• Matheus Lopes Quirino

Matadouro a céu aberto

\\ ENTREVERES

Ao máximo nos defendem de certas tacadas da vida, como amparo à alma, florescendo em amor, ódio e demais sensações.

Por Matheus Lopes Quirino


Doeu-me ao ver ali os livros e seus autores à mercê daquele matadouro a céu aberto Dia desses, uma das mais tradicionais livrarias paulistanas anunciou um “queima-total”. Os olhos arregalaram. E o coração, vertiginoso, apertou mediante o susto semântico; o que levou este cronista menor, de antemão, a acabrunhar-se, cético, percebendo tamanha sandice dos anunciantes, publicitários, aqueles pobres diabos. Era uma semana inteira de descontos, a tal “queima”. Posterguei ao quarto dia a ida. Com o intuito de confirmar algumas impressões, fui já preparado para o que lá estivesse a meu aguardo.


Já longe da hipótese de um Farenheit 451, aquele romance primoroso de Ray Bradbury, finalmente cheguei ao quadrante da livraria, entrei. E passei atarantado, de olhos cerrados a todos os cantos, a procura de um bombeiro tirânico ou algo do gênero — talvez um capitão ou um sargento de mau-humor. Seria eu, ali, uma espécie ameaçadora, portanto. De alta periculosidade. Um completo subversivo, pois meu andar rápido e desconfiado, suéter e óculos tartaruga poderiam me confundir com algum escritor — desses bons — e, logo, apreenderiam-me violentamente, lançando-me, assim, às trevas de um camburão.


Logo este, Indefeso, claro, pois as palavras incomodam, mas não ferem à queima roupa. Ao máximo nos defendem de certas tacadas da vida, como amparo à alma, florescendo em amor, ódio e demais sensações. Contudo, tratando-se de queda de braços, literais, não literárias, nunca vi um bom soneto ganhar de uma lampadada. Logo toquei-me que ainda estava em 2018. Faltavam algumas semanas para voltarmos à década de 1970. Volvemos à livraria.


Já corredor da loja, no primeiro piso, livros novíssimos em folha, bonitos e resplandecentes debutavam nas prateleiras. Lançamentos e reedições de ouro. Ingenuamente, esperava dali bons descontos. Erro. Entrei na livraria, todo encapotado, parecendo um pinguim de geladeira. Feliz da vida por abrigar-me no calor do local, joguei-me, com perspicácia, à caixa, logo na entrada, perguntando burramente sobre os livros do saldão — para não repetir a “queima”. Ela mandou-me para aquele lugar. Não às vias de fato, mas pelo menos achei os livros. Era o terceiro andar que sediava o “saldão” ou a “queima”. Separados por editoras, temas e “não critérios” o jeito era escarafunchar sem pudores, modos e delicadezas, imergindo, portanto, em uma busca guiada pelos instintos.


Muitos títulos, embora não estivessem queimados, estavam danificados pelas intempéries do mau tempo que acometia os céus da Bela Vista naquele dia. E, feito arqueólogo, coloquei-me num empenhado trabalho de exercitar o olhar atento e, cuidadosamente, verificar algumas dezenas de títulos que eram molhados pela garoa daquela tarde.


Dicionários de língua estrangeira, livros de motivação sexual, títulos que deram errado — com nomes esquisitíssimos, “O seco prazer de Sarah Jane” (seco?) –, levas antiquíssimas da Penguin Books, amarelados e comidos por traças, a preços de banana, ou algo mais barato. Retirando o plástico preto de algumas caixas, eis que duas boas surpresas saltaram diante de meus olhos. As mãos já estavam acinzentadas pela poeira. Captadas ali aquelas duas joias sobre matéria de crônica, era obrigação moral deste as levar daqueles pingos de chuva bandidos. Capturei-os para debaixo do calor de meu quente casaco.


Mesmo levando três títulos, dentre os milhares que ali eram sepultados pelo tempo, ocorreu-me uma ruim sensação, ao presenciar aquela espécie de matadouro a céu aberto. Era pior do que o imaginado. A queima não era literal, mesmo que cuidado com o livro fosse regra ultrapassada. Em uma livraria, dessas que se dispõem a vender livros novos, é inadmissível encontrar títulos neste estado. Doeu-me ao ver ali livros e seus autores à mercê daquele matadouro a céu aberto.


E começou a garoar mais forte, apressei-me, mesmo em vão, para cobrir aqueles que, mesmo já encharcados, foram marcados com tarjas de 70% de desconto. Certamente os piores e sem jeito. A livraria liquidaria-os de um jeito ou outro. Pois depois daquela chuvarada não haveria com certeza ninguém disposto a levá-los. O saldão terminaria em três dias, e a dúvida sobrepôs-se: depois do caudaloso “saldão”, qual seria o final definitivo de todas aquelas histórias?


Disse-me a mocinha do caixa do terceiro andar, mais simpática do que aquela do começo desta crônica, a “mulher das vias de fato”, que os títulos não vendidos estariam disponível novamente no ano seguinte. Erro crasso jornalístico: esqueci de perguntar há quanto tempo era feito o saldão, para fim de obter o grau de sofrimento e exposição de certos títulos, certamente encalhados ali há décadas!


*


Julgando livros pela capa, desculpo-me com a consciência, no momento em que, ao por em xeque a qualidade de certos títulos, lançaria tanto indiferença quanto solidariedade aos autores destes pobres insucessos que ali jaziam, pois não havia lido nenhum. Eram uns desastres, só pelos títulos cafonas.


Com exceção de um ou outro e, claro, os clássicos disponíveis em pilha especificada “Vestibular”. Esses vendem e em voga estão. Haviam incontáveis versões de “Memórias póstumas de Brás Cubas” ou “A moreninha”, de diferentes editoras, anos, edições, estilos de capa, fonte, incrementadas com prefácios, posfácios, comentários, notas históricas etc. As obras entraram para o domínio público, na Biblioteca Nacional, no entanto é primordial possuir um exemplar destes clássicos, para consulta. Ainda mais se tratando de escritores da patente Machado de Assis. 


Histórias de faroeste e livros de concurso eram retirados das caixas de papelão pelos outros aficionados pelo prazer da leitura, curiosos e capengas pelo final do mês e, pelo menos enquanto lá estive, venderam bem. Nas incontáveis pilhas, além dos títulos desconhecidos, dos ruins e dos clássicos, verdadeiras bizarrias repousavam, ostentando claro fracasso editorial. E lá estava um, curioso, que resistia ao mau tempo: era do político mineiro Aécio Neves, “Quando a política vale a pena”. De dentes branquíssimos e intocáveis, fizesse sol ou trovoada.

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