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No entanto, essa mesma discussão parece ser uma possibilidade de uma ação, como defendeu Paulo Freire, capaz de afetar a realidade de forma concreta ao invés de esperar longínqua transformação futura. 

Por Bruno Pernambuco


Foto: Reprodução

A décima nona edição da Balada Literária de São Paulo teve início com um show realizado na última quarta-feira, dia 4 de setembro, no Sesc Pinheiros. O mote desta apresentação era, além de abrir oficialmente a programação da Balada, servir como uma celebração da vida e obra do homenageado da presente edição, Paulo Freire. No entanto, por mais que o espetáculo tenha reunido artistas importantes e sido tecnicamente bem realizado, nele ficaram evidentes as dificuldades  que circundam o contexto artístico e político em que se dá o evento (além da delicadeza necessária no trato do legado de Freire como educador) e que ficam sem elaboração no resultado final apresentado.


A abertura realizada por Marcelino Freire encapsula parte desses problemas. Nela, ocorre uma defesa efusiva de Paulo Freire, sem que, contudo, o público seja envolvido em algum aspecto real da obra do autor. No show, isso esteve efetivamente refletido na falta de articulação entre as diferentes atrações que o compunham. A seu modo, a apresentação do violeiro homônimo do homenageado, a emocionante interpretação das Pastoras do Rosário e a intervenção musical e cênica elaborada pela Companhia do Tijolo todas buscavam dialogar com a obra de Paulo Freire. No entanto, esses diferentes momentos seguiam de forma desconexa, e sem que se estabelecesse entre eles um diálogo mais concreto. Faltou ao espetáculo a possibilidade de colocá-los (tendo em vista que eram surgidos de inspirações muito diferentes) como contrapontos um em relação ao outro, para que as diferentes visões pudessem enriquecer e ampliar a leitura do autor que unificava aquele projeto. O tema que parece unir as diferentes apresentações (e que foi posto de forma mais direta, literal, e também combativa na apresentação da Companhia do Tijolo) é a valorização dos saberes e vivências locais, e vindos de espaços marginalizados – tema  que, inegavelmente, tem uma relação fecunda com aspectos norteadores da obra de Paulo Freire e suas origens.


Essa celebração, contudo, esbarra em problemas formais da realização do show e da programação da Balada Literária de forma geral. Elementos como o preço do ingresso para algumas das atrações da programação (inclusive o próprio show de abertura no qual a entrada inteira custava R$ 40 e a meia R$ 20) ou o gasto financeiro que está presumido para desfrutar dos espaços que a Balada Literária ocupa acentuam a impressão de que o espetáculo se trata de uma atividade reservada para uma espécie de público cativo, que já possui, diariamente, condição física e econômica de estar presente nesses espaços, e que é pensada para atender os desejos e expectativas desse público. As necessidades, assim, a que o evento tem que se submeter para se apresentar como mercadoria entram, múltiplas vezes, em conflito direto com sua proposta. Os locais ocupados nessa edição da Balada pelas mesas de debate ou pelas festas e happy hours inseridos oficialmente na programação refletem, em seu funcionamento cotidiano, a situação de uma arte e de uma produção cultural que são de consumo (e acesso) restrito. São espaços dos quais quem pode gozar totalmente, aproveitando todas as potencialidades que eles oferecem, é, por conta de barreiras tanto econômicas quanto culturais, uma elite restrita. Os apelos a que a Balada Literária recorre para cativar o público (e, assim, manter sua viabilidade) reproduzem essa mesma lógica que já está posta no cotidiano, em lugar de promover uma apreciação da literatura que não esteja pautada por esses lugares comuns onde acontece uma produção e discussão cultural que é, efetivamente, exclusiva. Essa situação leva, numa perspectiva política, a um discurso completamente auto-centrado, que é também pensado buscando o apreço de um público específico, e que parece permanentemente distanciado de uma perspectiva de ação.


Nesse sentido, parece que a homenagem a Paulo Freire fica reduzida a uma exaltação de sua figura, que, se em alguns momentos expõe  de fato um conteúdo real e um espetáculo orgânico (por exemplo, quando a Companhia do Tijolo dramatiza relatos tirados das experiências de alfabetização promovidas pelo professor),em outros parece vazia, servindo como uma representação genérica de “resistência” sobre a qual se pode colocar qualquer demanda ou posição que se colocasse contra o estado de coisas atual. É muito delicado dizer qual o valor de uma defesa feita dessa forma no contexto atual do Brasil (e tendo em vista a posição em que é colocada a figura do educador), entretanto é certo que uma outra forma de homenagear Paulo Freire seria permitir que sua obra suscitasse uma crítica dessa própria forma a qual estão submetidos a arte e o “acontecimento cultural” (entendida  num recorte nacional, ou mesmo regional), e que a partir disso pudesse ser colocado algo positivado e original, que refletisse uma abertura nova e uma democratização da literatura, ou da arte encenada. Como implementar algo assim? Essa é uma discussão que poderia ocupar muitas e muitas baladas, sem a certeza de se atingir uma solução. No entanto, essa mesma discussão parece ser uma possibilidade de uma ação, como defendeu Paulo Freire, capaz de afetar a realidade de forma concreta ao invés de esperar longínqua transformação futura. 

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