• Matheus Lopes Quirino

Não leia este texto

\\ CADERNO DE ANOTAÇÕES

Não leia este texto porque ele não pede leitura. Ele não lhe trará conteúdo algum. Tampouco vai lhe informar sobre qualquer coisa.

Por Matheus Lopes Quirino


Ilustração de Ligia Zilbersztejn.

Você está na primeira linha. Caso insista em permanecer após esta vírgula, peço que pare antes do ponto final. Aviso que não é boa coisa está crônica. Por isso, leitor desregrado, volte ao título deste texto, sempre que chegar ao final de uma frase. Não leia mais, adianto para seu bem. Você continua aqui, talvez eu precise elencar as razões para que este texto não seja lido, muito além do título. Mais do que pedido, que você certamente não acatou, significa que quanto ao autor você nada tem de simpatia, ou companheirismo, ou qualquer coisa sã, passível de pedido. Você continuou. Me odeia?, embora, também, confesso, que possa ter um tanto de amor nessa sua rebeldia.


Vamos às razões. Não leia este texto porque ele não pede leitura. Ele não lhe trará conteúdo algum. Tampouco vai lhe informar sobre qualquer coisa. E antes que eu me esqueça, ele não é sobre o nada. Apenas peço que não leia. Pare imediatamente, repito. Se aqui você procura entretenimento, diversão, com certeza veio ao lugar errado. Este texto tampouco é chato, pois se fosse, cá você não estaria. E você continua a passar os olhos por essas linhas, talvez se pergunte o porquê. Não tem um porquê. Eu avisei.


Neste texto não há nada inédito. Outras tantas páginas dessa revista abrigam conteúdos relevantes, diferente desta. Este texto não é um não texto, - para responder à pergunta dos filósofos. Não sei o que é um não texto. Não sou filósofo, nem poeta. Só insisto que aqui, exatamente aqui, neste parágrafo, você leia em alto e bom tom o título desse texto. Pela enésima vez. Ainda tento lhe convencer. E se você não se dá por dobrado, ainda assim, vou ter que partir para a ofensiva, já que, por bem, você não tira os olhos desta página.

Se você ler mais uma linha deste texto, serei obrigado a mandar a máfia atrás de você. Pode rir, eles provavelmente vão te dar um susto, pois eles leram este texto até o fim e sabem o que acontece. Se ainda sim você, nobre sr. Coragem, persistir neste afã leitor, até o final deste texto espero que você tenha uma diarreia e não o possa concluir. Mas se o lê no banheiro, depois de tantas advertências, só posso desejar que seu celular caia na privada e mergulhe ralo abaixo. E se nada disso aconteceu, torço para que você seja vencido pelo cansaço. Porque não é para ler.

Droga. Já sei. Talvez esteja perdendo. Vou precisar codificar o texto. Escrever através de enigmas. Em línguas estranhas, que não inglês, espanhol, francês, italiano, hebraico, japonês, chinês, ianomâmi. Isso tudo você pode desvendar. Posso partir para uma língua mágica. Um dialeto Celta, sei lá. Mas o importante é que alguns de vocês já tenham desistido até aqui.


Meus argumentos estão minguando, parece que não tenho mais munições verbais para ataca-lo, leitor. Você continua aqui, impávido, atento. O que fiz eu de errado? Não cansam deste texto que não vai a nenhum lugar? Não tem pé, nem cabeça? Vou precisar implorar para que vocês parem?! Fechem os olhos! Vão passear, vão ler bula de remédio, a Piauí, Crime e Castigo, revista de fofoca, legenda de filme pornô. Sei lá, só chispem daqui, pra ontem.

Realmente, eu desisto. Não. Calma lá, ainda tenho a última sacada. A carta mestra. A jogada chave. A surpresa. A incrível artimanha que só eu, apenas eu, a possuo em segredo. E com ela você, leitor teimoso, será vencido de uma vez por todas. Sei que você é durão, vai tentar vencer a todo custo, vai querer seguir até o fim, desregrado, incorrigível. Eis que lanço aqui, finalmente, minha arma secreta que o impedirá de continuar este texto. Ei-la: fim.

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