• Bruno Pernambuco

Os Hábitos do Olho


(Imagem de capa: Imagem de Recording Art, de Bruno Moreschi e Gabriel Pereira)


[Aconteceu, entre os dias 30 de junho e 5 de julho, o Festival Finos Filmes, organizado pelo cineasta Felipe Poronger. Combinando mesas de discussão apresentadas no canal do MIS-SP no Youtube (o acervo desses vídeos fica disponível) e uma mostra de curtas-metragens disponibilizados no streaming SPCine Play (os curas participantes ficam no serviço até o dia 8 de Julho), o festival teve de reinventar seu formato para a edição 2020, devido à pandemia do vírus COVID-19.


No dia 3 de Julho ocorreu a mesa “Arte, Memória e Tecnologia”, disponível aqui com Silvana Bahia, Michel Laub, Christiane Jatahy e mediação de Rita Mattar, numa discussão a partir dos curtas “Luis Humberto - o Olhar Possível”, “Sangro” e “Recording Art”. Abaixo, nosso colunista Bruno Pernambuco traz impressões sobre os filmes e sobre a discussão. Fica o convite ao leitor para explorar as outras discussões da mostra no canal do Museu, e o restante do catálogo de curtas no streaming]



A memória, como mostra Luis Humberto, não é uma coisa única. Ela, e a nossa relação com ela, se transformam, conforme se transforma a relação com o presente, e os ângulos possíveis do olhar. A fotografia é um trabalho muito delicado com essas mortes, com a passagem do velho e a intromissão insistente do novo. A imagem que se sedimenta no encontro dessas forças não é mais que o momento fugidio, o entremeio entre o ser e o não ser, o dentro e o fora, — assim fotografar é quase que inteiramente trabalhar com a memória.


É adentrar essa linha muito tênue, em que não existe limite claro do que é invenção e do que é realmente acontecimento. Um ação cuidadosa de esculpir o tempo, a morte e a memória, construir um tempo invisível, presente na imagem que de tão intensamente fala por si. O olhar claro, preciso e científico das representações um projeto, e de grandes acontecimentos do país, e em contraponto à ternura das lembranças de família, a luz amarelada com que a memória ilumina aquele passado próximo, e mais vivo, que resiste à passagem do tempo, representam essas dimensões distintas do olhar fotográfico. As diferenças desses olhares fotográficos estão escancaradas: a mudança rápida, brusca, e emergencial, dos projetos são abandonados, sufocados pelo autoritarismo e pela mudança política e do trabalho que se encontra numa revolução profunda — que vê a transformação dos seus meios e a perda das suas certezas, encarando uma nova realidade tecnológica; a permanência lenta das lembranças mais sutis, as histórias, tantas, de antes, que parecem de ontem.


É preciso morrer uma vez. É preciso viver a seguinte. Em Sangro também se sente profundamente essa transformação da memória. O que é possível reinventar, depois de ter sido feito em cacos? Que mortes são aquelas que é preciso viver, para deixar que cheguem aqueles reencontros que a vida cobra? É muito desoladora essa desintegração daquilo que era sabido. Não há como dizer o quanto uma pessoa continua a ser a mesma ao longo de uma vida. Não dá sequer para dizer que existe algo que seja, realmente, aquilo que alguém é — se existe algo assim, algo “que é o que realmente somos”, isso é o que está no começo ou o que está no fim?


A ternura anda sempre junto da violência, é sempre dentro de uma que se redescobre a outra. Essa dor da memória, a dor daquilo que foi deixado; a distância entre o corpo, sempre aqui, no presente, e a alma, a lembrança do que existia antes dos retalhos, são companhias constantes, professoras difíceis. São aquelas de quem nunca realmente se solta a mão, na luta e no caminho de construir um “sim”.


Quanto, todos atribuem a tecnologia uma espécie de poder raro! A verdade é que nada ela pode, exceto fazer retornar a arte à sua condição de nada, como se vê em Recording Art. O questionamento de Bruno ecoa fortemente: não existe pelo menos um pouco de verdade naquela caracterização desconexa das inteligências artificiais? Diria que o que existe, também, é um alívio agridoce, de fazer com que a perspectiva humana retorne ao seu lugar. A inteligência nada entende da arte a não ser um produto, um simples objeto que foi criado - seu significado pode ser apenas um valor monetário. Assim deixa claro que a construção do sentido da obra de arte não é a única realidade objetiva possível, nem é uma condição inescapável do processo artístico, e que a ação humana, artífice, tem seu sentido em ser a única capaz de construir significados sobre aquilo que é feito.


A tecnologia, também, pode corroer e ditar as individualidades, como abordado na mesa em que participaram Silvana Bahia, Michel Laub, Christiane Jatahy e Rita Mattar. Ao mesmo tempo em que recursos novos, mais avançados e mais acessíveis, possibilitam novas rupturas a serem exploradas no teatro, na escrita ou na fotografia, os novos aparelhos, a quem cabe ditar o tempo da conveniência e da rotina, enquadram as individualidades, e aqueles pressupostos presentes em cada etapa da sua concepção e da fabricação se reproduzem, e têm o poder de se instituir como o normal. É muito delicado e intrincado o jogo, do quanto a tecnologia digital se aprimora na imitação precisa do humano, enquanto, ao mesmo tempo, o tempo do trabalho, das ações e também das relações, acontece para, constantemente, reduzir o homem à lógica absolutamente mecanicista. Do registro feito em filme emana o quanto a diferença que ainda existe entre humano e máquina está no invisível. Quando podem ser computada a menor precisão dos movimentos do pintor, ou a diferença sutil nas entonações, o calor daquilo que pode se chamar “humano” está no que não pode ser nomeado - nos menores erros, na diferença de opiniões, na incerteza, na dureza, na ternura ou na desolação. Em tudo aquilo que nasce de outro lugar.


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