• Matheus Lopes Quirino

No rastro da borboleta caramelo

\\ ENTREVERES

Quando a surpresa brotou de um vasinho feio de mercado: eram as borboletas

Por Matheus Lopes Quirino


Justo eu, escriba das coisas pequenas, sempre atrás das miudezas, deparei-me rente à vastidão de certa “coisa”, que espalhou rama em um vasinho, desses de mercado ou feira: um vaso de flores amarelas, abrindo ainda os botões dianteiros. E, sem dúvida alguma, o surrupiei da prateleira do supermercado. Furtando-o furtivamente, pois minhas moedas não pagariam nem uma pétala que fosse.


Flores amarelas. Arranjo delicado, abriu-se um botão, o odor subiu e queimou as narinas – como poderia, planta tão esguia? Coloquei-a no bolso, quase confundiu-se com alguns versos de ontem, enquanto chovia incerteza, mas o sorriso se abriu por trás de uma nuvem, ao lado do sol. Abri um guarda-chuvas, segui caminhando pela margem do rio o caminho da minha rua.


Ao chegar em casa, retirando o plástico do vaso cuidadosamente para não estremecer a estrutura do arranjo de pequenas flores, de dentro dele – para minha surpresa – saiu voando uma borboleta caramelo! Em piruetas pela cozinha, despejando açúcar por cima das prateleiras. Bárbara! Me cheirava boa companhia, emergindo daquelas nesgas, entre pequenas flores abertas, botões semifechados e folhas de diferentes verdes.

Remexendo o arranjo, familiaridades: dali em diante surgiram outras borboletas coloridas, de toda paleta do arco-íris. Espantava-me ao ponto de fechar os olhos fortemente e jogar água gelada da torneira do tanque no rosto todo, repetindo “Estou acordado, estou acordado”. E estava. Retirava o plástico do vasinho delicadamente e, ao que me parecia, as flores abriam mais e mais, as borboletas saiam, o cheiro, inexplicavelmente, ficava mais suave. Um Eau de Toilette, perfume de calêndula, sabonete Salomé.


Minha cozinha logo estava infestada de borboletas coloridas. Voando e se debatendo, trombando umas com as outras. Duelando pelo amor alheio, enciumadas, candentes, vívidas, fossem quais fossem os sexos das borboletas. Soltavam tinta e, aos poucos, os moveis iam sendo pintados por pequenos pontos azuis, amarelos, rosa choque, limão siciliano. Logo foi a vez do quarto, da sala, da casa toda, da rua, do bairro, da cidade… tudo levou banho de tinta. Inclusive o observador, atônito, no olho do furacão, boquiaberto narrando a história.


*

Estava eu com uma camisa de botões quadriculada. Deu-me uma pequena coceira do lado esquerdo do peito. Uma coceira dessas de gargalhar. Bem-vindas: era uma margarida que brotara do linho da camisa.


Achava aquilo uma loucura ímpar.


Aconteceu tal algazarra em tão pouco tempo. Repreendi-me, embarafustei-me ao andar de cima da casa, em direção ao chuveiro. Arranquei a camisa de linho quadriculada, suada, manchada de tinta, perfumada por cheiros antes desconhecidos, joguei-a no cesto. A água caiu com uma pressão de cachoeira, sacudi-me feito um cachorro em dia de chuva. Esfreguei com bucha e esfregão. E continuava pintado. Não me livrei das cores e depois do banho coloquei uma camisa florida, também de margaridas, essas desenhadas.


De volta à cozinha, o vasinho estava tão bonito que a simples ideia de mexê-lo dali me impacientava. Meus pés tremiam ligeiramente. Levei uma ferroada! Pela minha volta estavam as abelhas. Parei por um instante perto da estante amarela. Elas pousavam em minha camisa florida e sugavam o néctar dos pistilos das flores fictícias. Um movimento brusco poderia render-me uma bordoada. Esperei, até que fui desabotoando lentamente os botões perolados azul marinho, com a cautela de um apicultor dos mais entendidos. 

Já sem camisa, passava por debaixo do açúcar que caia das prateleiras de alvéolos e, sem querer, alguns pássaros chegavam a comer em minhas mãos, gorjeando como nas terras do poeta Manuel Bandeira. As formigas caminhavam em fileiras, impacientes e obcecadas com a marcha, aturdidas pelo doce cristalizado que pingava de cima. 


Meus pés escorregavam em poças de mel, surgidas em no chão de piso de caquinhos da cozinha.


Pegava-me pensando no Poeta, já ali perto da portinha vermelha de madeira do quintal. E pensava também: “Sou um escriba das coisas pequenas… mas como pode”. Saí ao fundo da casa, o mato estava alto. As flores lindas e abertas. Rosas brancas, lírios, girassóis, bromélias. Dois pés de goiaba, um de amora e outro de ameixa. Dois cachorros magros brincavam e se sujavam aos pés de uma jabuticabeira.


Era quase noite e o céu arrebatava minha teoria das coisas pequenas, sendo as estrelas fragmentos tão ínfimos hospedados na grandeza do universo. Vasto e escuro. Sensual. Cheio de dúvidas, mas ao mesmo tempo acolhedor – sentia proximidade com uma estrela, como se, acometido por um convite, deixasse de lada por instantes a razão e, impetuoso, daria um salto disposto a levitar, fazer força como um gavião até alcança-la e trazê-la à Terra.


Tentei em vão.


Frustrei-me por alguns segundos.


Mas as borboletas vieram. Levitaram-me, peguei na rabiola de um cometa. Misturei no suco de caju, melancia e gengibre. Dei de beber ao cachorro. Apanhei uma estrela naquele campo aberto de céu infinito. Agora a tenho comigo, dentro de mim. Peguei-a com a boca, de supetão, a engoli. E não era uma pílula, era uma estrela.


Naquele dia, embora já suspeitasse, conheci uma parte daquilo que se diz que nomeiam erroneamente de felicidade. Era mais. Já a tinha escutado no zum-zum das abelhas, retirando o plástico do vasinho ou comendo um doce português na confeitaria. Pastéis de Santa Clara, polvilhados com açúcar de confeiteiro.


À noite meu corpo brilhava com a estrela dentro de mim. Via cores que antes não sabia que estavam nas coisas. A limonada do pé do fundo de casa – que nem existia – não precisava mais de açúcar mascavo, talvez a culpa me coubesse, embora as flores tivessem a intenção de serem levadas a outra estrela. E foram, na noite seguinte. 


Janeiro/2019


Epílogo


 As flores murcharam. A terra secou. O céu é cinza e poluído. O personagem ficou diabético. As abelhas fugiram. Os cachorros, engordaram. O rio do começo da história não passa mais ali. A lama virou asfalto. A casa foi vendida para uma construtora de condomínios de alto-padrão. As borboletas morreram no estômago. Exoneradas. A estrela ficou sem brilho. E como disse P.M.C, o poeta, amor acaba.


Junho/2019

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