• Matheus Lopes Quirino

O beijo não vem da boca

\\ ENTREVERES

E no não beijar, o beijo também é pedir licença, abrir a porta, puxar a cadeira. O beijo pode ser no rosto e nas mãos.

Por Matheus Lopes Quirino


O beijo não vem da boca. O beijo vem antes disso. O beijo é intenção. É suspeitar levemente, palpitar, mexer as pernas, ou ser mexido por elas. O beijo é levitação, os próprios pés fugidos da obrigação. O homem fatigado saindo da repartição por cinco minutos, ao descer lances de escadas para encontrar a namorada ou o namorado, no meio do expediente. E dizer um “oi”, “tchau”, “obrigado”. O beijo é o não beijo.


E no não beijar, o beijo também é pedir licença, abrir a porta, puxar a cadeira. O beijo pode ser no rosto e nas mãos. Os cariocas dão dois, os paulistas um, os mineiros dão dois também. Os outros, de todos as cidades, os estados, e todos os países do mundo – não necessariamente nesta ordem – dão quantos acharem necessário.


O beijo é o olhar vertiginoso. O sonho candente. Um poema, ou a intenção disto. A agitação. O habitué. O próprio beijo, desses de boca, que esparrama e as línguas se encontram num entrelaçar acrobático. O beijo é o toque sutil no rosto de alguém que não esperava tal delicadeza, e por assim vai se deixando levar pelos dedos desgovernados. E o beijo acontece… e já aconteceu.


O beijo acontece por um momento furtivo, depois de uma prosa alongada. Durante uma sessão de cinema. Um beijo acontece e desacontece. Um beijo é um não beijo quando esquecido. Um beijo volta a ser um sapo, e o príncipe vira conto de fadas. A cortesã, bruxa desmilinguida. O beijo, este de artigo robusto nunca é esquecido. Aquele lugar. Primeiro percebi que gostava de Diadorim, de amor mesmo, mal encoberto em amizade. O beijo é Guimarães, Drummond, Clarice, Cecília, Flaubert, Maupassant.


De alguma forma, o beijo desagua como um riacho doce, escorrendo por entre as grutas e cavernas mais profundas. É sereio e sereno, baixinho, aos poucos explode como cachoeira. De ensurdecer, um beijo se espraia, esparrama, espalha rama, escorre, lava a alma – como pode? Explode em fluxo, molha.


*


Das melhores intenções, como dito acima, o beijo também é extensão. O beijo se alonga no telefone, na conversa de duas horas. O beijo sai para jantar num botequim de esquina, num bairro boêmio ou em um café de teatro ou livraria. Um beijo é um cartão postal não enviado, pela falta de destino. Um emissário sem cartas. Um beijo é arrematar em correspondência, sem esperar respostas.


Um beijo é, no dia seguinte, as receber. Voltar à extensão, por duas horas. Um beijo é dizer não estar afim, estando. Um beijo é não prometer, se comprometendo. E lá estar, ajoelhado, dependurado pela própria língua, para lá e para cá. Num piscar de olhos, deparamo-nos com um beijo, dos mais beijáveis.


Um beijo causa rubor, causa estranheza e tudo mais. Um beijo é um beijo. Ele volta atrás, mas nunca se desdá ao já dado. Ele já foi. Ele é Ela. Ou ele mesmo. Beija? Sim ou Não, ou daqui a pouco. Quando não, sem perguntas. Só beija. E vai! Beija! Beija! Beija!

De todos os beijos do mundo, o beijo, o maiúsculo, foi O beijo. Foi estranho. Foi um beijo também e mais alguma coisa confusa… Precisei repensar. Precisei consultar outros departamentos. Usei a intenção, liguei xxxx-xxxx, discado, com a extensão. Foi intenso. Foi O beijo. Se demorou. Rápido e volátil. Foi uma tomada, duas tomadas, fomos eletrocutados. Pane. Curto-circuito.


*


O beijo é uma colher de pudim ou uma mousse de chocolate que dividimos. Um sorvete derretido. Meio caramelo. Metade da laranja. Um beijo é o resto de torta e seus farelos de massa podre, três quartos de pizza marguerita, sem azeitonas. Um beijo é saboroso. De gula! O beijo vai para o livro de receitas. Batem ovos, farinha, leite, favas de baunilha, ou essência… um beijo se dá, se faz. Repete-se em outras porções, à guisa flambada por dois olhares em fio condutor. E de surgir, esporádico, renasce como um outro beijo, dos lugares menos esperados. Um beijo é roubado, e devolvido.


O beijo é um rapaz de calças jeans americanas, camisas xadrez, sapatos pretos, cabelos bagunçados, olhos cor de âmbar, mãos com veias saltadas, sorriso branco, tímido. O beijo é uma moça de olhos azuis, quase cinzas, com uma saia laranja e cabelo curtinho. Com colares de pérolas falsas, apanha uma caneta bic no chão. A põe na bolsa e finge que nada vê. E o rapaz sabe e a pede de volta.


E ela olha. E sorri, cheia de ressalvas. Argumenta. O rapaz de cabelos bagunçados titubeia. Deixa passar a caneta – que diabos! Ela vai embora. E guarda a caneta na gaveta da escrivaninha, com tantas outras canetas, lápis, lapiseiras, todos achados pela vida. O beijo… Ela não sabe, mas faz falta.


E ele senta à máquina para escrever. Faltam-lhe ideias, sobretudo as boas, e ele lembra da intenção. Quando não era nada. Só um beijo. Aos solavancos, dá um pileque na máquina, ela desengasga. Ele também. Um beijo. Ele pensa na moça. Ela pensa no moço. E ele pensa na história. No moço que pensa no moço que pensa na moça, que não existe.


E a caneta era um pretexto. Para voltar, no bolso esquerdo da camisa xadrez. Um beijo. Era perguntar o nome e sobrenome de quem a pegou. Era anotar, com aquela caneta, o nome do mais beijável dos beijos, na palma das mãos, num guardanapo, no antebraço, que fosse. O beijo existiria, seria o começo e o fim. Seria para além do próprio ato, consumado, seria história velha. Existindo, enquanto fosse dado, rapidamente. E dane-se a caneta.


O beijo seria escrever todos os dias. O beijo seria brigar, desencontrar, dizer adeus, logo na primeira oportunidade. Porque não é mais beijo. O beijo é esquecer. É lembrar vagamente, depois da dosagem de tristeza até o nada, e, nos conformes da conformidade, acreditar que o beijo foi só um beijo. Um tantinho de beijo a lembrar de tempos em tempos, recordar, com ou sem beijo, que ele não vem da boca, precisa de pretexto. Uma caneta, um café, um simples despertar. Uma lembrança do que poderia ter sido, depois dos beijos, mas não foi.

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