• Matheus Lopes Quirino

Meu adorável ventilador

\\ CADERNO DE ANOTAÇÕES

São três horas da manhã. O quarto está literalmente revirado, como se um furacão tivesse maratonado em círculo (vicioso) o pequeno quarto

Por Matheus Lopes Quirino


"Insônia" (2015), de Cristina Troufa.

O som do silêncio não é propriamente o silêncio: é o ventilador. Está no quarto, devidamente no chão, virado contorcido para a parede. Está frio. Ele quer rodar. Não pode. Mania de doido, dormir sem barulho do ventilador é um processo penoso. Se não há zumbido do giro compulsório das hélices, toda bobagem cai sob os tímpanos. Maquinações, outras ao caso, diferentes das do ventilador. E, ainda no pé d’ouvido, uma brecha puxa a outra. não demora muito para que surja um pensamento estranho do tipo “Por que não comi aquele churrasco grego que ficava na rua 12 de outubro?”. E porque raios, depois de anos nisso, penso justo agora no churrasco grego, o que me enveredou a esse pensamento gorduroso?


Viro para a esquerda, não dá. Direita, pior ainda. Dou cambalhota, faço estrela, me estico na cama. De repente, o quarto parece uma sauna, arranco a camiseta. É madrugada mas a escuridão está terrivelmente clarificada. Volto a me revirar pela cama. Nada. Janela aberta: e se entrar um morcego aqui, uma coruja? Fecha janela. Mais calor. Céus. Jogo o colchão no chão. Agora vai. Dá um minuto, irrompe a paz do Senhor, os travesseiros posicionados, a colcha com cheirinho de omo. Espaço. Preciso de espaço. Reviro a cama, levanto de prontidão, reorganizo os objetos que estão pelo quarto, agora todos em cima da mesa. 


As lombadas dos livros incomodam. Estão assimétricas. Começo a medi-las com uma régua. Não podem estar tortas… São três horas da manhã. O quarto está literalmente revirado, como se um furacão tivesse maratonado em círculo (vicioso) o pequeno quarto. Um minuto de silêncio: volta tudo. Livros são colocados todos em cima da mesa, roupão, bermudas, meias, vão todos para o cabideiro do banheiro. 


Há algo estranho no quarto. Um estalo. Talvez seja a fechadura. Sua dilatação por causa do calor – se me lembro um pouco de física. Creio que não. Talvez seja um fantasma, um fantasma com uma tocha e espírito de porco ao mexer no trinco da porta. Explicação mais plausível. Resta recorrer ao Senhor? À Bíblia? Levanto novamente, puxo a cadeira e sento para escrever a tal deixa do fantasma. Abro a janela novamente, um frio sem igual surge dos ventos que chegam no 2° andar do predinho…


Desisto de pegar no sono. Penso em aproveitar a madrugada e matar o dia seguinte. Um erro anunciado, prelúdio de cansaço no dia seguinte. Vou até o banheiro escovar os dentes pacientemente, falho, pressiono as cerdas da escova e a boca sangra. Volto para o colchão com gosto de ferro na boca, deito-me, agora, olhando um pequeno risco no chão de madeira. Ele parece se mexer. Estou louco de cansaço, enquanto o ventilador segue estalando firme. 

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