• Matheus Lopes Quirino

O desenhar da boca

\\ ENTREVERES

Não é impossível, mesmo as bocas mais bonitas podem se curvar à tristeza
Matheus Lopes Quirino

Vez ou outra o peito se enche de tristeza. Sentimos no peito um líquido pantanoso que, se não bem drenado, é perigoso transbordar. Sai pela boca. E então, nesse terreno anfíbio que é o coração, perguntei-me, já às lágrimas de crocodilo: não seriam elas a saída de toda essa tristeza? Pergunta que deixo ao eventual leitor, se houver, é claro.

Não é de todo ruim a tristeza. Ela só é um bocado triste. Nos acostumamos. Como se vagássemos sem destino num dia cinzento e nebuloso. E na verdade estávamos almoçando sozinhos, comendo em um por quilo caro. Os guardanapos são de papel. Os canudos são de plástico. Tartarugas morrem. Um homem morreu de frio na noite passada. Outro de fome, duas quadras adiante deste restaurante.

Convivemos com a tristeza durante boa parte do nosso dia. Parece vir a galope no mais puro sangue um major, bradando, pedindo as credenciais do Recruta Zero. E, mais de uma vez ouvimos de alguma boca pelas ruas ou galerias a frase tão batida “Sou um zero à esquerda”. Responderia o Luís Inácio “Pelo menos, não à direita”.

E talvez ele tenha razão. Mas sem entrar no mérito das direções que porventura alguém como você, leitor eventual, tiver escolhido, não pretendo guia-lo a caminho algum. Só venho hoje para falar um pouco de tristeza, ou deixar, talvez, um pitadinho da que transborda hoje em meu coração com vocês. E não se apiede. Acabo tendo que lidar com várias tristezas. Todos os dias, umas tão bobinhas que, num pulo, convertem-se em alegrias.

Quantas frases tristes estão dadas a todo momento nos jornais, sites, letreiros, na televisão. Pega-se tristeza como se pega gripe. Não há felicidade em um vagão de trem no horário de pico e nunca haverá. Nem em uma criança abrindo o berreiro quando a mãe some das vistas, ao deixa-lo na escola. Nem durante um litígio temporão. Nem no entrevem de um diagnóstico temido. Nem durante uma escalada na montanha, seja ela qual for.

Essa coisinha chamada tristeza sai de milhões de bocas todos os dias. Das mais feias, ressecadas, murchas, com alguma deformação ou doença de pele. E talvez essas pessoas se sintam tristes, primeiramente, por suas bocas. Sendo os lábios um desastre da própria natureza, muitas vezes incorrigível, pois nem todos podem fazer plástica – oh, que tristeza.

Como se resolvesse cirurgia ou corretivo. Muitas vezes muda-se boca, nariz, afina-se o rosto, puxa daqui, corta dali, estica de lá. Mas a tristeza… ela não vai embora. A fisionomia mostra. Os olhos caem, a boca murcha. Mesmo as bocas mais bonitas, aquelas vermelhas de lábios carnudos e bem desenhados, estas também podem se curvar à tristeza.

E no assunto da boca, ainda, não só a língua sai para fora. Como também, dos rincões deste mesmo peito pantanoso, às vezes, sai-se a mais bela sinfonia, saída de lábios de mel, ou de fel. De Amy Winehouse, Whitney Houston, Elvis Presley e grande elenco, dos citados, todos tinham, além das bocas bonitas, não só a música incomum, como a tristeza.

Cantores, atores, artistas plásticos, atendentes de telemarketing, psicólogos (sim), líderes espirituais (sim), cozinheiros, marceneiros, taxistas, professores, músicos, cabelereiros e manicures, massagistas, agentes de trânsito, da polícia, do corpo de bombeiros, taxidermistas, recepcionistas, jornalistas, esportistas e, principalmente, escritores. Todos sofrem de tristeza.

E ela transborda, se não pela boca ou pelos olhos, ao caso do escritor, quando a tristeza vem à porta, ele a convida para entrar. Abre um vinho e uma S. Pellegrino, serve o couvert, pode até gargalhar com a tristeza. Jogar uma partida de cartas, fumar um cigarro de menta, escutar Ney Matogrosso (esse sim, é só alegria) e contar fofocas literárias. É uma alegria é triste.

Ela entra e fica. Povoa a casa do escriba, percorre bom território. Sendo exorcizada apenas pelas palavras, em lauda ou computador. A tristeza também está no andar pelas ruas de madrugada, pelas avenidas da Bela Vista ou nas ruelas do Tendal da Lapa. A tristeza tem seu próprio caminho, pela sombra da madrugada, tardia, ela ressurge, é companheira. Até o amanhecer. Quando chega a alegria.

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