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Mortos, os maiores escritores do gênero policial deixam suas pegadas

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Por Redação Frente & Versos


O escritor Rubem Fonseca em seu escritório (imagem/divulgação)


A triste notícia da morte de Rubem Fonseca, autor de Agosto e Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos chegou como um tiro à queima roupa ontem, 15, vítima de um enfarte fulminante. Sagaz, ácido, combativo, Fonseca tinha pena mundana – talvez por isso fosse tão popular. Seus personagens, jornalistas, detetives, escritores, delegados eram retratos ficcionais de tramas reais repletos de mistério.

Hoje quem dá adeus é Luiz Alfredo Garcia-Roza, psicanalista e escritor. Ao lado de Fonseca, Roza consagrou-se como um dos maiores nomes da literatura policial do Brasil. Teve sua obra traduzida em vários países. Aqui, publicou toda sua ficção pela Companhia das Letras, tendo ingressado na Casa de Luiz Schawarcz pelas mãos de Jorge Zahar, amigo e editor de seus livros de psicanálise.

Rubem Fonseca, mineiro de nascença, firmou-se na capital carioca e foi policial de gabinete na década de 50, experiência que transfigurou em sua literatura. Expôs a realidade obscura que cerca as metrópoles brasileiras, uma face que tenta ocultar-se na cordialidade, revelando a brutalidade e a violência que permeia os núcleos urbanos do país. Garcia-Roza, professor universitário e estreante tardio na publicação de suas obras, traçou similar trajeto ao colocar os holofotes sobre uma Copacabana noir, construindo uma rede de complexos enredos de mistério acerca de assassinatos dignos de Investigação Criminal, série da Netflix sobre crimes que chocaram o Brasil.

A estrutura de Fonseca pode ser traduzida por um de seus mais célebres contos, “Passeio noturno”, que encontro na coletânea Os melhores contos brasileiros de 1973. No referido conto, um homem narra sua pacata rotina em casa após o trabalho, que em seguida de jantar com sua esposa e filhos é marcada por seus passeios de carro durante a noite. Abruptamente, Fonseca nos dá um serial killer que faz do volante sua arma, com simplicidade e brutalidade na escrita, um atropelamento premeditado de uma mulher que caminhava pela rua.


Garcia-Roza em Copacabana, bairro em que se passa maioria de suas obras (Imagem/divulgação)


Trilhando caminhos paralelos a de Conan Doyle e Agatha Christie, Garcia Roza explorou o gênero da literatura policial e de mistério, expressão pouco explorada no conjunto literário brasileiro, dando ao país Espinoza, personagem central de seus livros, correspondente verde e amarelo de Sherlock Holmes e Poirot. Com obras que se passam em Copacabana, o escritor, que também era psicanalista e especialista em Freud, abusa de seu conhecimento da psiquê na construção da interioridade dos peões de seus intrigantes jogos de mistério, suas motivações e suspeitas. A aposta deu resultados, assim como Fonseca, Garcia Roza foi vencedor do Prêmio Jabuti, maior existente em literatura brasileira. É curioso como o apagar dessas duas reluzentes chamas fluminenses – uma de nascença e outra de autocriação, na então capital do País – nos façam pensar em tão iluminados eram nossos dias aos lados delas. Em nossas camas, sofás, poltronas, colos, redes e varadas as cores eram vívidas, o suspense era mortal, o mistério inquietante. Mas, sobretudo a companhia era formidável: de um lado sobre os papéis e tramóias arquitetadas pelo delegado Espinosa e de outro pela esperteza e destreza de comissário Mattos.

No soprar de suas distas chamas, e no apagar de suas cintilantes lanternas, só podemos agradecer pelos momentos de paz e serenidade que vivemos ao seu lado, Luiz e Rubem. A vida lá fora pode esperar, sobretudo no momento que vivemos atualmente, pois hoje reviveremos as histórias que vocês imaginaram com tanta humanidade e carinho.

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