• Bruno Pernambuco

Os Largos Passos

\\ TEATRO

A maior força, talvez, de Protocolo Elefante, seja justamente como suas perguntas não cessam.

Por Bruno Pernambuco


Montagem de cenas de Protocolo Elefante, da Cena XI de Dança. (Fotos: Cristiano Prim).

[Protocolo Elefante, da Cena XI de Dança (disponível aqui) é parte da programação do festival Faroffa no Sofá, versão digital do festival que abrange o circuito paralelo de artes de São Paulo. Para saber mais sobre o festival e acompanhar na íntegra a programação, acesse o site.]


Que regra, que regulamentação, pode existir naquele tempo que é da memória, da consternação, da remissão certa e marejada do elefante? O estudo mínimo, minucioso dos movimentos do animal faz com que o corpo de forma muito precisa despenque, se abra, se atravesse, se arredonde e se enquadre, encontre novos jeitos de estar, em sua agitação e em sua paciência solitária.


Protocolo Elefante é um exercício da cacofonia e da individualidade. É certamente uma obra que se pergunta muito, o que é ótimo. A maior força, talvez, de Protocolo Elefante, seja justamente como suas perguntas não cessam. A experimentação sempre leva a uma outra, a descoberta do corpo sempre chama novas descobertas. As coreografias que povoam a obra são extremamente plásticas. Todo o sistema de pesos a que estão submetidos os corpos refaz a imagem do animal, e permite que o espectador se afunde nessa pedra de paciência. A descoberta dos objetos também é profundamente simbólica, como quando um bastão compartilhado se torna guia das individualidades.


A obra é uma de um e ao mesmo tempo de muitos. Em sua composição do coletivo, muito bem orquestrada, que tão bem joga com os ritmos e conduz o público aos mais variados polos, esse Protocolo Elefante é uma lembrança muito viva e muito cuidadosamente lapidada desse caminho e desse trabalho individuais. O espetáculo afeta muito mais como uma lembrança desse espaço aberto, um caminho por esse abismo pessoal, que o representa, e isso é talvez aquela beleza transcendente que mais reluz pela apresentação, trilhado, em seus momentos, com a maior elegância, com a maior sutileza e respeito; com uma certeza e com uma abertura, uma entrega total para o abismo, e a confiança em perpassá-lo.


A imagem do elefante simultaneamente se fecha, numa escuta e numa reflexão que são próprias de seu tempo e de sua digestão lenta das coisas, e simultaneamente se abre, em camadas novas que vão se seguindo, atravessando seus simbolismos e entregando-se a uma interpretação que não é única, que se reflete por todos os seus significados. A apresentação afeta profundamente pela construção de suas imagens, originais e ricas. Atravessar o protocolo - e, talvez, se for o caso, se deixar ficar, e se comprazer de suas regras, tão precisamente pensadas - é uma jornada individual, que em seu trajeto lembra dos detalhes e também das grandezas, da dissonância que é o encontro com o outro e da paciência que traz esse tempo dos movimentos internos.

©2021 por Frente & Versos. Criado por Vicxorea