• Matheus Lopes Quirino

O apagar dos vaga-lumes

\\ CADERNO DE ANOTAÇÕES

De baixar a cabeça diante do vírus, do toque nunca mais ser possível e, a partir de hoje, os computadores isolarem cada pessoa em sua respectiva casa. Dizem que no futuro assim será.

Por Matheus Lopes Quirino

Valparaíso, Chile (1963) by Sérgio Larrain.

Acabou a ternura, e não é por falta de aviso. Nesses dias de isolamento caímos em um alçapão, coisa de filme de velho oeste, de produção Hollywoodana do século passado. Cá estamos no escuro, sem pavio para procurar acender. E quanto mais procuramos algo que se pareça com a luz, pouco enxergamos, e não somos animais que se adaptam fácil à escuridão. Nem vaga-lumes que se acendem para se proteger. Por hoje, apagou-se a chama. Repito, acabou a ternura. Não existe mais toque. Amores estão separados por léguas, abraço virou uma triste lembrança de porta-retrato, quando ainda é possível o toque no quadrinho em vidro. O afago virtual nada substitui. Já vi gente que piorou tudo com uma incessante e contínua teclação de bips.


Sinto falta de andar por São Paulo, fazer o roteiro sentimental, ali pela avenida Paulista, ir trabalhar no Instituto, depois encontrar com o Nathan e ir para Xangri-La, ou, como fizemos nas últimas quartas-feiras, sair para tomar um gin tônica com a Vana. Parece um outro tempo, uma fotografia muito amarelada, um filme antigo que custa a ser revelado e, se não bem anotado e enaltecido, perde-se no espaço tempo. Por isso é importante lembrar, preservar a memória e, sem medo, enaltecer sim o passado.


Reluto em usar o espaço dedicado a crônica para comentar  outros assuntos que não são as trivialidades que aqui cometo, sem ressalvas. Só neste espaço posso esquecer do mundo, que ainda sou gente de carne e osso, me transformar em um sabiá que toca bandolim ou num gato sagaz que anda todo imponente por uma cidade fictícia, de gravata borboleta, até mesmo um velho mágico que tenta ver cores brilhantes saltando de prédios cinzas da cidade opaca. Resisto como posso para não macular esse pequeno espaço onde posso pincelar um pouco de graça, com ternura, mesmo quando parece que falta matéria para se escrever.


Não quero pensar no futuro. Vivo falando isso ao Nathan, mesmo que, nos últimos tempos, por causa da distância entre nós, só nos resta enaltecer as ternuras do passado, ou projetar um futuro que julgávamos longe, mas agora nem sabemos se distância é a palavra certa. Perdi a noção do espaço tempo, em dias como hoje me irrito tendo que podar meus ímpetos, sem poder tomar um ônibus e matar a distância. A saudade sucumbe. Hoje, pode ser o contrario: posso eu morrer pelo ímpeto de matar a distância, é uma roleta russa que o germe produziu, a todo momento julgamos e desjulgamos atitudes, pensamos excessivamente para nos comover com o noticiário de quinta categoria que explora as emoções dos pobres coitados que arfam até o fim de suas vidas. Temos emoções? Talvez alguma, sim,rareia cada vez mais conforme os dias são escuros e turvos. Não há ternura que resista.


É difícil para um ficcionista vaticinar que as fadas morreram, que os canaviais são meros hectares de capitalismo sujo que mancham as paisagens da infância, como quando eu ou você percorríamos aquelas estradas que cortam os campos de cana de açúcar. Parece um sonho muito, muito distante. Viajar, amar, correr, fazer um piquenique com os amigos, ir a uma festa no sábado à noite, abraçar uma pessoa muito querida que, por acaso, a encontramos depois de dez ou quinze anos, e ao olhar as feições falávamos em alto e bom tom “Como você mudou?”. Hoje não, estamos todos obrigatoriamente mascarados para correr o mínimo risco de estar na roleta russa.


Não tenho sossego, à noite tem vezes que não prego os olhos, sonho que estou sem máscara andando por uma rua Augusta repleta de fantasmas, turva, suja, sem um pingo de vida, completamente lotada por zumbis que percorrem lojas abarrotadas de roupas, e letreiros luminosos anunciam um mundo diferente.


Tenho medo do sonho se tornar realidade, do absurdo superar a ficção. De baixar a cabeça diante do vírus, do toque nunca mais ser possível e, a partir de hoje, os computadores isolarem cada pessoa em sua respectiva casa. Dizem que no futuro assim será. Sem abraços, apertos de mão, sem beijos no cinema, na vida real, então? Temo que chegamos aqui, nessa distopia que é 2020. Sinceramente, não quero pensar na possibilidade da ternura ter acabado, mas não sei… Todos os dias insisto em mudar o tema da crônica, falar de outra coisa mais leve, com graça, lembrar os bons momentos, prestar homenagens aos amigos, lamentar o amor quilometrado, e ressaltar a falta que eu sinto, que nem a poesia, nem a esperança, nem o futuro podem me dar, se não o toque.


Por um momento, esqueço que os políticos são uns merdas, que a vida está um caos lá fora, que os bancos e os empresários são oportunistas e genocidas, que as coisas não vão bem nos hospitais e os enfermeiros morrem. Que o ano que tinha potencial para ser muito, forjou-se numa vala comum, profunda, fétida, repleta da escuridão. E não há perspectiva ou referencial, nem um exemplo a seguir. E nas ruas muitas pessoas andam sem máscara, uns tolos não acreditam na letalidade do vírus, põem em risco vulneráveis por não terem o que fazer.


E os ímpetos são impossíveis, não posso embarcar em um ônibus com destino à Vereda do Miocárdio, Minas Gerais. Mal posso me reunir com os companheiros em um bar na Consolação, ou simplesmente dar um aperto de mão no carteiro, até nos sonhos sou assombrado com a peste. O encontro que nunca chega, as valas que abrem, os alçapões misteriosos que temos medo de despencar e de lá nunca mais ver a luz. Cada vez mais vaga-lumes se apagam, e esse seria um lindo texto, não fossem as circunstâncias do fim da ternura definitivamente, lá fora uma noite engole as plantas, as fadas, as outras fadas e o que vier pela frente.

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