• Bruno Pernambuco

[Palco Virtual] Mas, na memória de alguns...

\\ TEATRO

Uma pátria que não é nomeada, e nem tem necessidade de ser, pois, sendo a história precisa de um país, é simultaneamente muitas histórias.

Por Bruno Pernambuco


[No dia 27 de junho de 2020, teve início, no site do Itaú Cultural, o projeto Palco Virtual, que reúne registros em vídeos de encenações de grupos de diferentes regiões do país. Viúvas- Performance Sobre a Ausência, da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, abre a programação adulta, e ficará disponível no link https://www.itaucultural.org.br/viuvas-performance-sobre-ausencia-palco-virtual até o dia 10 de julho.]


Cena de Viúvas- Performance Sobre a Ausência, da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. Foto de Pedro Isaias Lucas.



Uma pátria que não é nomeada, e nem tem necessidade de ser, pois, sendo a história precisa de um país, é simultaneamente muitas histórias. São memórias vivas que atravessam tradições, as mais diferentes origens e a relação dos povos levantados do chão; é a aridez frutífera da terra que não pode ser compreendida pela ciência oficial, nem pela invenção de um novo país que quer cobrir as histórias dessas vidas, e lhes deixar não mais que o nome de um passado arcaico, superado, cuja morte era inevitável.


Ocupando, com Viúvas- uma performance sobre a ausência, a Ilha do Presídio, enclave solitário entre as cidades de Porto Alegre e Guaíba, e as ruínas do velho prédio da revolução farroupilha que serviu, durante a ditadura civil-militar, como centro de detenção administrado pelo DOPS, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz recupera a morte, a tortura e a separação, e fazem delas a sua própria trama. A sensação aterradora de caminhar à noite pelos escombros assombrados, ao mesmo tempo tão próximo da própria alma, tocada pela beleza das encostas rochosas, pelo luar e pelo acalento do fogo que ilumina as festas e histórias encenadas, é sentida mesmo através da tela do computador.


A lua cheia representa para o homem o encontro consigo mesmo e com sua própria masculinidade, o fechamento dos rituais que marcam o final da adolescência que dá espaço a um novo começo. Assim, não é estranho que ela seja, de fato, personagem principal desse Viúvas. Essa lua de fartura, que é celebrada pelas mulheres na sua repetição dos costumes tradicionais, e na preservação de seus conhecimentos e de suas histórias, em relação íntima com a vida, é deixada sem seu par. Viúvas pode- e o faz muito bem, costurando imagens tocantes e cheias de significado- passar, de arroubo em arroubo, da melancolia à ira à desolação; aquilo que é para o espetáculo, impensável, é deixar escoar a memória dessa parte que falta. Isso vem bem a calhar. Fica claro como a resolução sugerida pela autoridade é não admitir a morte- ao retirar a morte, retirar também a vida daqueles que se foram. Deixá-los simplesmente como o que desapareceu, água passada sem lugar nesse novo país que, manda o tempo, mandam os negócios, tem de uma vez que ser feito. Uma outra versão da peça, talvez, contasse a história de como essa outra pátria criou-se e cresceu, na onda de um misto de choque, melancolia e resignação, e essas histórias ficaram relegadas ao porão. Mas em Viúvas o porão é descoberto, e as histórias de fantasma que assombram gente grande têm conclusão. O filho que ainda vive tem o encontro que precisa ter; reconhece a morte do pai, para poder, também, assumir o seu próprio destino.


Quando pouco se vê e pouco se mostra da masculinidade- e de muitas formas dela Viúvas fala indiretamente, no crepúsculo, ao invés de lhe apontar a luz dos holofotes- senão no seu pior, como coisa tóxica e destrutiva, consumida pelo poder e sem humanidade, é sobretudo esse encontro, essa reflexão da luz criadora do fogo no céu noturno, alimentada pela força da tradição e da comunidade e pelo encontro de olhares que é, em última instância, da vida o que importa, que falta. Acho que a lua cheia, também, ajuda a gente a se ver.

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