• Tomás Fiore Negreiros

No privilégio da indiferença

\\ CRÔNICAS

Quase meia hora depois ouvindo “a culpa é dos políticos que não dão exemplo” (em looping infinito), finalmente cheguei ao caixa com o meu carrinho de compras. Naquelas alturas, o aucou-e-géuu já estava ressecado de tanto usar a minha mão.

Por Tomás Fiore Negreiros


Homem caminha acima da pintura mural do grafiteiro Marcos Costa (Spraycabuloso) na favela do Solar do Unhão. Foto: Antonello Veneri / AFP.

Já não distinguia mais o que era o rock noventista que emanava dos meus fones e o que era reclamação do sujeito bombadinho que esperava atrás de mim na fila. Nem mesmo a coceira e o incômodo que a máscara deixava em meu rosto parecia importar muito. Apenas queria seguir o protocolo PPP e me ver longe daquele lugar. Nunca alguém havia desejado tanto o distanciamento social.


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No começo daquela manhã a ordem veio transvestida de pedido, quase que um favor. “Tô com muita coisa de homieóficie pra fazê hoje! Será que cê’ pode ir no mercado por mim?”. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. No meu caso, meu juízo anda de braços dados com a minha situação caseira de ser desempregado, desatarefado, desassalariado, desinteressado, destemperado e desqualificado. “Se ele se perder no caminho, o ônus não será tão grande” liam-se entrelinhas.


Há alguns meses tal evento poderia se tratar de uma tarefa hercúlea para um Milenium como eu, porém algo factível. Mas, com certeza, não consiste na mesma missão suicida que significa ir no mercado atualmente (tenho uma má notícia caso você não tenha entendido o motivo). Novamente, manda quem pode, obedece quem tem juízo: o perigo da missão ainda era menor que a instabilidade da zona de alta convivência familiar. “Ahhh posso …. depois cê’ me passa a lista”.

Escrita em diferentes letras, cores, idiomas e alfabetos, a lista quilométrica ocupou metade da folha de um caderno de anotações; o qual eu coloquei no bolso traseiro do bermudão preto, herança póstuma da vida pré-matrimonial do meu primo. Compondo o restante de meu traje de guerra, vesti uma camiseta rota, que já estava em tempos de fazer as vezes de pano de chão. Além disso, imprescindível sair de casa desmunido de meu tubo recém-carregado de alqui-imgel e uma das poucas máscaras de polipropileno que restavam em casa. Estava pronto.


Discussões armamentistas, preparativos familiares. Deixei o domicílio ocupando, volante em mãos pensativo, mirabulando meu plano de ação: começo pelas moscas da quitanda ou o frio dos congelados já erradicou o vírus por aquelas regiões? Bezunto a mão de auquemgel antes de pegar a alface? Talvez o organismo evite o yakult por causa dos lactobacilos...isso me pouparia tempo. Será que rola um cafézinho no meio do trajeto?

Logo na entrada do estacionamento do mercado, notei que as catracas estavam abertas para a ida e vinda dos que desejassem. Ponto duplo para o estabelecimento: poupou-me de alongamentos contorcionistas desnecessários e, principalmente, de uma longa e enfadonha crítica sobre as barreiras impostas pelo Capetalismo e suas lógicas perversas de exclusão (fica para uma próxima).


Estacionei a nave. Sacolas separadas, tubo de alcugel empunhado, lista de compras abarrotada no bolso, fone de-nos ouvidos, podcast de amenidades engatilhado na plataforma. A minha figura romantizada do cavaleiro pós-moderno estava pronta para enfrentar sua empreitada.


“O senhor quer que higienize?” Perguntou-me a atendente de supetão. Senhoreu?! Trajando máscara e avental branco, a moça esticava seu dedo enluvado para o aglomerado de carrinhos metálicos. Taca alquimgel néça porra! Bastou um puf da vaselina alcoólica no pano roto (calculo que já tivesse se esfregado em todos os carrinhos da fila, pelo menos umas 3 vezes), que o meu alazão prateado já estava “higienizado”. Agora sim eu pego o corona! Quer dizer...não.

Optei por iniciar o trajeto pelo corredor de materiais de limpeza. Menos por alguma lógica autoficcional e mais pela ironia que seria entrar em contato com o vírus sob o testemunho de tantos sabões de coco, detergentes e desinfetantes. Só não me sentia mais seguro porque não tinha aucogéu - esse parecia mais difícil de encontrar do que a figurinha brilhante da seleção masculina da Estônia em álbum de copa do mundo.


De qualquer forma, era notável com havia todo um código moral intracorredores: não fique próximo dos outros, não encoste nos outros, não tussa nos outros, não espirre nos outros, não olhe para os outros, se tiver alguma dúvida sobre algum produto, melhor sair sem ele do que perguntar ao atendente ... Basicamente, esqueça de toda e qualquer presença humana que possa coexistir com você naquele espaço público. Era o famoso PPP: Pegue, Pague, Parta.


Não que as tradições locais me desagradassem de algum modo. De modo algum, na verdade. Tal qual aquela terça, encontrava-me em estado de espírito digno da data; isto é, sórdido, amargo e sóbrio. Será que passar no corredor de bebidas poderia resolver isso? Hmmm, melhor deixar para uma próxima. Naquelas circunstâncias fazia de tudo para que pudesse deixar o estabelecimento o quão antes possível, retornando à minha agitada rotina de netflix e reclamações; onde não precisaria filosofar se o amaciante com extrato de camomila seria melhor para as minhas cuecas do que o extramacio...


Mais do que nunca, estava focado em minha missão. Teria de fazer o necessário para cumprir para com os meus objetivos. Dava passadas firmes e ávidas por entre fileiras de latas achocolatadas e bandejas raladas de boi sangrando. Para além da verdade, fiz com que aquele carrinho se sentisse em plena faixa da esquerda da Raposo Tavares em tempos de distanciamento social. Ou melhor, quando o distanciamento era realmente entendido como tal, e as pessoas ficavam em casa.


Em completa dissonância com o ritmo da minha alçada pelos corredores, escutava em meus ouvidos a análises conjunturais e previsões, completamente desprovidas de qualquer base e tão aleatórias quanto as últimas do Ronaldinho no Paraguai.


Ao fundo, longe e abafado por meu devaneio, podia ouvir resquícios da atmosfera acústica à lá Antena Um que compunha o pacote experiencial oferecido por aquele mercado: as caixas de som anunciavam de um modo empolgado e feliz - ela não tá sabendo que tá’ rolando uma pandemia? - descontos nos produtos de hortifruti. Não demorou para que Lana Del Rey - essa sim, empoderada de uma voz que compreende desde lamentações decorrentes de crises existenciais, até os gemidos da terra diante do apocalipse - retornasse a discorrer, do modo blasé e melodramático que só ela sabe, sobre as tristezas do verão.


Por mais que estivesse com um bom desempenho em minha empreitada autoficcional, houve uma diminuição significativa do meu ímpeto conforme passava pela terceira vez no mesmo corredor procurando por bisnaguinhas. Não bastasse a falta de incentivos, meu foco já estava dividido entre os suprimentos para o desjejum e o carnaval cirúrgico que tomava forma nas geladeiras do mercado.


Eram máscaras caseiras, médicas, brancas, coloridas, de TNT, de pano... tinha até gente que, no calor do momento, puxava a gola da camisa à altura da boca, na tentativa de entrar na dança com sua bolha higienizada precária. O corona promoveu um segundo carnaval no primeiro semestre de 2020; mas isso a Globo não mostra.


Por mais que o bloquinho fora de época tenha me animado um pouco - até rolaram uns olhares com uma moça morena de máscara estilizada com imagens do Snoppy - não podia esquecer do real motivo de estar ali. Não era possível que, depois de inúmeras esplechadas de aukigéu nas mãos, dos desvios de rota evitantes de corredores recém-espirrados, da interminável e épica busca por produtos básicos de limpeza, fosse perder a minha missão de foco. Só faltava passar no caixa por dar a minha tarefa como consumada.


Ansioso pelo desfecho da minha saga, atravessei a passos firmes as gôndolas com enlatados em direção a entrada do mercado. Mas logo percebi que ainda me restava um último obstáculo a ser enfrentado: a enorme fila decorrente da desproporcionalidade entre o número de caixas abertas e a quantidade de carrinhos a serem avaliados monetariamente.


Tomei meu lugar na gigante serpente de carrinhos metálicos e, em pleno ato de deserção, deixei que meu espírito abandonasse meu corpo ali postado. Não mais ouvindo o enfadonho podcast - fiquei tanto tempo focando no flerte com a morena, que nem prestei atenção nas conclusões finais e finalizações - coloquei uma playlist de rock alternativo anos 90/00. Transportei-me para minha época da escola, quando o legal era ficar no intervalo nos cantos do pátio enquanto ouvia Interpol. Parece que algumas coisas não mudam nunca.


Deixei-me ser submergido pelas lembranças nostálgicas e o vocal rouco de Paul Banks por alguns minutos, até ser despertado por uma confirmação de hipótese propiciada por meus queridos compatriotas de bairro: morador de região nobre acha que não nasceu pra pegar fila, e se pega, chia até a próxima encarnação.

Podia aumentar o quanto quisesse o refrão de “Slow Hands”. Era impossível deixar de ouvir no canto da orelha marmanjo xingando o atendente, a dona problematizando que nas Europa’ dela não é assim, a senhora (que devia ta em casa!!!) falando que “é um absurdo ráppy ter caixa especial. Por que só eles têm esse privilégio? Até parece que são melhores que a gente”.


Já não distinguia mais o que era o rock noventista que emanava dos meus fones e o que era reclamação do sujeito bombadinho que esperava atrás de mim na fila. Nem mesmo a coceira e o incômodo que a máscara deixava em meu rosto parecia importar muito. Apenas queria seguir o protocolo PPP e me ver longe daquele lugar. Nunca alguém havia desejado tanto o distanciamento social.


Quase meia hora depois ouvindo “a culpa é dos políticos que não dão exemplo” (em looping infinito), finalmente cheguei ao caixa com o meu carrinho de compras. Naquelas alturas, o aucou-e-géuu já estava ressecado de tanto usar a minha mão. Mesmo a possibilidade do vírus estar, ou não, em alguma das embalagens dos produtos era digno de indiferença.


Olhei para o caixa e percebi sua feição cansada, seu semblante pesado, levantando peso pela nuca. Uma faísca de empatia se acendia ali: estávamos os dois de saco cheio.


Estávamos?


Ele olhava para a fila que crescia por um dos corredores com a mesma expressão que eu encarava aquele carrinho cheio que deveria levar até o carro.


A mesma?


Os dedos ressecados, tão marcados quanto os meus, passavam os produtos pelo leitor com toda automatização que se exigia de um trabalho mecânico como a função exercida.


Tão quanto?


Silenciosamente, deixávamos ser tocados pelas reclamações do todo dia e falas “pré-prontas” que planavam pelos corredores. Não precisamos falar sobre, éramos cúmplices desdenhosos.


Éramos?


A tela do caixa anunciou o valor a ser pago.Trezentos e trinta e três e trinta e três centavos. Inseri o cartão na máquina, digitei a senha, retirei o cartão, “não precisa da minha”. Assim como eu, passou ao cu e no céu nas mãos depois que fechou o caixa.


Será?


Não sei.


Agradeci sem jeito e fui embora.


Pensando que quando chegasse em casa, teria de tomar um banho para me desinfetar.


Agi errado?


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