. Porém, para não parecer o estraga prazeres, concordei.

Lá foi Oluazô, primeiro, o paço de gigante sobre o prato de farofa, depois, começou a agachar preparando a mão esquerda. Havia decidido que o dia era de direita.

Por instantes tudo parou. Todos frios, olhando Oluazô e eu, congelando, atrás de todos.

No último momento Oluazô troca de mão e pega o prato, nessa hora, um barulho ensurdecedor de galhos se quebrando invade o ambiente e os pratos estouram na nossa frente.

Debandada geral, por estar atrás de todos fui o primeiro a alcançar a rua, Oluazô, garoto atlético, em quatro saltos estava ao meu lado, Ruivão e Orelha rolaram ribanceira abaixo, todos a seu modo expressando aquele sentimento preso no peito em gritos que variavam: manhêêê!, não fui eu manhêêê, esse era o Orelha, merdaaaa, eu sabia! Eu sabia!, esse era eu.

Naquela tarde, após litros de água com a açúcar, de banho tomado, todos estávamos na missa das 6. Ave maria Cheia de graaaça....

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