• Bruno Pernambuco

Observações

\\ TERCEIRO SINAL

A vida esquentada, rápida, passada, atravessada, enfreada. Frases nascem das placas dos carros, a carroça empacada é mais divertida que a viagem.

Por Bruno Pernambuco

A Bowl of Plums (1728),Jean-Baptiste Chardin.

A vida precisa, certa, intrínseca, perene, agendada. Mecânica feito enigma de Hamlet. Foi isso, foi apenas isso que restou? O dia cinza, insosso, chapado, ou a vida veloz, batida rápida da noite, perseguição acelerada nas luzes, caçada da carne amarga… Nunca senti que me caísse muito bem qualquer um desses papéis. Eu tento, mas sempre é inevitável a coceira nos olhos, a coceira nas lembranças, a coceira na alma. Ah, se houvesse só mais um ensaio! O tempo nada diz que é preciso. Às vezes olho no espelho, e os olhos estão certos: não há culpa que eu não carregue. A vida, dentro ou fora, está no palco. Nada como estranhar estar só e estranhar ser olhado...


A vida esquentada, rápida, passada, atravessada, enfreada. Frases nascem das placas dos carros, a carroça empacada é mais divertida que a viagem. Parece que o horizonte existe do outro lado do vidro. Parece que se escreve o tempo como quem compõe uma sinfonia. Toca o metrônomo da vida: Andando, empacada, apressada, parada, espessa, sutil, pra cima, pra baixo, pro certo, pro errado. Nesse período um comboio de corda deu mais uma volta, que será mais uma memória. Foi Joyce quem falou dele se descarrilhando? Lembrança e angústia se agora atravessam, certas como flecha e maçã. Foi Joyce quem falou em um cavalo rebelde?...


A vida contada, pacata, invertida, inventada. Roberto Piva escreveu “A Praça da República dos Meus Sonhos” e não é a mesma que a dos meus. Nesse sonho eu caminho por uma praça inventada, e eu teria de visita-la para poder conhecê-la. Me lembro de uma cidade em que anualmente a assembleia se reúne para definir o passado. Me lembro de um pesadelo que não aconteceu comigo, e de um pensamento que tive enquanto o visitava. Me lembro de ver a cor dos olhos e a cor do sangue. Me lembro de uma história que escutei uma vez a respeito de praças. Acho que começava comigo tendo, em primeiro lugar, que dizer que ela não é, na verdade, muito boa, e aliás provavelmente nem valha a pena ser contada...


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