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Meninas ao mar

\\ CRÔNICAS

Aos cinco anos, ela constrói um castelo. A cada punhado novo de areia, dá tapinhas. A missão é sedimentar a vida e não deixar muitas bolhas para a ilusão.

Por Sibélia Zanon*

"Crianças no mar" (1909), por Joaquin Sorolla Y Bastida.

Aos quatro anos, a menina de blusa listada rosa e verde olha o mar pelas beiradas. O pai cuida de longe, deixa a menina com o mar. É seu momento de se abismar. De sentir-se só diante do grande. De experimentar comunhão. De sentir-se ser.


Aos dois anos, com cabelos curtos enrolados e chupeta na boca, ela veste shorts bufantes cor de rosa. Carrega uma preciosidade nas mãos: um graveto encontrado no seu caminho até a areia. Seu olhar encara os passantes fixamente. O mar sabe o que faz. Os passantes, nem sempre.


Ousada, ela rema em cima de uma pequena prancha. O pai estica os braços para os céus e boceja feliz por a pranchinha estar atolada na areia e não flutuando na onda. A menina rema com os braços no ar e sorri. Prova que a felicidade, aos três anos de idade, não exige condições.


As duas meninas vivem a expectativa. Uma de maria-chiquinha e regata listada, a outra de rabo de cavalo e regata de bolinhas. Unidas pela espera atenta, as duas olham para a mesma direção. Sem palavra, sem dúvida, sem combinado. Quando a onda chega perto, as meninas dão as mãos e pulam. Entrelaçados, os sons da espuma e das risadas tecem uma malha com nome batizado em água salgada: amizade.


Cada vez mais ágil, ela corre. Pés por areias quentes e um picolé roxo nas mãos. Já pela metade: um terço tinha sido comido, a outra parte tinha derretido. Um fio violeta brinca de tatuar o braço enquanto ela vai. Preferia que a vida não dissolvesse tão rápido.


De camiseta e boné amarelos, foge das marolas e rodeia pernas longas. Vez por outra, estica as mãos para cima, em direção às mãos maiores, convidando para a dança. Ousa novas posições que dariam inspiração aos mais experientes iogues. De tão perto que vive do chão, e de tão macia que é a areia, a menina de três anos sente que a vida não permite quedas.


Entre a importância da vitamina D e a radiação UV, a menina veste uma camiseta preta de bolinhas brancas. No rosto, o desenho de guerreiros indígenas tracejado com hipoglós. Aos cinco anos, ela constrói um castelo. A cada punhado novo de areia, dá tapinhas. A missão é sedimentar a vida e não deixar muitas bolhas para a ilusão.


Ao entardecer, a menina de sete anos cochila na areia. Não bastando a cocha da mãe, ela usa ainda uma toalha como travesseiro. Na toalha, Bart, Lisa e Maggie fazem estripulias. Um casaco grande, com estampa de floresta, cobre suas pernas. O dia foi longo e o sonho anda longe.


A avó se apoia no braço da menina alta. Ambas vão entrando de mansinho no mar. A onda começa a molhar a calça da avó. A avó ameaça voltar para a areia. A neta fala meia dúzia de gracinhas e a convence. Ela vai apoiada na verdade da menina e molha mais um pedaço da calça. Depois, um começo da camiseta. As duas dão risada da própria rebeldia. A formalidade, ensopada, vai se diluindo em mar.


*É Jornalista e escritora, também é colunista convidada de Frentes Versos.

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