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Marques Rebelo e o Rio de Janeiro

\\ ESPECIAIS

Marques Rebelo integrou a geração do Romance de 30, linha da literatura de denúncia da miséria brasileira

Por Gabriel Collet, Especial para Frente & Versos

Imagem/ reprodução


“Morávamos nós em São Francisco Xavier, perto da estação, numa boa casa de dois pavimentos, jardinzinho com repuxo na frente e fresca varanda do lado onde nascia o sol, se bem que por essa época não andasse ainda meu pai muito certo da sua vida para arrastar, sem alguma dificuldade, o luxo de residência tão ampla e confortável, mas temos que perdoar a ele, entre outras fraquezas, esta da ostentação, já que a perfeição foi negada por Deus à alma das criaturas”.  É assim que Marques Rebelo (pseudônimo de Edi Dias da Cruz), jornalista, contista, cronista, novelista e romancista, começa o conto Caso de Mentira


Carioca, Marques nasceu no Rio de Janeiro em 6 de janeiro de 1907, faleceu na mesma cidade em 26 de agosto de 1973. Embora não seja um autor muito conhecido ou reverenciado na literatura brasileira clássica, Marques é um autor que merece ser lido com carinho e apreciado com grande base literária. 


Além dos livros de ficção da biblioteca de seu pai, aos onze anos ele já tinha lido autores lidos, geralmente, por adultos: Buffon, Flaubert, Balzac e os clássicos portugueses. Aos 15 anos o conhecimento de Machado de Assis e Manuel Antônio de Almeida iria despertar nele a “coceira de escrever” de que nunca mais se libertaria.


Dedicou-se ao jornalismo profissional no mesmo período. Publicou poemas nas revistas modernistas VerdeAntropofagiaLeite Crioulo, entre outras. Escreveu seus primeiros contos por volta de 1927.


Uma de suas grandes obras foi escrita em 1939 – A estrela sobe – romance de uma jovem suburbana que “vence” no rádio, a grande fábrica de ilusões da década de 1930. Marques Rebelo integrou a geração que fez o Romance de 30, inserido na linha da literatura de acusação e de denúncia da miséria brasileira. Foi o romancista do Rio de Janeiro, sobretudo de sua gente simples e humilde. 


Para ele, o Rio era a Zona Norte, de onde vinha o Carnaval e onde ia buscar a maioria dos seus personagens da classe média baixa. O autor escreveu sobre futebol, viagens e sobre Manuel Antônio de Almeida, o primeiro romancista brasileiro a retratar a vida urbana do Rio de Janeiro. Depois de Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis e Lima Barreto, Marques Rebelo foi o mais apaixonado escritor da vida carioca. 


Em 1959, publica O Trapicheiro (minha obra favorita) seguido de mais dois volumes: A mudança (1962) A Guerra está entre nós (1968), que formam o grande e inconcluso romance cíclico O espelho partido, painel fragmentário da vida brasileira, especialmente carioca, na primeira metade do século.


Marques Rebelo possui a delicadeza do olhar, da contextualização do espaço tempo famoso nos anos 60. O escritor sabia levar seu leitor de sua casa para onde estivesse – e sair daquele mundo era muito difícil. O transporte da história é um dos pontos fortes do autor e a delicadeza de enxergar a arte humilde de uma grande obra, em um subúrbio qualquer do Rio.


Indicações do autor: O Trapicheiro, A Estrela sobe, A Guerra está em Nós, A Mudança.


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