• Bruno Pernambuco

Maior escritora viva, Lygia Fagundes Telles é imortal

\\ ESPECIAIS

Fica aqui o desejo que você, leitor, dê uma chance a Lygia Fagundes Telles,e que o encontro de vocês seja vivo, intenso, mas sem pressa nenhuma.

Por Bruno Pernambuco

Imagem/ reprodução


Invenção e memória fazem parte do mesmo fio. Suas fronteiras são tênues ao ponto da invisibilidade; trata-se de uma mera convenção o fato dessas duas palavras não serem a mesma. Esse ensinamento de Lygia Fagundes Telles, contido no título de uma de suas obras, poderia servir de prefácio à biografia de qualquer escritor- de qualquer ser humano, na verdade, mas não fujamos do tema- mas é de especial importância ao se falar sobre a vida e a escrita da própria autora, que faz da mudança de pele sua arte, e captura em cada uma de suas histórias a contradição do acontecido ser também aquilo que não acontece. (Uma retificação: se nesse breve texto se fala apenas a respeito da Lygia contista, não tratando de seus romances, é porque era também necessário escolher um caminho dentro da abundância da invenção, e o autor se sentiu, nesse momento, mais capaz de pôr em palavras um sentimento sincero quanto a essa porção de sua obra).


Não se pode, obviamente, dizer que Lygia seja uma escritora desconhecida, ou mesmo desvalorizada. Pelo contrário, em termos do reconhecimento medido por láureas, tiragens de exemplares ou discussões de sua obra, ela é, sem dúvida, uma das grandes referências da literatura brasileira contemporânea. É, hoje, um dos nomes mais reconhecíveis de nossas letras, e sua vida pessoal e imagem enquanto figura pública se misturam com momentos importantes da história recente do país.

Não, a rebeldia de Lygia Fagundes Telles se dá em outro plano. Apresenta-se quando todo esse barulho em torno da autora, digna de tantos adjetivos e honras, perde sua função de traje de gala para uma cerimônia de imortais (ou de armadura para uma batalha que promete no seu fim a glória) e se torna um convite para olhar de perto sua obra, viva e direta, porém fugidia e indescritível.

A magia da escrita de Lygia Fagundes Telles está em sua simplicidade, no olhar e na astúcia da autora que se tornam vivos em uma linguagem sem a menor pompa. As frases curtas lapidam uma jóia terrena, presente, fácil de admirar mas impossível de imitar. O leitor que passeia por A Estrutura da Bolha de Sabão vive despercebidamente elipses temporais em O Espartilho que cobrem anos da vida da protagonista Ana Luísa, sem nunca soltar a mão da garota; acompanha os pensamentos do personagem principal em Gaby com tanta naturalidade que os deixa ficar a ponto de tornarem-se seus (não deixam de ser, afinal, sua própria invenção.); em A Medalha e no conto-título sente a experiência da passagem de uma gota que ao cumprir sua vida deixa um rastro fundo o suficiente para começar um oceano.


Em Antes do Baile Verde conhecerá a inveja, o desejo, a culpa, a liberdade, mas não os encontrará diretamente, como se visse num museu fragmentos separados da alma humana. Os verá na boca, nos gestos, nas indecisões de gente de verdade. A escrita de Lygia Fagundes Telles é feita de gente de verdade, e é essa gente que abraça, rejeita, ama, desama, conversa com e ignora quem aconteceu de encontrá-la, e nisso convida a viver um outro pedaço de vida.

Fica aqui o desejo que você, leitor, dê uma chance a Lygia Fagundes Telles,e que o encontro de vocês seja vivo, intenso, mas sem pressa nenhuma. E que seja infindavelmente novo, como O Espartilho , conto no qual o momento mais belo é o dia seguinte ao último ponto final do texto.

Recomendações: A Estrutura da Bolha de Sabão; Antes do Baile Verde

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