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Não adianta chorar

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O lirismo de Chico Buarque, trilha sonora de amores por décadas a fio não é poupado no sentimentalismo do velho

Por Giovana Proença

Imagem/Divulgação


O controverso Prêmio Jabuti na categoria Livro do Ano de 2010, concedido ao romance Leite Derramado de Chico Buarque de Holanda, publicado pela Companhia das Letras no ano anterior, suscitou polêmicas por parte de outros grupos editoriais e colocou em cheque a qualidade da obra premiada, colocando na balança o status e popularidade já consolidados pelo nome de seu ilustre autor no Brasil.

Sendo o quarto romance de Chico Buarque, “Leite Derramado” bebe em fontes consagradas da tradição literária como a narrativa familiar e memorialista do ancião e as dúvidas quanto ao suposto adultério, trazendo ao compositor dessa teia o desafio de derramar em seu estilo a originalidade capaz de renovar esses temas. Essa era a deixa que o vencedor do Prêmio Camões de 2019 precisava para constituir uma narrativa quase composta por um monólogo que desde o primeiro parágrafo expõe seus grandes motes: a família, a mulher e as posses.

A partir do relato íntimo e familiar de Eulálio, que atravessa gerações, revela-se uma história de decadência que expande para a realidade brasileira, pela demonstração e ironia, grande trunfo do filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda. A falta de linearidade, efeito estilístico adotado na reconstituição da fala do idoso, leva o leitor a encaixar as peças do aparente quebra cabeça que foi a trajetória de Eulálio, com peças turvas e espalhadas, mas que permitem compreender como o herdeiro de fazendas e palacetes terminou sua vida no subúrbio carioca.

Com a família e as posses desvendadas, o grande mistério do livro centra-se no romance de Eulálio com sua única paixão: Matilde, que mesmo não sendo descrita com o ardor de olhos de cigana oblíqua e dissimulada, é capaz de rondar os pensamentos do protagonista por toda sua vida e consequentemente, narrativa.


O lirismo de Chico Buarque, trilha sonora de amores por décadas a fio não é poupado no sentimentalismo do velho, confluindo cada linha do relato de seu percurso para Matilde e as distintas faces de seu destino apresentadas, sendo o verdadeiro perdidos na senilidade ou dor de Eulálio pela perda da mulher amada.

Acima de tudo, Leite Derramado é uma reflexão sobre a memória, “deveras um pandemônio”, originalmente traçada pelo relato de um homem que quer deixar registrado sua linhagem, as posses de outrora e a mulher que rondou seu pensamento por quase um século, da fazenda quase imperial dos primeiros anos até o barraco do fim da vida. Podem até reclamar, mas contra o estilo conjugando ironia e lirismo de Chico Buarque de Holanda, não adianta chorar…

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