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Macondo e outros poemas

\\ POEMÁRIO


Por Marina Rima*, colaboração para Frentes Versos


Pintura Ilustrativa de Macondo, a cidade fictícia de Cem anos de solidão (Imagem: Arquivo / La República).


Macondo



[...] e outra vez as datas se confundiram, os marcos foram trocados, e os dias começaram a se parecer tanto uns com os outros que não se sentia passar.

Gabriel Garcia Márquez, em Cem anos de solidão


meu pais moram numa casa bem antiga

da rua antônio alves

achamos que ela está aqui desde os anos 50, como a casa do

seu gentil e da dona mariquinha

minha mãe não se lembra se a chamava de elefante branco

em 1963 ou depois, quando já estava na faculdade

de fato, é um elefante branco e ruidoso,

talvez um mamute albino, raro, último da sua espécie

meu pai comprou a casa porque gostou do mármore cinza

cobrindo a área da garagem toda

e, no quarto deles, armários enormes até o teto

da madeira mais escura que eu já na vida

é uma casa moderna com uma história barroca


*


a casa tem três caixas-d’água

pequenas, de uns mil litros

e a água vem da rua quando é madrugada

toda noite, ouço a água passar pelo cano,

subindo pela calha, por dentro da parede

como se fossem cem cavalos correndo num pista apertada

há todo tipo de ruído: maquinário, explosão, briga,

tuba, corrente, latido, campainha, pedido de socorro,

urgência

à meia noite se liga o coração da casa

que bombeia o barulho por todos os cômodos


*


moramos aqui desde o fim dos anos 80

eu mesma nasci nessa casa, neste endereço

cresci junto com a árvore de acerola e a parreira de uva

como elas, quebrei o piso para crescer

e provoquei rachaduras

a cozinha, o escritório e o quintal estão bastante prejudicados

minhas irmãs dizem que não vale mais a pena

consertar as rachaduras é que pode derrubar a casa

qualquer reparo pode ser fatal


*


morando há algum tempo em outros endereços

esqueci o quanto isso existia

o quanto é parte de quem aqui vive

o acrílico da escada, o telhado onde a maritaca mora,

aquele cobogó

antes a casa era de outra família, mas minha mãe disse que eles

perderam a casa duas vezes

me pergunto como é possível perder uma casa

você entrega as chaves e vai embora? e depois fica condenado a passar na

frente e tentar entrar por uma fresta da janela?


*


uma vez a filha de uma pessoa que morou aqui, nos anos 60

passou e bateu a campainha

contou várias histórias de antigamente

fez da porta da sala um buraco da minhoca, em que é possível

saltar no espaço-tempo

e lembrou dos armários que sua mãe escolhera

e de mitológicas torneiras banhadas a ouro, no banheiro

entrou no espaço da memória, um lugar em que a prefeitura não pode

cobrar o iptu

em que não há perda ou despejo

um lugar onde não há desgaste

o ouro brilha como nunca


*


uma outra coisa sobre a casa é que ela tem muitos esconderijos

você pode passar horas brincando de esconde-esconde

ou se posicionar estrategicamente numa fresta aberta, aparentemente sem motivo,

e esperar até que alguém passe pra dar um susto

aqui, é possível estar próximo e distante de tudo

encontrar e perder todas as coisas

a casa tem o poder de alienar o mundo

e criar um mundo paralelo, em suas vozes, ruídos,

raízes


*


nos espelhos já embaçados

é possível ver os setenta anos dessa casa,

e também os cinquenta da primeira reforma

nem tudo funciona, nem tudo responde, nem toda porta

abre (como do cofre, do sótão, da caixa d'água subterrânea)

nos acostumamos com isso

mas sabemos que as coisas não são como antes

e caminham pra seu próprio vendaval

(feito Ulisses rumando ao naufrágio)

um dia, como no romance do Gabo, um grande vento passará

varrerá toda solidão sobre a terra


método para chegar a Georges Bataille


o olho não vê a intimidade das coisas

[enquanto isso o pensamento salta]

as ondas arrastam

as malas deslizam

os miolos moles


se eu subisse um degrau

se eu subisse um degrau


nenhum novo modo de atravessar o espelho.

sempre o mesmo método. passar mãos,

passar o tronco, passar as pernas -


nada existe como coisa acabada.


o olho não vê o segredo das coisas.


então, corta e entra na pele debaixo da pele.

encosta o umbigo no umbigo do mundo.

deixa cobrir o mar.


lo que no sé


te encuentro para decirte que estoy enamorada otra vez

¡qué surte! me dirías


pero, ¿que suerte?


nadie sabe


SOS BR




*Marina Rima é poeta e pesquisadora. Escreveu vênus partida ao meio (patuá, 2017), estaca zero & outros desvios de percurso (urutau, 2018) e toda janela é algum tipo de saída (penalux, 2019). Os poemas aqui publicados estarão em seu novo livro: peças avulsas de um jogo de tabuleiro, a sair pela urutau, em 2020. Disponível em pré-venda aqui: benfeitoria.com/coberta

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