• Giovana Proença

Novo álbum da Carne Doce, 'Interior' relaciona diferentes sentidos em diálogo com a poeticidade

\\ ARTE

O interior se coloca como plural: a interioridade humana, em seu sentimentalismo e complexidade, é paralela ao interior geográfico.

Por Giovana Proença


Capa do disco "Interior" (Imagem / Reprodução).

Interior, novo álbum da banda goiana Carne Doce, bebe em fontes da tradição literária, sempre muito lírica, de suas composições, aliadas às batidas experimentais do indie brasileiro já conhecidas pela banda, em renovação das melodias típicas do grupo. Se a relação com a literatura já se deixou explícita em faixas divulgadas previamente, como ‘A caçada’ - single inspirado em conto homônimo de Lygia Fagundes Telles – o álbum canta em suas melodias e poeticidades motes literários; em prova da vinculação dos fazeres artísticos. 


O interior se coloca como plural, para além do nome do novo trabalho da Carne Doce: a interioridade humana, em seu sentimentalismo e complexidade, é paralela ao interior geográfico. O regionalismo consagrado na literatura brasileira e a inexorável relação com o âmago do ser conquistam nova forma na potência da voz de Salma Jô. O fascínio das composições que contrapõem o interior em suas diversas facetas e sentidos são o arrebatamento sonoro e poético do álbum da banda goiana. 


O resultado não poderia ser mais cativante; Interior é para dançar, derramar lágrimas, refletir, sentir raiva, fazer amor & sexo. A longa ‘Temporal’ é uma tempestade emocional, a regeneração e a purificação pela água, caras à literatura clássica e à tradição ocidental se reapresentam nos tons da canção. O valor do memorialismo transfigurado em arte e em legado popular também estão nas toadas da faixa de abertura do álbum: “Toda criatura que não der para salvar/ Tudo o que alguém lembrar/ Vamos botar numa cantiga, viva a vida”.


Melodia que nomeia o álbum, 'Interior’ expõe o duelo entre a constância e a mudança, os rastros que se mantêm presentes no horizonte à espera; exercício de voltar-se para a própria interioridade. ‘Garoto’ é o êxtase do erotismo - uma lembrança de ‘Amor Distrai’, faixa de ‘Tônus’ - na sexualidade desvelada, porque a Carne Doce sabe ser vulgar sem apelar à vulgaridade. ‘Hater’ questiona a fixação que parece se derramar pelo inverso, beirando a adoração de venerar o ódio. ‘Fake’ é um exercício de alteridade, o espelhamento e as máscaras que vestimos para o outro – e para nós mesmos – o mito dos primórdios é transmutado para as armadilhas virtuais. ‘Saudade’ lembra as canções que conquistaram a rádio na década de 90, traços de memorialismo sentimental que refletem os estilhaços dos restos. 


A melancolia de ‘A partida’ é uma elegia as perdas que têm tomado nossos tempos. A poeticidade se expressa ao máximo em ‘Passarin’, bela composição lírica em louvor do amor. ‘A caçada’, destaque do álbum, dialoga diretamente com a literatura ao evocar a dama do conto brasileiro, Lygia Fagundes Telles, anunciando o ser capturado por todas as posições: a ameaça da proximidade do adentrar é clara. A potência do tempo, que costura e rasga, e a deterioração do passado ficam evidentes no trabalho de prosa sonora feito pela banda goiana. Por outro, temas como alusões ao desmantelamento do sentimentalismo e a limitação aos restos, nos lembram outras faixas como “Comida Amarga” do álbum Tônus, de 2018.


O vívido pequi que estampa a capa de Interior concilia a incursão aos campos goianos, que ganha ressonância na universalidade sentimental e a interioridade humana. Carne Doce ressalta a lírica, as composições poéticas das faixas do álbum dialogam com um novo regionalismo, que expande a dimensão da literatura brasileira em sua faceta regional, no estudo da psiquê e da complexidade emocional arraigadas no domínio geográfico. “É parar para seguir adiante”, ecoa a letra da canção ‘Interior’, a mais esperançosa do disco segundo declaração de Salma Jô no Instagram da banda; “Queridos amigos, fudeu/ Ninguém teve culpa, não deu/ Alguém sempre acaba perdendo/ E às vezes até merecendo e aprendendo/ É só se esforçar.” Em tons de esperança, ser interior é, acima de tudo, resistir. 

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