• Bruno Pernambuco

[Palco Virtual] Esperando A Borracheira

\\ TEATRO

A Borracheira é um espetáculo que apela profundamente ao simbólico, mas seu maior trunfo está justamente em não prender-se somente a essa representação, e a dizer, também, a história que acontece em seu tempo e lugar.

Por Bruno Pernambuco


[No dia 27 de junho de 2020, teve início, no site do Itaú Cultural, o projeto Palco Virtual, que reúne registros em vídeos de encenações de grupos de diferentes regiões do país. A Borracheira, do grupo O Imaginário, fica disponível no link https://www.itaucultural.org.br/secoes/videos/borracheira-palco-virtual-2 até o dia 10 de julho]


Apresentação de A Borracheira. Imagem: Édier William/divulgação.

O palco enxuto e vazio é a floresta densa e gigante, ancestral, síntese de contradições, casa de diferentes tradições e rezas, que sustenta o natural, por sua própria função tradicional e simbólica, e é explorada pelo trabalho, nesse novo sentido moderno em que oferece subsistência. A Borracheira é um espetáculo que apela profundamente ao simbólico, mas seu maior trunfo está justamente em não prender-se somente a essa representação, e a dizer, também, a história que acontece em seu tempo e lugar. É difícil não enxergar a fábula tão concisa e bem construída, da derrocada da administradora de um seringal, que após a morte do seu marido busca ocupar o lugar que fora dele, como uma vingança dessas forças ancestrais e pulsantes, que só se mostram nesses intervalos rituais e apoteóticos que retalham a estrutura da peça.

Uma pequena mulher, a mulher comum, e humana, que busca a sua própria ação e enfrenta as questões referentes à sociedade é contraposta uma imagem feminina grande, gigantesca, da floresta, de sua unidade, que alimenta e que dá vida, A Borracheira, porém, não se demora em seus personagens, nem mesmo o suficiente para dar-lhes nome. A história contada na peça funciona como alegoria, ou como ensaio, distintamente lembrando ao menos certos momentos de Augusto Boal. A marca autoral do grupo O Imaginário pode ser vista nessa combinação e junção de elementos, da parábola católica à recuperação de imagens e ritos tradicionais, tecendo uma imagem única, uma ambientação precisa que determina as forças agindo em torno da história contada.


O maior acerto de todo espetáculo está naqueles momentos em que não foge da ambiguidade de sua protagonista, e da linha tênue sobre a qual caminha qualquer obsessão, qualquer missão ou desejo de justiça. Nessas situações, é também impossível não lembrar de Boal, e de seu trabalho em Terrenal, em que se apropria da forma da alegoria bíblica para transforma-la e escrachá-la, aproxima-a da realidade multifacetada e intrincada. O final heroico de A Borracheira, nesse sentido, aparece como um pastiche, como a afirmação que não faz mais sentido na terra que deixou de ser, reduzida agora meramente à sua utilidade econômica. Esse final parece buscar algo que não pode ser recuperado. A redenção não é anunciada, e isso não faz mais que fortalecer a história de sua protagonista. A sua vida está num entremeio, a tradição na qual está intimamente presente, enraizada pela linhagem familiar é aquela mesma que lhe fecha porta, e que tem, com a morte do pai, chefe de família, a perda de um sentido que ela, a borracheira, a heroína e anti-heroína, não pode, por que mais que tente alcançar. O seu fechamento é a redescoberta do próprio nome, isso é a única coisa que recebe do mundo.


Uma história soberbamente irônica, às vezes contra a sua própria direção, e uma peça extremamente bem encenada, criativa em seu minimalismo, A Borracheira é também um espetáculo da espera, e das histórias que não são contadas. A espera do fim das dívidas, da chegada da liderança que se imponha e tome conta do seringal e, sobretudo, a grande espera que marca o final do espetáculo: a espera pela possibilidade da construção de um novo sentido a partir da ruína. É isso que restou à borracheira, fosse essa sua vontade ou não.


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