• Bruno Pernambuco

[Eróticas] Na Sombra da Lei

\\ CINEMA

A humanidade daqueles meninos só é dada pelo sexo e pelos sonhos do que trará o dinheiro que conseguem com roubos e com tráfico.

Por Bruno Pernambuco


[Para celebrar o lançamento da edição de outono, e também para divulgar serviços que, devido à quarentena do vírus COVID-19, abrem seus acessos, Frente&Versos buscou, no catálogo destes arquivos, obras que conversem com nosso tema, e que, valendo a pena ser vistas, possam trazer para o distanciamento mais um pouco de poesia, arte e reflexão.


Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Hector Babenco, está disponível no streaming Spcine Play (https://www.spcineplay.com.br/), que fica com acesso gratuito até o dia 30 de abril.

AVISO: A crítica contém spoilers. Fica o convite para que x leitxr, antes de devorar o texto, abra espaço, também, para o filme que o inspirou.]


Cena "Pixote, a Lei do Mais Fraco", de Hector Bebeco


Pixote, a Lei do Mais Fraco, se inicia com uma ruptura, um momento em que o filme acusa sua própria metalinguagem, veste-se qual um documentário. Mas aqui. como nos clássicos do neo-realismo, a realidade é também o lirismo que dela foge, e o filme é uma contradição, fazendo nascer a lírica e a emoção sem furtar-se a mostrar qualquer detalhe da realidade que há muito tempo já extinguiu com os dois, onde é quase bárbaro enxergar sentimentalidade. É uma traição escrever sobre Pixote pois a linguagem, ao tentar pôr o que é visto nos termos de uma realidade que é do autor, é incapaz de descrever a violência do soco. Babenco, aqui no início de sua carreira, é um boxeador perfeito que mais que nocautear seu desafiante, o público, sabe brincar com ele, deixando-o extasiado, subjugado e sem ar.



É quase impossível falar de Pixote buscando no filme o ponto de vista de uma infância. Infância presume tudo que não existe naquele mundo- a segurança quanto a si e quanto aos outros, a identificação que traz cuidado, e a presença de adultos que criam com base em uma tradição; a perspectiva de um conjunto de leis e de costumes aos quais se adaptar, perspectiva de algo em que se transformar. A sexualidade aparece como a única luz de algo real na vida já completamente desumanizada e indigna, e ela se apresenta como alívio, grito de todo aquele castigo aguentado, nas relações entre Dito e Lilica; como fascínio, nas revistas e imagens eróticas que dispersas chegam aos meninos; como meio para a ação mais cruel, no estupro que Pixote testemunha em seu primeiro dia no reformatório. A humanidade daqueles meninos só é dada pelo sexo e pelos sonhos do que trará o dinheiro que conseguem com roubos e com tráfico. É nisso que eles falam conosco e que nos conquistam em sua sinceridade que é absoluta, mesmo que essa sinceridade signifique que nenhum de nós estaria seguro junto à gangue de Lilica, Dito, Chico e Pixote, e que, não entendendo a experiência deles (leitores, muito provavelmente, escritor com certeza), não seja possível sequer compreender o sentido dela: que a única amizade que persiste é entre quem passou junto por aquele inferno.


Quando o grupo se desloca de São Paulo para o Rio, o filme abandona sua estrutura episódica e parte para uma ação contínua, e a maravilhosa, comovente, cena final não só dá unidade para essa mudança, mas também amarra todo o sentido da história que foi contada. Esse momento da desolação, em que Pixote e Sueli estão sozinhos, partidos amigos, amores e esperanças falsas que sumiram no caminho das balas do filme, faz eclodir violentamente tudo aquilo que esteve subterrâneo. A consciência ataca Pixote impetuosa, e ele busca nesse momento o começo de sua própria humanidade. Essa fotografia, por si, já é tão triste, marca de tudo aquilo que vimos passar com os dois, e marca também de seu próprio absurdo, do ridículo ansioso e perturbador que é esperar que uma imagem como essa permaneça quando tudo no filme que parecia certo ou duradouro foi destruído, invertido, abandonado. Ainda assim é isso que é negado a Pixote, e a imagem duradoura do filme é a última, que pouco a pouco esvai-se, a dar num futuro que, asfixiadamente, não diz nada mais que a repetição já vivida?



É possível amar tão intensamente Pixote sem ilusões? Sem esperar de seus personagens algo que eles não podem entregar, sabendo que a própria segurança os quer de volta trancados no reformatório, antes sub-humanos que roubando e sonhando? Sem ilusões quanto a si próprio, sabendo que diante deles eu chamaria a polícia- e sabendo o que significa chamar a polícia, como significou o assassinato de Fernando Ramos da Silva, intérprete do personagem-título, sete anos após a estreia do filme? Pixote nunca foi, ainda bem, um filme de respostas definitivas.


(Imagem divulgação: Cartaz "Pixote, a Lei do Mais Fraco", de Hector Bebeco)

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