• André Vieira

[Resenha] Memórias do paraíso de infância

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Talvez o maior trunfo de O Africano seja de tão bem capturar a essência de sentimentos, frustações e memórias.

Por André Vieira


J.M.G. Le Clézio. (The Nobel Foundation. Photo: U. Montan)

As cornetas de cifres, em formato de meia-lua, se escutam à distância; a umidade e o calor da terra ressecada e rachada invadem os lábios secos e ansiosos em meio a oceanos de pradarias verdejantes; o entardecer logo virá, e como ele o retorno de papai e com ele, a volta dos modos rígidos e da higiene precavida, assim como história e história de suas andanças e aventuras; uma terra vive uma inocência que jamais deveria ser usurpada, extirpada ou tolhida; um menino sorri, contente, ao ver seus deuses de barro secarem ao sol, espíritos protetores que o colocam mais próximo de Deus.

Costurado de maneira fluente e agradável, ornada pela sinestesia do jovem infante e pelas lembranças marcantes de infância vivida em Ogoja, pequeno vilarejo isolado próximo às cadeias rochosas de Camarões, o romance autobiográfico do vencedor do Nobel de Literatura, Jean-Marie Gustave Le Clézio transporta, em O Africano, o leitor para o celeiro de seu desenvolvimento antes do retorno à Nice, durante a Segunda Grande Guerra, e o enraizamento sobre solo francês. Em capítulos curtos de escrita objetiva, mas nem por isso menos potente, Le Clézio reconta seus dias em solo africado tanto pela perceptiva afetivas de suas lembranças de infância, quanto através de percepções do seu eu-adulto. É a partir das experiências vividas por seu núcleo familiar (sua mãe, seu pai e sua avó materna) e de suas percepções sentidas na pele, nos lábios e na nuca, que o escritor franco-mauriciano escreve seu curto livro de memórias, como se perguntasse, indagasse quem foram e como foram quando moravam na Nigéria. Essa pergunta se torna tão estimada ao narrador, que por vezes percebemos que conceitos duplos, por vezes míticos como infância-África, natureza-inocência, laços familiares-terra natal se confundem e se entrelaçam numa só narrativa. Mas longe de Le Clézio descambar para lugares-comuns ou misticismos baratos, romantizados pela indústria cultural e, sobretudo, ideal literário sobre o continente africano nos últimos séculos. Ao contrário, o escritor desvela as sutilizas culturais e sociais que ainda reinam naquela terra isolada, assim como o trabalho árduo, quase hercúleo, que alguns membros daquela comunidade que realizam para que ela pudesse se desenvolver. Entre eles está seu estimado pai, médico contratado pela Coroa Real britânica a fim cuidar, atender e socorrer os habitantes daquele vilarejo e das outras centenas de outras tribos e comunidades que estivessem sob sua jurisdição de dezenas de quilômetros. É principalmente sobre a figura de seu pai, que “diário de memórias” de Le Clézio é ilustrado e recheado. Se por um lado, sabemos sobre suas viagens incríveis, com relatos de um apaixonado pela vida munido de ideais altruístas e coletivistas, por outro, é a partir do relator do escritor que descobrimos uma figura paterna autoritária e moralista, descrente com a governança de potências europeias — incluso, a França — e esgotado, moralmente e psicologicamente, pela árdua tarefa encarrega sob seus ombros: ser o único médico para milhares de pessoas. Talvez o maior trunfo de O Africano seja de tão bem capturar a essência de sentimentos, frustações e memórias. Sendo estas criações e percepções puramente humanas, estão submissas a alterações de carácter, ressignificações de valor e importância e, sobretudo, influências de terceiros — pessoas, ambientes, recordações incertas. Assim, Le Clézio demonstra com prosa impecável e linguagem marcante que um momento, uma época e, quiçá, uma vida por mais particular e singular que seja, pode, sim, marcar de maneira semelhante e com símil intensidade a história de todos aqueles que o participaram. Em outra belíssima edição de Cosac & Naify, o livro, que muito bem se encaixaria num exemplar de bolso, infelizmente só pode ser encontrado hoje em sebos ou em algumas livrarias que mantêm as obras em circulação, a despeito do fechamento de um dos maiores selos do mercado editorial. Para aqueles que não se importam em se enfurnar numa leitura de telas, o romance pode ser adquirido no Skoob a partir de R$ 13,75, com direito as belas ilustrações tanto do autor quanto dos organizares da edição. Seja qual for sua escolha, tenha certeza que estará levando para si um livro memorável, que de vez em quando vem nos povoar a mente quando nos prostramos olhando para o nada ou nos percebemos o doce aroma da mata no entardecer.


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TÍTULO: O Africano

AUTOR: Jean-Marie Gustave Le Clézio

EDITORA: Cosac & Naify

ANO DE EDIÇÃO: 2008

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