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Na sobriedade dos lares, a pandemia devolve a sanidade aos loucos

\\ CRÔNICAS  

Estou assustada com o chá de sumiço, essa droga que todo mundo parece estar usando e ainda não sabemos os efeitos colaterais

por Ana Cecília Esquivel*, colaboração para Frente & Versos


A Vênus ao espelho, pintura de Ticiano.

Um momento de lucidez parece acender uma lâmpada incandescente em cima dos cabelos. Poderia causar ali um incêndio, coisa dispensável em tempos de pandemia, mas nos tempos normais também. O que importa, afinal, é a intenção. As drogas acabaram e não tem quem entregar. Até os malucos dos corres estão dentro de casa. Artistas de classe média alta estão entediados, sem poder bolar um. Aos poucos, a névoa que os movia vai sumindo. E é aí que o problema começa.


Nem tudo é tão brilhante ou tão radical. Minha mãe costumava dizer que os gênios, na verdade, eram só uns burrinhos com estrela. Ela dizia sempre para eu recusar a estrela dourada, que a professora mentia. Não estava bom, claro. No início ela também mentia para mim. Não demorou muito para contar. Lembro que peguei minha mãe fumando maconha na sacada do nosso apartamento, de roupão, sentada em uma cadeira de praia, dessas de alumínio pintado de vermelho, tecido sintético... bem, o fato é que ela estava lá, sem soutien.

Os peitos não me espantaram, afinal, cresci rodeada deles. Minha família era naturista. Viviam nus pela casa. As empregadas se assustavam, de início. Umas davam o fora, assim, sem querer se intrometer na loucura daquela casa. Mas ela estava fumando maconha, fazendo topless, sentada em uma cadeira desmontável. Não lembro bem o que li, ainda não sabia ler, mas já sabia que odiava maconha desde cedo.


Mamãe era uma personagem de si mesma. Parece clichê a frase, talvez seja. Lembro quando ela raspou o cabelo, ou quando surtou pensando que uma aranha tinha entrado na sua blusa, perambulando por suas tetas. Jogou uma cristaleira que estava em sua mão pela janela. Toda louca que ela estava. A cristaleira quase matou um homem na rua. Deu o que falar, semanas, mas ficamos bem quietinhas.


Hoje, minha mãe não só está sóbria de drogas. Ela usou quase tudo que um ser humano pode usar. Pelo menos experimentou. Mas gostava mesmo era da verdinha. Só essa ela usava. Tinha medo da Bala, que colocou uma amiga dela numa fria por meses, sequelando-a pelo resto da vida. E um amigo gay dela cheirava e acabou mal também.

Era um fotógrafo brilhante. Fabuloso, bem vestido. Mas em uma dessas vezes que estava no graal, bem ele foi amarrado por um namorado – que estava também – e levou uns tapas bem dados.


Ficou em casa por uma semana, até o cara tomar chá de sumiço. Esse é o da onda, agora. Chá de sumiço. Todo mundo tomou. O Corona fazendo efeito, metendo um gral nas peoples. Meus amigos músicos não estão conseguindo criar sem a verdinha. Mamãe está terrivelmente casmurra, lendo contos bascos do século retrasado. Estou assustada com o chá de sumiço, essa droga que todo mundo parece estar usando e ainda não sabemos os efeitos colaterais, contraindicações e eficácia.

*É tradutora e escritora. Tem textos publicados nas revistas Elle e Balaio

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