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Máscaras e anonimatos: impressões acerca de ‘O Escritor Fantasma’

\\ CINEMA

Convoquei-me essa noite pra ver o filme O Escritor Fantasma, de Roman Polanski e divagar sobre minhas questões entre arte e anonimato.

Por Letícia Garcez, colaboração para Frentes Versos


Escritor Fantasma (2010) — Roman Polanski

Convoquei-me essa noite pra ver o filme O Escritor Fantasma, de Roman Polanski e divagar sobre minhas questões entre arte e anonimato.


Quando terminei de ver o filme fiquei em atmosfera de suspense. Neste momento me ocorre sair pra rua pra comprar cigarros. Logo penso estar em uma conspiração estranha envolvendo carros que me seguem e espreitam no semáforo. O escritor fantasma, ator principal do filme, interpretado por Ewan Mcgregor, sente isso desde o começo do filme, a perseguição. Ele entra no enredo como sendo intérprete das memórias do primeiro ministro Adam Lang, que já haviam sido escritas por outro escritor fantasma; escritos póstumos. De alguma forma, quando o primeiro escritor fantasma morre, morre uma das máscaras de Adam, sacada da face por ele mesmo e recolocada após a morte do escritor, onde toda a mentira havia sido encoberta e ele poderia voltar para a segurança de sua antiga máscara.


A máscara que veste o escritor fantasma vivo e ativo era para ser a de Adam, um homem sem crimes, que sorri, que mal conhece, mas, assim como seu antecessor, ele não consegue se convencer daquela encenação advinda da academia de teatro e acaba por vestir a mesma máscara de Mike (o antecessor morto), a máscara de uma espécie de curioso. Porém, essa máscara de detetive cai quando a grande revelação do manuscrito do livro deixado por Mike é revelada. Ali sua máscara de escritor-investigador-romantizador de histórias, já pode cair. O livro está pronto como o contrato pediu e Adam foi morto por um fascista, como o povo americano pedia, devido aos seus crimes de guerra cometidos. Ruth (viúva de Adam) joga o filme todo como intelectual, vítima, manipuladora e, por fim, responsável por tudo que acontecia, o que é revelado no início de cada capítulo do manuscrito de Mike, motivo pelo qual foi morto, supostamente por Ruth. O homem anônimo que escreveu o livro de Adam, vai ao lançamento do livro sem ser convidado e nem mencionado, após isso revela a Ruth que sabe o que houve e assim ele morre sem aparecer em cena. Morre como anônimo que foi o filme todo, sem holofotes.


Dentre muitos detalhes que não podem passar existe a casa. A casa é praticamente um projeto arquitetônico visualmente moderno e por dentro uma galeria de arte com bom gosto e certo exagero. A casa passa a ser em meados do filme como uma personagem que enclausura: é refúgio e ao mesmo tempo é lugar de pânico às demais personagens e a trama que se desenrola.


Outro detalhe: só se servem sanduíches como comida no filme, um lanche de passagem rápida, de quem não fica, não janta, não almoça, só lancha.


Ruth: peça-chave do filme ela é o começo de todo o livro escrito e das próprias memórias conversadas com Adam. Além disso, no momento em que o escritor fantasma revela tudo que sabe a respeito das lanternas na praia na noite do assassinato de seu antecessor, Ruth sai para caminhar e, para meu espanto, lanternas a conduzem pela noite, revelando sua ligação com o assassinato de Mike. Que as lanternas já não eram mais anônimas eu sabia.


São muitos detalhes, não consigo enumerar.


O filme todo foi suspense dialogando com anonimato. Ao fim, ele não deixa de cumprir seu contrato e faz o livro como gostariam que fizesse, mas logo que se entrega, entrega a verdade, retira a “máscara-livro”, ele simplesmente desaparece de cena, é retirada sua vida e o filme termina. Sem o anônimo fingindo vestir a máscara-livro Adam, não existe enredo e o filme não tem sentido.


O primeiro mascarado morre, o segundo mascarado cumpre o papel que seu antecessor não conseguiu cumprir, ainda sim morre.


Há alguma forma de relacionar morte e anonimato? Sim, o anonimato é a morte do ego e no momento em que o escritor fantasma está na vernissage do livro penso: “como ele consegue?”. Assim percebo meu comprometimento com o ego e minha dificuldade de desligar minha pessoa, meu nome, meu ser da minha obra artística e da minha necessidade de aparecer ao lado dessa obra e, de alguma maneira, ser reconhecida.


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(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da FV)

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