• Giovana Proença

Nada ficou no lugar

\\ CONTOS

E soube, no silêncio que vertia-se a ausência das frases que morreram em algum canto desconhecido, que nunca mais o veria, era tão claro como poderia afirmar que o fusca era branco.

Por Giovana Proença


"La Despedida" (1958), Remedios Varos

Do centro da sala, girou sutilmente a cabeça, abrindo o olhar. A luz que chegava oblíqua pela janela refletia no lustre, formando estranha geometria na parede, onde encostado estava o criado mogno, a vitrola repousada acima. Aspirava cada detalhe como se fosse ela própria que estivesse prestes a deixar a casa.

-Pegou tudo que precisava?

-Acho que peguei sim. - respondeu sem nem verificar a mala surrada que levava na mão, muito menos encará-la.

-Ah- foi tudo que deixou escapar enquanto, nervosa colocava uma mecha dos cabelos loiros atrás das orelhas. Olhe novamente, era tudo que queria saber pedir, veja se não está deixando nada para trás. Mas em vão, o seguiu pelos ladrilhos que sucediam a porta, que ele deixara entreaberta ao esquivar-se para fora. Um, dois, três, doze. Contou-os todos ouvindo o som ritmado dos sapatos de bico fino que ele usava. Parecia até que estava indo a alguma festa,prestes a cruzar a igreja rumo ao matrimônio.

E lá estava ele: o fusca branco. Lembrava-se de tê-lo visto na rua um dia, tão diferente dos outros carros estacionados em linha. O moço dentro, procurando alguma coisa. Passara por ele e sentira o olhar queimar-lhe a silhueta, corou. Diminuíra os passos, e assim foi, dia a dia, ela caminhando pela rua, ele no fusca branco procurando alguma coisa, o olhar, faces coradas, até que ele quebrou a rotina dizendo oi. O “oi” levou ao tudo bem, o “tudo bem?” a qual o seu nome, o “qual o seu nome?” a “da onde você é?” “Essa cidade acaba com a gente, não é mesmo?” As palavras escorreram e levaram a uma carona, o destino foi os lábios e aconteceu o beijo. Os pés dela sem as sandálias repousando no para-brisa, as unhas cada uma pintada de uma cor enquanto desciam a serra. Os pés granulados de quando voltavam da praia, salpicando o carpete do fusca branco. Os bancos de trás do fusca branco.

-Certeza que não quer mesmo a vitrola? - reprimiu o impulso de abrir a porta do carro de onde tantas vezes fora carona.

-Melhor não, eu não sei onde é que eu vou ficar, o que vou fazer com uma vitrola?

“O que é que você vai fazer com todos os discos que levou?” suprimiu a pergunta. Secos & Molhados, Paralamas, Cazuza, nem mesmo a Madonna foi poupada. De que serviria uma vitrola sem discos? Imaginou a si mesma, girando ao som do silêncio e o ruído da correia, o corpo tombando ao estupor da tontura, e a sala girava, girava. Nada ficou no lugar, e ela ria. Ele, sério, encostou no carro, e deu-lhe um último presente, o olhar dos que já se foram.


Ela repousou a mão no muro, que ele mesmo construíra. Todo final de semana, durante o outono, tijolo pós tijolo, enquanto os ipês se desfaziam, as ruas pintadas de pétalas amarelas - Não há nenhum outro lugar em que eu queira mais morar, ele havia dito.

Ela contava os tijolos como quem conta a quantidade de vezes que já sentira a falta do homem que se encontrava a sua frente em pele, osso, sapato de bico fino e fusca branco, com os dezenas de discos que ouviram em centenas de noites, esquecidos em algum lugar do banco de trás. Contou a quantidade de vezes que o olhar altivo dele o traiu ao piscar, como quem conta as noites em que já sabia que não poderia ligar para pedir que ele a buscasse, sentasse no sofá que ela escolhera na magazine, lesse o jornal na mesa do café repleta dos farelos de pão e manchas de vinho do jantar da noite anterior. O desmoronamento da intimidade implode no vácuo e não se pode ouvir, como num piscar, quando simplesmente não se pode mais, quando o sentido ruiu e tudo que resta é olhar um para o outro como quem passou despercebido, sem trilha sonora.

-Então a gente fica assim, a gente se liga quando sei lá, a gente sentir falta um do outro- era típico dele, o metódico, falar de sentir saudades como quem marca horas. Vou sentir sua falta as oito horas de uma quarta-feira, mas não as três de quinta, porque vou ter relatório importantíssimo para entregar no escritório - ele encheria a boca para dizer, com superlativo e tudo.

-A gente se liga. - Não tinha certeza se ele ao menos teria um telefone seja lá para onde estava indo. Restava confiar que os oito dígitos ainda vagassem em algum lugar em que ela permanecia intacta na cabeça dele. Sussurrou o número aos pés do ouvido quando ele a levara para casa pela primeira vez, preocupando-se ao ver que ele não anotara.

-Sou amaldiçoado pela boa memória, nunca esqueço nada.

Remexeu nervosamente os dedos, enquanto o viu entrar no fusca, incomodando-se com a ausência no anelar. Ele abriu a janela e disse as despedidas. “Então, até”. Agora que está indo embora, que entrou no carro, que está com as mãos no volante, quis pedir: “Me diga, se não posso te ligar quando sentir sua falta, devo só sentar no sofá e sentir seu cheiro pela sala, até que se torne cada vez mais distante e eu tenha que sentar na cadeira em que te via trabalhar por horas, a camisa social dobrada nas mangas, o relógio riscado no pulso esquerdo, levanta o olhar para mim, sorri, ‘estou farto de documentos, vamos para o quarto, lá a gente se entende melhor’”. Mas perdendo-se na memória, apostou no peso da mudez entalada na garganta.

Ela sabia que ele ligaria, primeiro todo dia, e reclamaria do novo trabalho, do sentimento de fracasso e da locatária que não gostava de música após as dez. Ela do vazio, de andar as ruas como quem levava o peso da incerteza. E ela não diria que os amigos perguntavam dele, que o senhor da padaria perguntava dele, que o gato dela parecia perguntar dele, que na igreja tiveram que disfarçar da surpresa quando ela anunciou que deviam cancelar, por ora, quem sabe daqui um tempo. Ela deligaria com medo que ele percebesse a voz embargada, e desmontaria no sofá. Ele teria insônia, e reviraria a cama por toda madrugada questionando se fez a coisa certa. O contato passaria a ser semanal, esperado, confessariam saudade e ele juraria buscá-la e ela acharia ter quase certeza que desejava ir. Desligariam o telefone com um aroma de esperança e se convenceriam a acreditar que estava tudo certo, em breve estariam juntos vendo o crepúsculo no Arpoador.

Entretanto, nada se alteraria e quando o contato fosse por fim cada vez mais esparso, ela teria dúvidas sobre atender e ele sobre ligar, afinal já passava as noites com outro alguém. Até que um dia, como qualquer um dos outros que começara com uma xícara de café, ela liga e anuncia que está vendendo a casa, grande demais para uma mulher só; ele demorou a atender, desfazendo a mudança para um apartamento maior, com a qual se ocupara toda a semana. Em uma tarde de estações passadas, de tempos que já trocara a xícara de café pelo chá, uma amiga questiona se ela já sabia das novas dele. Ou melhor, das bodas.

Ele girou a chave, tirando-a de devaneios distantes sobre suas perspectivas, e sorriu um traço tão fraco que fosse a insistência dela de não piscar, não teria captado, o que estaria ele ouvindo, se para ela tocava só o silêncio. Pisou no acelerador e deu a primeira marcha, depois a segunda e ganhou a rua. Ela só ficou ali observando o fusca sumir e os contornos converter-se em um borrão, desses que não se sabe se é de ótica ou de lágrimas. E soube, no silêncio que vertia-se a ausência das frases que morreram em algum canto desconhecido, que nunca mais o veria, era tão claro como poderia afirmar que o fusca era branco.

Quando cansou de olhar a rua, entrou na casa pela porta esquecida entreaberta, fechando-a atrás de si. Carregando o peso de todas as ausências, quis mais ver do que ouvir o silêncio que se pode tocar, encaminhando-se para o instrumento esquecido no criado mogno. Encontrou porém, o vingador golpe de misericórdia na figura de um disco esquecido. Ávida, colocou-o na vitrola como quem pretende escutar palavra não dita. Teve ainda tempo de dar um suspiro fundo, de quem prende o sopro como quem agarra a última esperança, antes do disco rodar o primeiro giro, preenchendo o vazio: entre por essa porta agora e diga que me adora.

©2019 por Frente & Versos. Criado com Wix.com