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Oceano interior

\\ POEMÁRIO


Por Caio Aguiar, colaboração para Frentes Versos

"The Great Wave off Kanagawa" (1831), de Katsushika Hokusai.


Oceano interior


Se eu não fosse humano, seria um oceano

Misterioso gigante em cuja superfície embarcações trafegam

Navios de pensamento atravessam o oceano que há em mim

Por vezes, transatlânticos de transa, luxúria, devassidão

A todo momento, eles vêm

E vão.


Mas daquilo que existe nas profundezes

Esses levianos navegantes jamais saberão

Nem sequer chegarão perto

E isso está certo

Pois o oceano que há em mim

Esse oceano que sou eu mesmo, enfim.

Tem águas quase sempre navegáveis

Mas guarda mistérios insondáveis


Na superfície quase sempre pacífico

Nas profundezas, detém acervo prolífico

Segredos mortais, criminosos

Alguns até engraçados, bobos


O tolo sempre a correr atrás do ouro

O ouro falso sempre a seduzir o tolo

Todos os personagens que eu criei e me criaram

O homem virtuoso, o monstro pervertido

Tudo que é louvável e toda podridão

Tudo aqui está escondido.


Não posso fazer com que tudo venha à superfície

Que muitos haveriam de dizer de mim:

(e com razão)

Doido varrido!

Não, melhor que essa miríade de sentimentos

E suas infinitas manifestações

Fiquem para sempre nas profundezas

E a superfície seja sempre pacífica.


Mas muito se engana quem pensa

Que meu oceano interior não possa um dia

Tornar-se, como nenhum outro, turbulento e desordeiro

Não se trata de um oceano do qual a Vênus possa nascer um dia

A anunciar majestosamente ao mundo sua vinda

Não, que mesmo um oceano pacífico tem seus limites

E este não secou ainda!

E uma alma oceânica

Uma vez tendo encontrado em si

Aquilo que para si é verdadeiro

Não hesitará em abandonar a antiga calmaria

E, se preciso for,

Voltar-se contra o universo inteiro.


Também não um oceano

Ao qual um poeta qualquer possa perguntar:

“Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal?”

Meu caro poeta, tens aqui uma resposta oceânica:

o sal deste oceano não provém de lágrimas portuguesas

Não provém senão das lágrimas da minha própria tristeza.

Não provém senão da tortura que é a perene simulação

Não, elas não provêm de Portugal.

Mas da dor que existe em ser por dentro eternamente convulso

Em eterna transmutação

E na superfície ser forçado a apresentar-se em perene serenidade

E para sempre igual.


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