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Novo álbum, “Egypt Station”, dá partida na turnê de Sir Paul McCartney

\\ ARTE


Por Gabriel Solti Zorzetto, Especial para Frente & Versos


Capa do álbum "Egypt Statio", de Paul McCartney


“Egypt Station”, o 25° álbum solo de Paul McCartney e o primeiro inédito desde o excelente “New” (2013), teve o título inspirado no nome de uma pintura de Paul feita nos anos 80 e foi idealizado como uma “viagem de trem” por várias estações, permeadas pela mais variada gama musical escolhida pelo capitão Macca.


A magical mystery tour começa em “Opening Station”, uma colagem sonora de 39 que segundos que abre as portas para a jornada, com barulhos de uma estação de trens e um fundo de vozes conversando que remete imediatamente à introdução da primeira faixa de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (1967). Deste modo, o prelúdio nos leva a “I Don’t Know”, uma balada de piano cativante que Paul faz com a mão nas costas. A melancolia instrumental choca-se com uma letra angustiante raramente vista na atual fase de um Beatle realizado. “I got crows at my window, dogs at my door/I don’t think I can take any more/What am I doing wrong? I don’t know”, canta Paul.


A viagem começa a se eletrizar em “Come On To Me”, um hit imediato com todos os elementos do catchy rock que tanto amamos. Guitarras agudas, bateria pesada e um refrão marcante, ainda que acompanhado por uma letra boba sobre um rapaz tentando flertar com uma moça em algum lugar cotidiano. Todo o barulho da faixa é diluído na canção seguinte: “Happy With You”, com um belo arranjo de violões e eventualmente uma flauta.


Seguimos em alto nível ao chegar à melhor faixa do álbum – na humilde opinião do redator, é claro – “Who Cares”, um rocker com distorsões que traz um riff de guitarra à la ZZ Top ou até Eric Clapton em sua versão de “Crossroads”. Paul canta sobre os idiotas que praticam bullying: “Who Cares what the idiots say?/Who Cares what the idiots do?/Who Cares about the pain in your heart?/ Who Cares about you?/I do”


Após a ótima regularidade inicial, “Egypt Station” começa a entrar em turbulência na sexta faixa com a polêmica “Fuh You”. De fato, é compreensível que muitos fãs tenham se decepcionado ao ouvir um pop tão descartável como esse. Ao, menos a culpa pode ser transferida para Ryan Tedder (líder da boy-band One Republic), que durante as gravações do álbum, produziu a canção isoladamente com Paul depois de um conflito na agenda de Greg Kurtin, o produtor titular do trabalho. Aqui, o maior artista de todos os tempos soa como uma bandinha pop de sucesso bem água com açúcar.


A trinca “Confidante”, “People Want Peace” e “Hand In Hand”, apesar de dotar de alguns valores aqui e ali, na verdade deixa o álbum mais cansativo em um trecho facilmente esquecível. Isso termina em “Dominoes”, uma pérola com roupagens de “Flowers In The Dirt” (1989) que passou desapercebida pelos fãs, com uma excepcional estrutura melódica escancaradamente “mccartiniana”.


“Back In Brazil”, homenagem de Paul ao nosso país que rendeu até um clipe gravado em Salvador durante a última turnê “One On One”, mais parece uma mistura de algo que Sergio Mendes e David Byrne fariam caso fizessem uma colaboração. Contudo, é interessante ver o rockeiro inglês fazendo um “samba de gringo” e se aventurando fora de sua zona de conforto. Capa de “Egypt Station”


A sutil “Do It Now”, que tem belas harmonias vocais e um arranjo irretocável, é seguida pela experimental “Ceaser’s Rock”, que mais é uma brincadeira de Paul com sua banda do que qualquer outra coisa, tornando-se outro ponto desnecessário do disco.

O trem volta de vez aos trilhos em “Despite Repeated Warnings”, clássico instantâneo, de 7 minutos, com uma construção épica que nos lembra as suítes impactantes de “Uncle Albert/Admiral Halsey” (1971) ou “Band On The Run” (1973). Nessa explosão sonora de tirar o fôlego, MacCartney alterna gêneros e camadas para acompanhar uma letra sobre um capitão louco que não tem o controle de seu navio – em metáfora ao presidente americano Donald Trump.


Voltamos a respirar em “Station II”, interlúdio similar à faixa que abre o álbum e que nos indica que a jornada está terminando. Mas antes, esbarramos no pesado medley “Hunt You Down/Naked/C-Link”, combinação de guitarras sujas, violoncelos e trompetes que Paul costura com excelência. Paul se despede com um belíssimo solo de mais de dois minutos.

“Egypt Station” é mais um grande álbum de Paul McCartney e um presente aos fãs. Ainda que com alguns deslizes, o garoto de 76 anos continua impressionando o planeta não apenas como um compositor/poeta imbatível, mas também como um músico que nunca parou de evoluir e experimentar novas direções.

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